Um Dia de Cão

Tendo já escrito sobre outros dois filmes (brilhantes) de Sidney Lumet – 12 Homens em Fúria e Escândalo na TV – deixaria órfão o pódio se não regressasse à filmografia do realizador norte-americano para completar o trio com a obra restante que, na minha opinião, se eleva no seu espólio: Um Dia de Cão.

A história é tão inacreditável e inverosímil quanto bem conseguida, mas é na construção dos personagens e na exímia recriação do ambiente (que em crescendo nos vai envolvendo) que este filme se transformou num clássico. Não fosse ter coincidido no ano de Voando Sobre um Ninho de Cucos – 1975 – e teria arrecadado mais alguns prémios da Academia. Contudo, não deixou de levar para casa um muito merecido óscar de Melhor Argumento Original.

Sonny (Al Pacino) resolve, com um parceiro, Sal (John Cazale), assaltar o balcão de um banco em Brooklyn para roubar uma quantia que lhe permitisse pagar a operação de mudança de sexo do namorado! Se o aperitivo é suficientemente estranho para convencer alguém a ver este filme, acrescento que as duas horas decorrem quase na totalidade naquela repartição, com o cerco policial que se seguiu, a negociação subsequente e a multidão que se juntou em volta do acontecimento que teve honras de directo televisivo, para acabar com os assaltantes a recolherem a simpatia do público (gritando com eles Attica! Atica!, solidários com o motim que havia ocorrido na prisão de Attica). Por fim, uma nota em nada desprezível: foi baseado numa história verídica!

Sidney Lumet sabia como poucos extrair o melhor daqueles com quem trabalhava. Al Pacino tem neste filme um tour de force do início ao fim, mas Cazale não lhe fica atrás. Um Dia de Cão é um marco de uma época, um ícone dos anos setenta (uma década imperial no que ao cinema diz respeito) que corporiza a irreverência e a violência que caracterizaram a década, um alter-ego dos movimentos revolucionários e do corte com os costumes, até na própria forma de fazer cinema. No ano seguinte, Escândalo na TV voltaria a quebrar barreiras, mas este enorme filme é algo que merece ser degustado.

O filme apanhou a melhor fase da carreira de Al Pacino. Depois d’O Padrinho, Serpico e O Padrinho – Parte II, Pacino alcançou com Um Dia de Cão a quarta nomeação em quatro anos consecutivos. Por outro lado, John Cazale, cuja doença lhe truncou a carreira no Cinema a ínfimos sete anos, tem a curiosidade de todos os cinco filmes em que participou terem sido nomeados para o óscar de Melhor Filme (tendo três deles saído vencedores).

Um dos segredos deste filme está no ritmo vibrante, que nos mantém agarrados ao ecrã do início ao fim, curiosos pelo desfecho de todo aquele aparato, como se de um manicómio a céu aberto se tratasse.

Vi Um Dia de Cão em casa, na altura em que devorava o que me aparecia dos grandes da Sétima Arte. Mais uma vez (como com quase todas as grandes obras), ele merece ser visto na tela para sentir toda a envolvência. Mais do que um dos grandes filmes da década, Um Dia de Cão é um dos grandes filmes de sempre.

[Este texto não está escrito segundo o novo acordo ortográfico]

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