Foi depois do celeuma causado por Branca de Neve que comecei a tomar atenção a João César Monteiro. Eu quero que as más línguas se fodam! Ponto Final! Eu quero que o público português se foda!
A figura franzina, sinistra, doente quase demente, que na altura a sociedade desculpava com rédea larga pela condição de artista, e que se fosse hoje seria trucidado pelo implacável tribunal mediático, captou qualquer coisa da minha condição de curioso/amante de cinema. Na altura com 18 ou 19 anos, não me sentia com maturidade para o que eu julgava ser aquele tipo de cinema, além de lutar contra o preconceito a propósito do cinema português (que ainda hoje acontece, dado o quase deserto desta arte no nosso país: com tão parca produção, só por um bambúrrio de sorte surge uma obra de jeito).
O debate instalou-se sobre o direito a apresentar uma obra cinematográfica sem imagens, apenas diálogos numa sala totalmente às escuras do início ao fim. Imagino os primeiros espectadores, apanhados desprevenidos, ouvindo os primeiros sons à espera do momento em que a luz se abriria para a sala revelando os rostos, as expressões por trás das vozes, os cenários, paisagens, a segunda parte do conceito de audioVISUAL. Só que os minutos foram passando e nada se alterou além de (imagino eu), o desconforto de terem caído numa fraude. Setenta e cinco minutos depois acenderam-se as luzes; não do ecrã, mas as da sala.
O (na altura) ICAM, que financiou a obra de César Monteiro, desdobrou-se em justificações (não sabiam que o dinheiro havia sido canalizado para gravações de vozes em vez de imagem). Outros tentaram compreender o insólito do ponto de vista artístico, como João Benárd da Costa, à data director da Cinemateca, que, à saída do filme, ofereceu aos curiosos jornalistas O Cinema é um conjunto de imagens poéticas.
Anos depois, numa discussão mais ou menos acesa com um chefe no trabalho (eu continuava a ser imaturo) a propósito da subjectividade da arte, a pintura abstracta esteve connosco à mesa do almoço – eu atacava-a e ele defendia-a. Hoje, dou-lhe razão dando-me por vencido – simplesmente não gosto de pintura. En passant, surgiu Branca de Neve. E neste caso, passados talvez uns dezassete anos sobre essa conversa (deve ter ocorrido por volta de 2008), continuo sem lhe dar qualquer razão: legitimar tal obra sem aviso prévio ao que iam (e este era o ponto) quer para financiadores, quer para espectadores, era (e continua a sê-lo para mim) um logro. Como vender um CD de música para ouvir hora e meia o silêncio sem nada que o fizesse adivinhar, ou um álbum de BD com as vinhetas em branco, mas os balões preenchidos… uma conversa entre balões deixando ao leitor a liberdade imaginativa dos bonecos. A questão é que o álbum ainda podemos folhear antes de comprar, e se a decisão de aquisição se mantiver, nada contra.
Muitos anos depois, no início de 2017, conheci a Daniela e a Filipa no curso de História do Cinema dado pelo (saudoso) António-Pedro Vasconcelos. Daniela, a primeira pessoa que conheci que foi ver o filme ao cinema!
Não é novidade que o génio e a loucura andam muitas vezes de braço dado num mesmo ser, e JCM é um dos exemplos mais bem esculpidos desta dualidade. Na altura eu não lhe conhecia o génio, e no jantar final do referido curso, quinze anos após a estreia de Branca de Neve, a inolvidável obra do esquelético realizador português veio para a mesa. A-PV contou-nos que foi ele quem internou JCM (já não me recordo se no Júlio de Matos se no Miguel Bombarda), e concluiu, numa semi-surdina só para nós, os que o rodeavam numa longa mesa para uns vinte ou trinta, O JCM era pedófilo.
Não havia ainda surgido o Me Too e aos artistas muitas destas “excentricidades” eram perdoadas, precisamente por ser aceite que fazia parte do caminho para a genialidade cavalgar sobre os excessos, espezinhando muitas vezes a ética e a decência, o respeito e a humanidade (leiam-se as descrições de Vanessa Springora em Consentimento). No caso de JCM, visto hoje, talvez fosse mais do que isso, talvez o grau de patologia que o acometia fosse mais severo do que a simples veia de artista. Não obstante, e essa é outra discussão, interessante, mas não para este texto: quanto devemos desculpar de um dano causado por uma pessoa doente?
Mas não nos precipitemos: neste momento da história ainda eu não havia conhecido a genialidade do sujeito; somente (parte d)a alienação. A-PV havia internado um homem que fazia filmes. Eu sabia de Mário Viegas e das entradas no Santa Maria após tentativas de suicídio ou crises depressivas, por uma amiga que lá trabalhava, mas não deixava de cair na ingenuidade de considerar que os artistas pairavam, de algum modo, acima de nós, comuns mortais.
Foi no dia 24 de Dezembro de 2024 que vi o meu primeiro filme de JCM. Ficámos o dia em casa, aguardando à lareira pelo final da tarde para irmos passar a noite de consoada com a família. A Sofia não estava interessada em cinema, e eu aproveitei para me estrear com o “maluco da Branca de Neve“. Um dos canais por cabo havia transmitido A Comédia de Deus, e soube de imediato ser o momento. A Sofia a ler e eu a ver o filme de João de Deus (assim se chamava o personagem), e entrar naquele universo meio louco, meio nostálgico para quem vê Lisboa da década de 90 sem ser postalizada, mas sim tratada como um cenário real, que podemos mais tarde usar como ponto de comparação para um presente futuro – aquele 24 de Dezembro.
Woody Allen sempre filmou Nova York como quadros vistos sob perspectivas de turista. Outros filmes, como Serpico, por exemplo, mostram-nos a cidade americana mais crua. É esta a Lisboa de JCM, como havia sido a de Alan Tanner em Cidade Branca, outro filme que a Sofia viu, por mim levada, e que não deverá cair noutra. A Comédia de Deus deixou-me a pensar, o que é um bom indício do seu lugar para a posteridade da minha memória. Foram quase três horas naquela tarde à lareira que me arrancaram do sofá para aquele enredo psicadélico.
Numa abertura fantástica, João de Deus colecciona pentelhos femininos, que guarda com todo o cuidado num álbum plastificado, como se de moedas ou selos se tratassem, acompanhados de uma frase para cada pilosidade coleccionada. No caso, havia recebido uma encomenda com um pêlo púbico da rainha Vitória, e depois de, à secretária do seu escritório, ter analisado à lupa o novo exemplar da colecção e cautelosamente o ter depositado no invólucro, lê a frase que já havia escrito ao lado: Vitória, Vitória, acabou-se a história.
JCM é isto: pelos meandros do delírio reconhecemos algo de maravilhoso, uma imaginação que, apesar de raiar e até ultrapassar a demência ou a depravação, não só nos prende como revela uma inteligência muito aguçada. E já próximo do final, a frase maravilhosa… Não são vocês que me expulsam: sou eu que vos condeno a ficar.
Meses mais tarde, aproveitando um dia em que a Sofia estava fora num curso, procurava eu na box outro filme quando surgiu Recordações da Casa Amarela… outra vez a sintonia mágica entre o sonho e a vontade, e mergulhei novamente em Lisboa, desta vez de 1989, em João de Deus (sempre o mesmo personagem) e noutra história do além, e eu transportado para lá, para esse mundo fantástico que aos poucos vou deixando de estranhar, formando lentamente parte dele, parte desse universo tão estranho que é também o meu, o nosso (é o de todos). JCM é esse génio que nos mostra que o mundo é como poderia ser, e ainda assim manter a coerência, e esse mundo somos nós. Recordações da Casa Amarela talvez seja melhor do que A Comédia de Deus.
O sexo quase insaciável, presente em quase tudo, a crítica social sublime e a comédia que atravessa toda a obra (ambas aliás), fazem destes dois filmes peças de um burlesco que nunca alcança a intelectualidade inacessível pelo pasmo que em nós vai plantando em cada plano, em cada tira dos diálogos maravilhosos. Os diálogos talvez sejam, acima de tudo, onde se vê o trabalho e a singularidade de JCM – divertidos e extravagantes, surreais e contagiantes.
JCM venceu o Leão de Prata do Festival de Cinema de Veneza para melhor realizador com Recordações da Casa Amarela e o Grande Prémio do Júri do mesmo festival com A Comédia de Deus. Nenhum dos dois filmes figura na minha lista dos melhores de sempre, mas num país onde o Cinema é o parente mais pobres das artes que por cá se fazem, termos tido alguém com a audácia para fazer coisas fora da caixa é um feito. Talvez não fosse audácia, mas loucura – afinal pode ter acontecido que o homem tenha simplesmente vertido para a tela as taras que, de outro modo não passariam de casos de hospício ou de polícia; JCM fez delas também obras de arte.
Ao revisitar alguns factos da filmografia de JCM para este artigo, fiquei a saber que Branca de Neve adapta um texto de Robert Walser que dá continuidade ao mesmo tempo que transforma a história original. Já era um projecto arrojado. Apresentá-lo numa sala escura parece fazer parte de uma competição de insanidade entre o escritor suíço e o realizador português.
PS:
A história de outra tirada icónica de JCM mostra como tudo o que vertemos em arte vem do que vivemos. Em As Bodas de Deus, o terceiro e último da trilogia com João de Deus (filme que ainda não vi), num tribunal:
Juíz: – Levante-se o Réu.
JdD: – Levanta-te tu meu filho da puta! Estou inocente para mal dos meus pecados!
Ouvi esta frase pela boca de Pedro Mexia num episódio do Governo Sombra (programa cujo nome não podemos dizer). A frase vem de um episódio que o autor viveu nos corredores da assembleia da República, e que levou a desafiar a autoridade. Fica o relato de Anabela Mota Ribeiro, sobre uma entrevista que a própria havia feito ao realizador, muitos anos antes de a frase fazer parte de um filme, mas anos depois do episódio que a originou:
AMR: – Lembra-se da última vez que chorou?
JCM: – Lembro-me que chorei depois de ter sido agredido por três ou quatro polícias. Chorei de raiva e de humilhação. Ainda por cima foi uma história disparatada. Eu encontrei um tipo que é deputado do Partido Socialista, por acaso um rapaz do Porto, e entrei com ele em S. Bento, na Assembleia, a conversar; depois, ele deixou-me num corredor e eu andei para ali sozinho até que, de repente, me saltam três ou quatro polícias em cima.
AMR: – E agridem-no sem você fazer nada?
JCM: – Exactamente.
AMR: – Está a falar a sério?
JCM: – Estou a falar a sério. Chamei-lhes logo Filhos da Puta, uma expressão que eu utilizo muito. Gosto imenso da expressão Filho da Puta. Tenho uma engatilhada há anos. O meu sonho é ser julgado em tribunal e quando o juiz disser “levante-se o réu” a minha resposta é “levante-se você, seu filho da puta”. Agora, como para chegar até ao tribunal é uma maçada, estou a pensar em metê-la num filme.”
[Este texto não está escrito segundo o novo acordo ortográfico]