Podes vir partir-me o coração

Rasgas as minhas defesas. Profissionalizei-me em afogar o sentir, mas não te consigo ignorar. Tens a alma bonita de quem persegue, com uma rede de caçar borboletas, as palavras que ficaram por dizer nas madrugadas. As almas bonitas são fogos. Não lhes resisto. Tenho por hábito aproximar-me em fascínio e acabar por me queimar.

Queimar-me em ti.

Os teus olhos perdidos descentram-me o eixo e não consigo pensar. Quero amarrotar o coração e reformular-me. (Quero queimar-me em ti.) Quero correr o mundo de alma desequilibrada. (Quero queimar-me em ti.) Quero navegar à deriva, meio de propósito e meio por acidente. (Quero queimar-me em ti.)

Tu inquietas a minha existência. E eu não me sei sossegar.

És peito aberto e olhos fechados, mãos doridas capazes de criar encantos. Tens a alma bonita de quem embala essas palavras caçadas nas madrugadas, de quem as beija e as cuida e as devolve à noite, preparadas para chegar à boca de quem nunca as disse. Mostras-me: algumas são tuas. Vês: algumas são minhas. Sorris e perguntas-me quando tas direi.

Rasgas-me as defesas.

És capaz de expandir-me até ao infinito:

Quando nos deitamos lado a lado, a ouvir o silêncio, e os nossos lábios quase se tocam.

Quando entrelaças dois ou três dedos nos meus, ao de leve, numa liberdade íntima.

Quando me falas ao ouvido, a tua respiração tem o tom certo para os alvoroços que guardo.

És tristeza e prazer, és o absurdo da vida.

Está bem, eu digo. Podes vir partir-me o coração.

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Mas… Ainda bem que!

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