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Crónicas

Sobe a uma cadeira e faz de galinha!!

o teatro amador e uma miúda envergonhada

Dizem por aí que a vida “é uma peça de teatro” na qual “todos somos actores”…

Quanto a mim? Nunca fui uma miúda popular.

Não tinha 50 amigos na escola, não era convidada para mil festas de aniversário. Ao crescer, não ouvia as mesmas músicas que os meus colegas de escola, não lia os mesmos livros, perdia-me em pensamentos, em viagens na minha cabeça. Perdia me na escrita, na leitura, em filmes de época ou factos históricos.

Por muito que me esforçasse um simples bom dia à entrada no autocarro custava horrores a sair. Ir pedir uma água à Sra. do bar da escola era um desafio e fazer novos amigos estava completamente fora de questão.

Era envergonhada, introvertida, insegura.

Antes de completar o secundário fui forçada a mudar de escola. Aí e porque as disciplinas optativas não correspondiam às da escola anterior fui confrontada com a possibilidade de ter de frequentar “Expressão dramática”!!! Imagine-se! Apenas o simples facto de pensar em subir a um palco era aterrador!

“O que raio me vão pedir para fazer?” pensava. Uma amiga disse-me para não me preocupar, quanto muito pediriam me para subir a uma cadeira e fazer de galinha! Galinha?? Ursa!! Nem pensar! Que vergonha!! Optei por uma disciplina na qual me sentia segura e despachei a dita por exame de equivalência.

Porém, as aulas de expressão dramática eram no polivalente da escola, e assisti a umas quantas. Olhava para os colegas no palco e pensava: eu, em casa, até consigo fazer aquilo!!!

Nesse verão, entre a saída da escola e a entrada no mercado de trabalho, timidamente comecei a seguir o meu pai em tradições populares, rancho folclórico e música tradicional e, por piada, arrisquei participar num pequeno sketch humorístico. E esta, ein? Até me ajeito… As pernas tremiam como canas ao vento, a barriga roncava como um cão raivoso, mas, ao olhar para a frente e ver as pessoas rir, de mim é certo, mas agora com um propósito foi quase uma epifania!!!

E veio outro sketch, e mais outro, e vieram palcos e aldeias, aplausos! E que bem que sabem os aplausos!

Humildemente ouvia que até “tinha jeito” e corava.

Uma vez, já trabalhava quando, numa das corridas aos recados em trabalho, uma senhora me interpela na rua:

– Olha a menina é a Maria Alentejana! Obrigada menina, vi-a este fim de semana na minha aldeia. Adorei!!

E eu corei! Corei de tal forma que achei que ia rebentar! Baixei os olhos e agradeci. Foram cinco segundos de pseudo-fama, mas não era por isso que o fazia!

O gostinho pelo teatro amador começou então a dar-me algo em troca: confiança. As pessoas sorriam para mim, eu devolvia o sorriso, cumprimentavam e eu retribuía. “Se calhar tenho mesmo jeito” pensava.

Surgiu a oportunidade de fazer um pequeno curso de teatro amador. Fui. Surgiu a oportunidade de fazer uma peça! Porra, uma peça!!! Uma peça a sério! E que grande peça:

Shakespeare! A Maria Alentejana a fazer “O sonho de uma noite de Verão”, um verdadeiro sonho!

Foram noites de esforço e o medo da estreia dava-me a volta à tripa e à mente: e se eu não for capaz? E se me esquecer? E se repararem que não digo os “L”? E se correr mal?

Contudo, correu bem. Correu muito bem! Os aplausos, ai, os aplausos!

Aí sim, a miúda envergonhada e tímida desapareceu! O teatro amador deu me confiança, finalmente algo em que sentia que era realmente boa. Ali, em cima de um palco, a ser dramática ou nem por isso. A fazer rir, a ver o público rir. E eu, que nem gostava de palhaços, sentia me em casa e feliz, muito feliz!!

Os anos passaram, fui fazendo uma ou outra coisita por piada. Nada tão grandioso como “A” peça, mas que me traziam igual sentimento.

Nunca segui a carreira do teatro: o teatro não te enche a barriga, diziam. Ah, mas enche!!!

Com o teatro aprendi a dar e receber: a transmitir sentimentos, a receber sorrisos e a devolver os mesmos com toda a confiança. Deixei de falar apenas com os meus botões para falar literalmente com toda a gente, confiança para levantar a cabeça e sorrir, para deixar um sonoro bom dia à entrada de qualquer sítio e, sabem uma coisa? Quando sorrio, sorriem-me de volta, não baixo a cabeça!

E para que vos conto isto? Para correrem todos para um palco, como se fosse a cura de todos os males? Para mim foi o teatro, para ti pode ser a música, a dança, o desporto… Pode ser qualquer coisa! Qualquer coisa que encha a tua barriga! Que te faça sentir confiante, que te faça sorrir e levantar a cabeça. Qualquer coisa que sirva para te valorizares, para te mostrar que és capaz!

Para mim foi o teatro, mas há um mundo de possibilidades!

Podemos ser realmente do mundo, sem perder o que somos. Contínuo a ter as minhas particularidades, mas já não me envergonho delas, contínuo uma (não tão) miúda sonhadora, mas sou uma sonhadora de cabeça levantada. E nesta quadra Natalícia em pleno “novo normal” nada como deixar o sonho comandar um bocadinho da nossa vida!

Dizem por aí que a vida “é uma peça de teatro” na qual “todos somos actores”: que assim seja, mas que seja o papel das nossas vidas.

Andreia Mendes

Natural de Caldas da Rainha, 36 anos. Licenciada em Educação Social. Mulher, Mãe de dois. Com paixão pelas pessoas, pelas palavras, pelas acções, pelo teatro, pela música e claro pela escrita! Incapaz de compreender algumas injustiças por esse mundo fora, por esse tempo adentro.

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