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Contos

Aurora

Aurora achava que sabia o que era o amor.

Já tinha visto filmes românticos, comédias doces. Já tinha visto vezes sem conta que a miúda tímida e desajeitada era como o cisne no patinho feio: desabrochava como um lírio e tornava-se sempre a mais bonita, a mais popular, a mais feliz!

Sonhava com o dia em que isso aconteceria consigo. Por detrás dos óculos de massa preta, Aurora suspirava e sonhava com o dia em que a sua vez iria chegar, e, no alto dos seus quinze anos, Aurora queria ser mais, mais gira, mais magra, mais extrovertida.

O Pedro era tudo menos o herói do filme romântico. O Pedro era reservado, ouvia rock n’roll, usava roupa escura. O Pedro era o amigo que implicava com as boys band no discman da Aurora, que a acompanhava em voltas de bicicleta, que lhe fazia companhia no autocarro de casa para a escola e da escola para casa. Era aquele amigo irritante, que gozava com ela e lhe chamava mimada, que num qualquer passeio de autocarro lhe roubou o discman e a tentou converter ao rock.

Aurora achava que sabia o que era o amor, mas, naquele dia de excursão, entre brincadeiras, cantorias e piqueniques, no caminho para casa, encostou a cabeça ao ombro do Pedro e dormiu. Quando acordou o coração já não estava no peito, estava na garganta. Aurora sentia as tais borboletas no estômago e, quando ao lanche partilharam as batatas fritas de pacote ela teve a certeza de que, agora, sim, sabia o que era amar.

Nos tempos que se seguiram, Aurora não conseguia dormir. Fechava os olhos e voltava directamente para o autocarro, para o ombro do Pedro. Os passeios de bicicleta foram trocados por acenos tímidos na paragem do autocarro. Os CDS no rádio lá de casa, pelo rock. O orgulho crescia por perceber que aquelas músicas “do Pedro” eram as que os seus pais ouviam, aquelas com as quais tinha crescido e que, por acaso, até gostava.

Por isso, quando na festa da aldeia, o Pedro a convidou para “dar uma volta” porque afinal nenhum dos dois sabia dançar, os olhos dela brilharam.

A conversa tida naquele breve passeio ficaria guardada para sempre na Aurora: cravada no seu cérebro e no seu peito como se de uma cicatriz se tratasse. Falaram de música, de bandas, de livros que leram e filmes que viram, falaram no fascínio que os unia. Aos olhos dela, o Pedro era perfeito (sem saber muito bem como, nem porquê), e, a Aurora achou que estava naquele momento: naquela altura em que, no filme, o patinho se transforma no cisne. Estaria ali primeiro beijo? Ali, quase atrás da igreja, com a música de baile a tocar lá muito ao fundo? Contudo, naquele momento o que a Aurora ouvia eram acordes de viola e uma letra à qual nunca tinha prestado a devida atenção. Os olhos castanhos do Pedro eram de uma profundidade tal que, para ela, nada mais existia. O Pedro parecia tão ou mais tímido que ela naquele momento, e, a despedida foi um beijinho na cara, um beijinho na testa e um até amanhã. Ainda não foi hoje…

A Rita e a Joana eram as melhores amigas da Aurora. Naquela noite, ela não dormiu, era impossível fazê-lo. De manhã só pensava em contar às amigas o passeio ao luar. A Joana também tinha ido passear com o Rui, um amigo do Pedro, e Aurora estava ansiosa para saber se, ali do outro lado, alguma coisa tinha acontecido. Estavam de férias, não havia escola naquele dia, mas ainda era dia de festa na aldeia, e à tarde a conversa foi tida entre risinhos em surdina e olhares discretos.

O Verão passou devagar e, ao mesmo ritmo, o quarto da Aurora foi sofrendo uma mutação: os posters religiosamente colecionados e colados nas paredes uns meses antes, deram lugar às letras da nova banda favorita meticulosamente manuscritas e colocadas em micas, as bonecas de porcelana foram guardadas no roupeiro mais alto para nunca mais de lá saírem, as revistas Bravo e Super Pop foram a caminho da reciclagem e poupava a mesada para comprar a Rolling Stone em inglês, claro está. O Pop não mais se ouviu naquela casa, e a roupa pastel de verão, deu lugar às calças pretas e camisolas de gola alta, as botas arrapazadas e ao estilo rock n’roll. Aurora mal podia esperar por Setembro, ansiava pelo regresso à escola e à companhia no autocarro quando teria oportunidade de mostrar que, afinal, também a Aurora era Rock n’roll.

Quando Setembro chegou, no primeiro autocarro da manhã, os seus olhos voaram para as filas do fundo e, claro, lá estava ele, o mesmo olhar profundo, o mesmo cabelo escuro, a mesma pasta preta debaixo do braço, e as borboletas voltaram, o cérebro voou para o passeio de excursão norte, o coração para a noite da festa. Ele sorriu e a memória daqueles acordes soou na cabeça de Aurora. A vergonha apoderou-se dela e sentou-se no primeiro lugar vago.

A Rita esperava na escola.

A sala de aulas da Aurora ficava num segundo andar, lá em baixo, do outro lado do pátio ficava a sala do Pedro. Todos os intervalos Aurora, Rita e Joana corriam para a janela. Os recados voavam quais aviões de papel, já sabiam de cor a hora de saída do Pedro e dos amigos, a hora de chegada à escola, a aula seguinte, a hora de regresso… Aurora sabia tudo o que havia a saber sobre Pedro e isso às vezes não era bom.

O dia chegou em que, a curiosidade levou as amigas até à pasta preta de Pedro que havia ficado “esquecida” em cima de uma mesa no corredor, levou a que inocentemente a mesma fosse guardada no cacifo de Aurora, ainda que à revelia pois, a ideia nem tinha sido dela e aquilo “ia dar asneira”, levou ao confronto no qual ela ouviria da boca dele um “nunca mais te quero ver”, “nunca mais falo contigo”, “tu até eras porreirinha” nunca mais!

Aurora tinha 16 anos…  e a certeza que sabia o que era o amor.

As idas à janela continuaram, mas agora ela ia sozinha, escondida para o ver, ao longe. A Rita e a Joana, entretanto, tinham passado para uma sala perto da de Pedro e, Aurora, observava de longe enquanto os intervalos deles eram passados cada vez mais juntos: Rita e Pedro só os dois.

A Rita era a melhor amiga da Aurora e agora era a namorada de Pedro. Mas porquê? Estaria demasiado gorda? Simples, deixou de comer. Uma espécie de greve mas que não durou muito: apenas até a mãe de Aurora se aperceber e passar a controlar as refeições.

Aurora estremeceu. O mundo desabou sobre a sua cabeça. Escreveu o nome de Pedro vezes e vezes sem conta, encheu folhas, encheu cadernos, chorou, chorou muito, as lágrimas manchavam as folhas, nada mais importava. Nas aulas, as amigas tentavam anima-la, diziam-lhe sabiamente que a vida continuaria, que viriam outros Pedros, que ergue-se a cabeça. Mas, para Aurora, nada mais importava.

O ano lectivo passou. Entretanto o pai de Aurora iria trabalhar para outra cidade. Primeiro o horror de nunca mais ver as amigas, a Joana, a Rita… E o Pedro! Como iria ser… No lugar do coração, Aurora sentia um vazio, feio, frio e deserto.

Naquela tarde, à porta da escola, a Rita chorou. Choraram as duas enquanto Pedro as observava de longe. O carro arrancou e nem um “adeus”, nem um aceno, nem um olhar para trás.

Os anos passaram, passaram 5, 10, 15.

Aurora e Rita nunca deixaram de falar. Já do Pedro, sabe que casou e está bem, mas aquela vez nas escadas, foi a última vez que falaram. Lembrar-se-á dela? Reconheceria-a na rua? Aurora escreveu-lhe muitas cartas, nelas pedia desculpa, reconhecia um erro que, essencialmente estragou uma amizade, mas nunca enviou uma única. Cartas rasgadas, colocadas no lixo, queimadas, e com elas Aurora apreendeu a esquecer.

Aurora cresceu, amadureceu, amou, casou, amou mais ainda. Vieram os filhos, o amor também cresceu. Aurora é imensamente feliz. Passaram mais de 20 anos e Aurora sabe o que é o amor. No entanto, quando aqueles acordes soam na rádio, o seu coração viaja até aquele passeio ao luar e ao que poderia ter sido, e Aurora lembra-se de como aprendeu o que é o amor.

Andreia Mendes

Natural de Caldas da Rainha, 37 anos. Licenciada em Educação Social. Mulher, Mãe de dois. Com paixão pelas pessoas, pelas palavras, pelas acções, pelo teatro, pela música e claro pela escrita! Incapaz de compreender algumas injustiças por esse mundo fora, por esse tempo adentro.

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