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Contos infantis para adultos

Quando eu era pequena, aí pelos 10 anos, a minha prima casou e trouxe para a família o Zé. Ora este, que andaria pelos seus vinte e muitos anos, via desenhos animados e não parecia minimamente incomodado com isso. Confesso que causava em mim alguma estranheza, mas em bom, como agora se diz, porque não era habitual os adultos não só verem, como falarem disso claramente. E eu olhava para aquele homem crescido, e via nele uma capacidade de se manter ao nível infantil, que a maioria perde ao crescer, sem que isso, muito pelo contrário, tenha tido algum impacto na sua maturidade. O Zé não ficou infantil, o Zé tinha e tem ainda, a capacidade de manter em si o fascínio e a criança dentro de si, enquanto em paralelo é um adulto. Não é para todos.

Mais tarde, já com o meu próprio filho, aprendi que os livros e os filmes infantis têm camadas de entendimento. Isso foi muito claro, em pleno cinema, numa cena em que o dentista do filme “Rio” vai numa estrada e é obrigado a parar para deixar passar o corso carnavalesco. Há uma rápida conversa entre este e uma cliente sua, que integra o desfile em roupas reduzidas, sobre o fio dental e a importância de não o esquecer. As crianças leram a importância da higiene dentária, os adultos, bem, vocês sabem…

O que me  leva a pensar que as histórias infantis vão muito além do óbvio, do simples e do elementar. Claro que há uma leitura leve, adequada à capacidade infantil, com uma moral acessível e inequívoca, mas há muito mais, e arrisco a dizer que os grandes clássicos infantis só são básicos para quem não os entendeu. Prova disso será talvez O Principezinho, leitura que de infantil pouco terá. Nas minhas indagações encontrei considerações e referências interessantes, como as seguintes:

  • Complexo de Édipo e Electra: o conflito entre as madrastas e as filhas dos maridos, as invejas e os ciúmes do novo ser emergente, presente na Branca de Neve, na Gata Borralheira.
  • Síndrome de Cinderela: mulher que faz depender da existência de um parceiro amoroso toda a sua felicidade e realização, habitualmente criada numa sociedade machista.
  • A Tentação ou o Mito de Eva: a Branca de Neve é tentada pela maçã, a bela Adormecida que toca no fuso, a Capuchinho Vermelho que cede a falar com desconhecidos e a sair do seu caminho.
  • O Narcisismo e o controlo, manifesto pela madrasta e seu espelho, não permitindo que alguém se lhe assemelhe em beleza. Poderá também o espelho ser entendido como a visão do marido que vê a filha tornar-se uma mulher bela, eventualmente mais do que a própria esposa, e o comenta. O mesmo se lê também na Rainha de Copas da Alice, que manda decapitar todos aqueles que não lhe prestam vassalagem.
  • O Trabalho: os sete anões, tantos quantos os dias de trabalho à época. Tendo em conta que Branca de Neve poderá ter sido baseada em factos reais ocorridos na Alemanha (Lohr), representariam o trabalho infantil nas minas de ferro da localidade.
  • A passagem de modelos bem vistos pela sociedade: a passividade feminina, patente no profundo da Bela Adormecida, que na sua inactividade seduz o príncipe.
  • A Meritocracia, e a defesa do esforço recompensado: a Gata Borralheira que ascende a uma vida melhor pela sua forma de ser, o Pinóquio que sai das mão do velho Gepeto.
  • O Proteccionismo paternal, quando os pais da Bela Adormecida mandam destruir todos os fusos, como forma de impedir o cumprimento da maldição, ou o crescimento da jovem, em ultima análise.
  • A Castração ou limitação dos desejos, vista no tamanho diminuto do sapato da Gata Borralheira, ainda que o calçar do sapato possa ser entendido também como cópula.
  • Sexualidade implícita no vermelho: o corpete vermelho da Branca de Neve, em contraste com o branco da camisa, diferenciando a inocência da infância da jovem que sangra.
  • O inconsciente, angústias, ansiedade na descida de Alice pela toca do coelho e na corrida apressada deste, face às exigências da sociedade, tocando também na crítica pelos hábitos rotineiros e inquestionados.
  • Crises de identidade, presentes na mudança de tamanhos frequentes, para mais e menos, na Alice, que confessa à Lagarta Azul já não saber quem é ela própria, face a tantas transformações.
  • A maturação sexual, na flor cortada que a Bela pede ao pai, como simbolismo da perda de virgindade e transferência dum amor infantil por este, para um amor maduro pelo Monstro.
  • A masturbação e o símbolo fálico no nariz mutável do Pinóquio quando mente, e também no fuso onde a Bela Adormecida se pica, qualquer das situações associadas a actos proibidos ou mal vistos.

E por aí adiante seguiríamos, tanto mais quanto maior for a capacidade de reconhecer simbolismos ou a criatividade de cada um. Claro que as interpretações são voláteis, e a grande riqueza da escrita é precisamente permitir essa compreensão mais ou menos alargada, um pouco como as manchas Rorschach, afinal, onde cada um se espelha.

As grandes histórias, não só as infantis,  trazem sempre mais um detalhe, mais uma sincronicidade a cada leitura, e  a idade também nos vai permitindo fazer interpretações cada vez mais complexas e relacionais. Não nos fechemos à complexidade.

Procura a simplicidade e, depois, desconfia dela.

– Alfred Whitehead

Sandra Ramos

Sou formada em Gestão, com Pós-Graduação em Transportes Marítimos e Gestão Portuária, área onde desenvolvo a minha actividade profissional. Sou adepta da causa animal e voluntária ocasional. Comecei as minhas aventuras na escrita em 2017, com uma Menção Honrosa num Concurso de Autores, tendo a partir daí participado em algumas Antologias e num Concurso de Speed Writing. Fui cronista na revista Bird Magazine e edito uma página e blogue do mesmo nome: Escrevinhar / Sandra Ramos. Descobri que não vivo sem escrever. Apercebi-me, também, que são as nossas características temperamentais mais difíceis que nos aproximam das pessoas com ousadia suficiente para nos amarem.

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