Ditadura militar e imprensa: a luta pela liberdade de expressão

Durante os anos da ditadura militar no Brasil, de 1964 a 1985, a imprensa esteve sob o peso de uma censura institucionalizada, que buscava controlar não apenas o que os jornalistas escreviam, mas também a própria percepção da realidade pelo público. Repórteres e editores conviviam com agentes infiltrados nas redações e com telefonemas de censores que determinavam o que poderia ou não ser publicado. Textos eram cortados sem explicações, páginas saíam com lacunas, e em muitos casos, trechos censurados eram substituídos por poemas, receitas de bolo ou citações literárias, uma forma silenciosa de denunciar ao leitor a presença da tesoura oficial. A criatividade jornalística se tornava uma arma contra o silêncio imposto.

Nesse ambiente hostil, alguns veículos se tornaram símbolos de resistência. Entre eles, O Pasquim, semanário irreverente que nasceu em 1969, misturando humor, sarcasmo e crítica política. Cartunistas e cronistas usavam a ironia para dizer o que não podia ser dito diretamente. O jornal, apesar das apreensões e perseguições sofridas, tornou-se um espaço de contestação e também de popularização de ideias contrárias ao regime. A censura obrigava os jornalistas a escrever nas entrelinhas, e os leitores aprendiam a decifrar esse código de resistência.

A repressão, no entanto, foi muito além do corte de textos. Ela atingiu a vida de pessoas. O caso de Vladimir Herzog é um dos mais emblemáticos: em 1975, o jornalista foi convocado a depor nas dependências do DOI-Codi, em São Paulo, e morreu sob tortura. O regime alegou suicídio, mas a farsa logo foi desmentida, e sua morte tornou-se um marco da violência militar contra a liberdade de expressão. Décadas depois, a Corte Interamericana de Direitos Humanos reconheceu a responsabilidade do Estado brasileiro no caso, provando que as feridas abertas pela censura e pela violência continuam a exigir memória e justiça.

Não foi apenas no Brasil que a imprensa sofreu esse cerco. A história da Argentina, do Chile, de Portugal e da Espanha guarda episódios semelhantes, em que o jornalismo foi submetido ao controle rígido de ditaduras militares ou regimes autoritários. A estratégia era a mesma em diferentes geografias: calar a informação independente, sufocar a pluralidade de vozes e fazer do jornal um mero eco da versão oficial. Também no Leste Europeu, até a queda do Muro de Berlim, as redações eram controladas por comissários políticos. O fio comum que atravessa essas experiências mostra que sem liberdade de imprensa não há espaço para democracia real, apenas para o simulacro de participação.

A literatura e o cinema têm desempenhado papel crucial em manter viva essa memória. O livro Ainda Estou Aqui, de Marcelo Rubens Paiva, publicado em 2015, reconstrói a trajetória de sua mãe, Eunice Paiva, que enfrentou a prisão e o desaparecimento de seu marido, o deputado Rubens Paiva, vítima da repressão. Adaptado para o cinema por Walter Salles, o filme homônimo tornou-se uma obra de repercussão internacional, conquistando mais de 35 prêmios, entre eles o Globo de Ouro de Melhor Atriz em Filme – Drama para Fernanda Torres, o Goya de Melhor Filme Ibero-Americano, além do Oscar de Melhor Filme Internacional em 2025. Ao dar visibilidade a uma história atravessada pela violência da ditadura, mas contada a partir da força e da dignidade de uma mulher, a obra reafirma o papel da memória não apenas como registro histórico, mas como resistência cultural.

O legado dessa história continua atual. Hoje não há censores oficiais sentados nas redações, mas o jornalismo enfrenta outras formas de cerceamento. O descrédito sistemático da imprensa, a disseminação massiva de fake news, as campanhas de ódio contra repórteres e veículos de comunicação cumprem, em parte, o mesmo papel de enfraquecer a informação confiável e minar a capacidade da sociedade de discernir fatos de manipulações. Não se trata mais de cortar artigos antes de irem às bancas, mas de inundar o espaço público com ruído, de modo que a verdade se dilua em meio a versões conflitantes. É uma censura diferente, porque não se impõe pelo silêncio, mas pelo excesso, pela confusão deliberada.

Ao revisitar a história da imprensa sob ditaduras, é impossível não pensar nos riscos contemporâneos. A liberdade de expressão conquistada a duras penas pode se corroer lentamente, não por atos explícitos de censura, mas pela normalização da desinformação e pela indiferença diante da violência contra jornalistas. Por isso, lembrar o passado não é apenas exercício de memória, mas um ato de defesa do presente e do futuro. Uma sociedade que esquece que já foi calada corre o risco de aceitar novamente a mordaça.

Em última instância, a ditadura nos ensina que calar a imprensa é calar a cidadania. A história, a literatura e o cinema reafirmam que as vozes que resistiram, mesmo em meio ao medo, abriram caminho para que hoje possamos falar e escrever com liberdade. Mas essa liberdade não é garantida para sempre: ela exige vigilância, coragem e a consciência de que a democracia só se sustenta quando a verdade tem onde ser publicada e lida, ouvida e debatida.

Nota: este artigo foi escrito seguindo as regras do Português do Brasil.

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