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Levava na gaiola um pássaro e um coração

Abraçou a gaiola onde levava um pássaro e um coração. O pássaro bicava o coração. Olhou para a interminável escadaria que tinha à sua frente. Apoiou a paciência numa perna. Depois na outra.

Subiu o primeiro degrau.

Não era a primeira vez que ia ao seu inferno. Nem era a primeira vez que saía dele. Mesmo assim, duvidou. Descer era sempre muito mais rápido: um elevador veloz, adrenalina, uma música de notas entrecortadas que circulavam entre o silêncio e deixavam uma energia incómoda e estática na sua pele. Para subir, tinha de confiar nos pés feridos por caminhar sobre pecados, nas mãos queimadas que nunca souberam domar o desgosto.

O pássaro bicou-lhe de novo o coração. Parou. Olhou-os com espanto, ao pássaro e ao coração. Tinha atravessado tantas noites com aquela gaiola desocupada e enferrujada no peito, pensando que o vazio se tornava mais fundo cada vez que o ar passava e lhe custava respirar. Por isso descera ao inferno. Sabia que ficaria suja, mas só dessa forma encontraria um coração que habitasse a gaiola vazia.

Ajoelhou-se e desenterrou encantos no meio dos medos. Os demónios tentavam tapar-lhe o esforço, mas ela não desistia. Voltou a cavar. Plantou sementes que um dia iriam florescer em coragem. E remexeu em toda a terra daquele lugar inóspito. Até o encontrar. Até conseguir tocá-lo com a polpa dos dedos. Até o agarrar com as unhas quebradas. Um coração. O seu coração. Que chocava um ovo de liberdade lá dentro.

Tirou a sua gaiola triste do peito e abriu-a. Deu-lhes casa. Assim que nasceu, o pássaro bicou o coração, porque o desejo de liberdade consegue fazer-nos sangrar. Ou, quiçá, nos fure para podermos respirar melhor.

Abraçou a gaiola com mais força e continuou a subir. Len… Ta… Men… Te. Sentia os joelhos doridos, a pele a lascar, a carne com fendas. Queria gritar e rebentar as ilusões que lhe cosiam os membros e as certezas. Era sempre assim. Quando saía do seu inferno, todo o seu corpo queria expandir-se e ser mais do que era: tudo nela se engrandecia. E quando chegou a meio da escadaria, já se tinha agigantado tanto que só lhe sobravam alguns retalhos de pele antiga.

Rosa Machado

Curiosa e fascinada pelo que não compreende, bicho dos livros e criadora compulsiva de hipóteses mirabolantes. O tempo não existe quando há conversas filosóficas sobre nada, gargalhadas dos amigos, abraços a animais, viagens pelo mundo e todo o tipo de arte.

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