Carta ao Pai Natal

Inspirada pela euforia natalícia que nos rodeia, decidi escrever uma carta ao Pai Natal, como tema para reflexão:

“Querido Pai Natal,

Já atravessei mais de meio século, conheci outros continentes e países, outras gentes, outros climas e outras maneiras de viver o Natal.

Recordo-me de um dia, quando ainda era pequena, me pregares um susto com uma pistola de brincar na esquina de uma rua, provocando-me tremores de medo. Desde esse dia, a magia à tua volta quebrou-se e passei a questionar a tua existência e inerente bondade. Debaixo desse fato vermelho de bonacheirão de dessa barba branca, escondendo umas bochechas rosadas, poderia esconder-se um inimigo.

Tentei, então, saber a tua origem, agora que sou quase uma anciã e tenho netos pequenos. Precisava reconstruir a tua imagem para lhes transmitir a tua veracidade.

Descobri que és uma figura ancestral, mistura de história, religião e tradições populares de vários países. A tua verdadeira história provem de São Nicolau, um bispo cristão que viveu no século IV, na região da atual Turquia. Ele era reconhecido por ajudar os pobres, especialmente as crianças, e por dar presentes anonimamente. Era considerado o santo padroeiro das crianças.

Por isso, ganhaste alguns pontos na minha consideração. Passaste a ser, para mim, um tipo simpático e bondoso.

Constatei também que essas vestes e ornamentos tinham sido criados por lendas germânicas e nórdicas, associados aos frios da Europa do Norte. Na Holanda, São Nicolau deu lugar a Sinterklass que levava presentes aos mais pequenos. Os holandeses levaram esta tradição para os Estados Unidos.

E foi aí, sob a minha perspetiva, que te deixaste ludibriar e te transformaste numa imagem aproveitada para promover o consumismo que invade os nossos dias. Passaram a chamar-te Santa Claus. Eras um velhinho alegre, bonacheirão, barrigudo e simpático. Mas foste usado. De figurante de poemas e ilustrações, passaste a ícone da Coca Cola e outras campanhas publicitárias. E foi, por isso, que a tua pessoa se despiu do simbolismo original. A magia quebrou-se. Tornaram-te um produto comercial, o símbolo do consumismo que rapidamente se tem alastrado, especialmente nesta época natalícia.

E foi por isso, que decidi escrever-te. Talvez esta missiva seja enviada por correio, como antigamente. Talvez a endereça a um lugar, algures no frio da Lapónia, onde estarás à lareira, atarefado a preparar as prendinhas para os meninos que necessitam de ajuda. O trenó estará à espera para te levar até às crianças de África ou às dos países devastados pelas guerras, atravessando continentes, sem olhar a fronteiras.

Peço-te que lhes leves tudo o que precisam e…não te esqueças de incluir um brinquedo para arrancares um sorriso ou uma gargalhada infantil.

Sim, porque o Pai Natal deste lado deverá estar algures, esparramado na areia, numa praia tropical a beber Coca Colas, esquecido das carências e fome do mundo, cujas principais vítimas são as inocentes criancinhas. Estará, porventura, entretido a apelar à compra desenfreada, ao consumismo exacerbado, a destruir o verdadeiro esprito de Natal.

Como avó, venho pedir-te que, por favor, Pai Natal, não deixes destruir esse espírito que remonta aos tempos de infância, quando eu colocava o sapatinho na chaminé, à espera de saltar da cama, de madrugada no dia seguinte, ansiosa para receber a prendinha que, por muito pequenina que fosse, me faria feliz.

Lá fora, na escuridão e frio da noite, estarão as crianças, sem lar, com fome, sob o pavor das bombas que tombam sobre suas cabeças, à espera de uma mão com um pedaço de pão, um agasalho quentinho, um abraço. Até se esqueceram de ti, Pai Natal. Para elas, não haverá Natal.

Deita fora as Coca Colas e vai ter com elas, Pai Natal! Deixa-te de anúncios publicitários e regressa à cabana na neve, onde melhor poderás refletir em silêncio! Faz com que esse sorriso bondoso de barbas brancas atravesse o mundo!”

Com carinho e amor,

de uma avó preocupada, mas esperançosa

NOTA: Este artigo foi redigido segundo as normas do Novo Acordo Ortográfico

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