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Literatura

As árvores tristes de Lénia Rufino

Não vou falar da escrita escorreita da Lénia Rufino, da forma como agarra nas palavras, nas frases, sem adjetivações excessivas e dá-lhes a força necessária para amarrar o leitor. A minha intenção é outra.

Apesar do título e da história, O Lugar das Árvores Tristes, romance de estreia de Lénia Rufino, não é um livro triste. Pelo contrário, é uma alegria que deve ser celebrada por todos os que almejam escrever e publicar um livro com uma editora tradicional.

Se é esse o seu caso, então, este texto é para si.

Não vou falar da escrita escorreita da Lénia Rufino, da forma como agarra nas palavras, nas frases, sem adjetivações excessivas e dá-lhes a força necessária para amarrar o leitor.

Não vos vou contar a estória. Desejo antes, que a leia e forme a sua opinião e depois, boa ou menos boa, a partilhe: no Goodreads, no portal online da livraria onde adquiriu o livro, nas suas redes sociais. Experimente ser bookstagrammer por um dia. Como sempre digo (a frase não é minha, nem sei de quem é, mas apropriei-me): os grandes livros e os grandes escritores são os leitores que os criam, lendo, comentando e partilhando.

A intenção destas linhas é outra: evidenciar o que só quem está mesmo dentro deste universo dos livros, do mercado editorial, sabe, e dar-lhe alento, em jeito de humilde recomendação, a si, que deseja gizar este caminho até à publicação, esperança, de que também eu necessito.

Nas últimas páginas do livro e em alguns dos comentários públicos consegue-se antever «a luta» por trás da publicação. Fala-se em resiliência, num nunca baixar os braços, apesar da montanha russa até ao momento de publicar, meramente, o difícil começo.

O exemplo da Lénia Rufino pode, em muitos aspetos, servir de estudo de caso.

Começa por nos demonstrar o papel essencial das pessoas que nos rodeiam, que nos incentivam a não desistir, que acreditam em nós. Ninguém nos pode ensinar verdadeiramente a escrever, mas há muito que um candidato a escritor pode aprender em termos de técnicas de escrita e as formações podem acelerar essa curva de aprendizagem. No caso de Lénia Rufino, João Tordo foi um dos seus formadores, uma espécie de mentor (mas podia ser outra pessoa  — alguém que partilha conhecimentos e fornece aquela visão exterior objetiva construtiva essencial para o crescimento da nossa escrita). A escrita não necessita de ser um ato solitário, principalmente, quando estamos a começar.

É preciso humildade, capacidade de ouvir e aceitar críticas. Desprender o ego das nossas palavras.

O contacto com um mentor (ou uma assessoria literária) poderá ser uma antecâmara para quem tiver o privilégio de trabalhar com um editor tradicional e passar pelas várias mudanças, revisões, edições imanentes ao processo criativo e editorial. Mas, não é o único caminho. O verdadeiro caminho é feito de muito trabalho, muito tempo e um bocadinho de sorte. E a sorte é coisa que dá mesmo muito trabalho, sem atalhos. Se pensa que escrever um livro é só teclar letras para um ecrã quando se sente inspirado, esqueça. Isso é só o início. A parte mais fácil. A distância entre o manuscrito e o que o leitor folheia pode ser do tamanho de um abismo, que só o editor e o escritor reconhecem.

Depois de escrever, reescrever — o tal ofício da escrita — existe a grande, grande, barreira a ultrapassar: «o mercado editorial está com problemas, um novo autor dá prejuízo, mais vale continuarmos com os escritores que temos comercialmente mais viáveis, e mesmo assim, é difícil vender livros em Portugal; as pessoas não leem o suficiente…». É aqui que entra o jogo da paciência do novo autor. A coragem de insistir, persistir e não desistir. Claro, existem atalhos para a publicação (a autopublicação, os prestadores de serviços editoriais — as chamadas editoras vanity), mas hoje, cabe-me apenas refletir sobre o trilho da persistência escolhido pela Lénia Rufino, que a conduziu à Manuscrito e às suas editoras, Marta Miranda e Cátia Simões. «Vocês salvaram este livro e eu não podia estar mais feliz com o resultado final.». Com esta frase, a autora diz-nos tanto. Se não está preparado para outro alguém colocar o corretor nas suas palavras, talvez este não seja o seu mundo.

A Lénia Rufino faz agora parte do mundo dos escritores publicados com uma editora tradicional, conseguiu passar a barreira. Pode demorar oito anos, até mais (ou menos), mas quando existe verdadeiro talento, a oportunidade acabará por surgir. Não desista. Eu não desistirei.

Parabéns Lénia. O teu primeiro livro já nos pertence. A tua história só agora começou.

«Foi como se o mundo inteiro se alinhasse e retomasse o eixo de onde nunca deveria ter saído.»

– Lénia Rufino

Analita Alves dos Santos

Nasceu na Alemanha a 20 de Outubro de 1974. A leitura e a escrita foram sempre grandes paixões. Desde pequena que sonha escrever livros e partilhar histórias com miúdos e graúdos. Em 2019 publica o seu primeiro livro infantojuvenil, «A Irmandade da Rocha - Daniela e o Ouriço-do-mar» que condensa outra das suas paixões: a Natureza. Já participou em várias coletâneas e escreve para diversas publicações. Foi mentora do primeiro Concurso de Escrita Criativa Poeta António Aleixo. Faz a curadoria do clube de leitura «Encontros Literários O Prazer da Escrita» e ministra formações para promoção da escrita e da leitura. Complementando o seu trabalho de autora, realiza ações de incentivo à leitura e à educação ambiental junto de escolas, bibliotecas públicas e feiras do livro.

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