A mulher mais bonita da cidade, de Charles Bukowski

Há pouco tempo, envolvi-me em pequenas discussões numa rede social e em conversas de pausa para café acerca da assiduidade de leitura de homens e mulheres; se lemos mais autores ou autoras. Entre várias opiniões, todas elas válidas, a minha distancia-se um pouco, ainda que também válida, para o género do autor/autora como irrelevante na altura de escolher um livro. Opto, sim, pela temática do mesmo, prémios de renome, livros que já li do autor/autora e recomendações de alguém que tenho em consideração para o efeito. Conheço um pouco do ramo, muito pouco, ainda assim, o que não me permite garantir que as mulheres tenham, hoje, as mesmas oportunidades de publicação quando comparadas com os homens; espero que assim seja.

O último livro que li, o terceiro deste autor, foi A mulher mais bonita da cidade. A pequena introdução acima pareceu-me necessária, porque Bukowski pode ser tudo, menos consensual. Contudo, e ainda que o seu conteúdo não seja, de todo, algo que eu ambicione ler, fiquei com a necessidade de voltar a ele amiúde, como se de um Saramago ou Eça se tratasse. A mulher mais bonita da cidade é um livro de contos, pequenas histórias nas quais o autor põe muito do que viveu, de acordo com várias fontes. Temos álcool, sexo, violência, jogo. Necessidades, melancolia e desprezo. Temos, também, o espelho da queda humana.

São textos duros, difíceis, como seria a vida da classe baixa/operária americana do pós-Segunda Guerra Mundial, o que não desculpará atitudes das suas personagens, nomeadamente num conto em particular, em que o humano vil supera o homem racional. Charles Bukowski e os seus alter ego viviam numa Los Angeles desconhecida do ambiente cinematográfico ou dos postais. Americanos sem qualquer esperança no dia de amanhã, sobrevivendo um dia após outro, ao lado do purgatório e do inferno, mas sem necessidade de lá sair.

Volto a um ponto anterior. Porquê voltar a um autor que vulgariza as mulheres e a sociedade, na sua generalidade? Tenho de voltar. Escrevem que a história tem de ser conhecida para não ser repetida. Concordo. Leio Bukowski, porque temos de aprender o que sentiu o lado mais marginalizado da sociedade, seja este ou qualquer texto da sua obra. Leio, porque tenho de tentar sentir, ao máximo, o que o autor pretendia passar; só dessa forma consigo entender e fazer o pouco que consigo para tornar o mundo de quem me rodeia num local melhor.

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