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CrónicasPortugal

Um primeiro-ministro, um vírus e uma app entram num bar

Como tantas vezes acontece a qualquer um de nós. Estava a jantar em boa companhia (o mesmo já não se poderá dizer sobre a companhia da minha companhia) – na esperança de que a noite terminasse em minha casa ou em casa dela – e apareceu um homem com tez goesa, vestido de fato, com óculos, cabelo totalmente branco. Vejo-o dirigir-se à minha mesa e faço-lhe sinal de que não quero flores. Apesar dos meus esforços, o homem não se deteve. Os meus receios pareciam confirmar-se. O clássico: ia mesmo tentar impingir-me flores.

– Qué COVID?

Não percebi bem o que o homem disse mas respondi-lhe, na esperança de que ele se fosse embora.

– Não, obrigado, não quero flores.

Quando tentava retomar a conversa onde a tínhamos deixado, ele volta a intrometer-se:

– Não é frô, é COVID. Qué COVID?

Temi o pior. Percebi imediatamente que estava na disposição de me impingir qualquer coisa. Fosse o que fosse.

– Não, agradeço-lhe de novo, mas COVID também não quero. Se tivesse que optar, até preferia as flores. Em princípio, são mais inofensivas.

– Então, senhor, se não qué COVID, eu tenho uma coisa para si. Posso fiscalizar o seu telemóvel?

Voltei a explicar que não pretendia nada. O homem olhou para mim com ar recriminatório e, antes de se dirigir a outra mesa, riu e disse:

– Eu odeio ser autoritário, eu não quero ser autoritário, senhor.

Confesso que me senti um bocado estúpido – como quase sempre na minha vida -, por não estar a perceber nada sobre o que se estava a passar. Perdi-me na conversa e, enquanto a minha companhia falava, a minha cabeça apenas imaginava o homem a gargalhar, com um gato branco ao colo, fazendo-lhe festas. Antes de conseguir retomar o jantar, o homem volta a interromper-me, agora os pensamentos.

Voltou a rir e a dizer:

– Qué COVID? Eu odeio ser autoritário, eu não quero ser autoritário, senhor.

– Oiça, já lhe disse que não quero nada. Muito menos COVID.

Devo ter feito uma expressão mais agressiva quando lhe pedi para não me incomodar mais porque virou as costas e foi em direcção a outras mesas. Continuei o jantar. Finalmente, uma excelente refeição, uma óptima conversa. Julguei eu. Demorou uma dezena de minutos até aquela voz e um riso me tornarem a sobressaltar.

– Qué COVID? Eu odeio ser autoritário, eu não quero ser autoritário, senhor.

Vencido pelo cansaço, decidi deixá-lo explicar.

Nessa altura, eu ainda estava bastante distraído e contrariado por ter de o ouvir. Iniciou a conversa explicando a importância da higiene pessoal e da importância de prevenir a transmissão de doenças. Pareceu-me uma espécie de preliminar maçador. Depois, falou qualquer coisa sobre estarem muitas pessoas juntas, usando máscaras, e em contactos proibidos umas com as outras em locais fechados. Subitamente, a conversa começou a interessar-me. Quando o ouvi dizer a palavra curvas, fiquei excitado. Quando começou a falar em aplicações, agarrei-me imediatamente ao telemóvel. Quando referiu curvas e aplicações, percebi tudo e instalei, então, o Tinder.

Manuel Jorge

Gosta de massa de peixe, do Benfica e de livros. Não forçosamente por esta ordem. Descobriu a escrita apenas aos 38 anos, mas ainda assim bem a tempo de conseguir desprestigiar esta arte. Acha, também por isso, que tudo lhe surge demasiado tarde e que nada na sua vida é precoce, tirando a ejaculação.

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