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Crónicas

E agora, voltamos aos beijos?

O que tenho para dizer não será consensual, mas aqui vai. Se há coisa que me encanita é a distribuição de beijos como forma de cumprimento e despedida em convívios alargados. São longos minutos de choques entre bochechas, com a possibilidade de o momento acabar a ser doloroso, sempre que o uso de óculos entra na equação. Tendo dito isto, conseguem imaginar como tenho andado leve e feliz nos últimos dois anos.

Sucede que o uso da máscara caiu e eu temo que os fervorosos adeptos do beijo voltem em força, a tentar recuperar o tempo perdido. Ou será que não?

O que tem acontecido, por estes dias, é que já não sabemos como nos comportar. Há um antes, em que o cumprimento se fazia de beijos ou apertos de mão e há um depois, em que tudo isso se substituía por um simples olá ou um toque de cotovelos. Mas, e agora? Agora chegamos e ficamos sem saber. O que quererá a outra pessoa? Estará disposta a assumir que já não se passa nada ou irá preferir manter a distância, porque mais vale prevenir?

Na verdade, a forma de cumprimento é apenas um exemplo sobre a necessidade de nos redefinirmos enquanto pessoas, de nos reencontrarmos enquanto seres sociais. Somos hoje diferentes. Todos nós. Mas saberemos quão diferentes somos?

Comentava outro dia com uma amiga que nem tudo foi mau nos tempos de confinamento. E foi bom saber que ela partilhava do meu sentimento, o de que aqueles dias em que existiam zero obrigações, zero solicitações, zero cobranças, nos permitiram sentir uma paz que desconhecíamos. De repente, os dias eram todos nossos e percebemos o bom que isso pode ser. A nossa casa acolheu-nos e, talvez pela primeira vez, tenhamos sentido o prazer de estar, simplesmente, sem culpa por termos faltado a um encontro, perdido uma exposição ou falhado uma visita.

Dito assim, pareço um ser anti-social, bem sei. Mas não se trata disso. Gosto muito de pessoas e gosto muito de estar com pessoas. Mas percebi que também gosto muito de não estar. E que por vezes a minha presença se faz, ou fazia, mais por obrigação do que por vontade. E agora? Como explicar aos outros que não deixei de gostar deles, apenas passei a gostar mais de estar sossegada no meu canto, a ler o meu livro no silêncio da minha sala?

Talvez, tal como a minha amiga, muitos de nós sintam o mesmo. Só que andámos tanto tempo a apregoar aos quatro ventos que “éramos tão felizes e não sabíamos” – sendo que esta afirmação por si só daria toda uma outra reflexão – que o mais certo é agora não termos coragem para assumir que já não somos os mesmos. Já não queremos as mesmas coisas, ou pelo menos, já não as queremos com o ritmo e a intensidade com que as queríamos antes.

Tal como após um longo período de imobilização física é preciso reaprender a andar, acredito que após este período de “semi-imobilização” social seja necessário reaprendermos a socializar. Uma aprendizagem que irá exigir de todos nós doses de respeito e tolerância reforçadas. Estaremos à altura?

Pela minha parte, talvez continue a compactuar com os beijos em catadupa como forma de cumprimento, se os restantes assim o entenderem, mas passarei a adoptar a “saída à francesa”. O segredo da sanidade está em manter o equilíbrio.

Nota: este artigo foi escrito seguindo as regras do Antigo Acordo Ortográfico

Joana Kabuki

Há em mim um certo desassossego. uma espécie de formigueiro que me impele à criação. talvez pudesse ter sido um Professor Pardal, ou um Mr. Q., não se tivesse dado o caso de eu e a Física nos termos cruzado sem nunca nos termos visto. Quis o destino que encontrasse nas palavras o sossego para o que me desassossega e desse encontro se revelasse uma alma de escritora. Sim, eu disse que se revelara "uma alma de escritora", não disse que se revelara "uma escritora". Ainda não disse.

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