A Mulher Falcão

Filmes bonitos que vêm de longe, da infância, e deixaram de caber num presente demasiado concreto, postiço, vertiginoso. Filmes que ainda seguram o pouco que me permanece aberto ao imaginário, ao onírico, ao belo, mesmo não sendo grandes obras na escala dos critérios dissecados.

Nos quase sete anos de escrita (não só) sobre cinema que levo no Repórter, fui mergulhando na riqueza da infância pela generosíssima quantidade de filmes vistos em família, os “filmes da casa”, os que gravávamos em cassetes reutilizadas vezes sem conta até a banda inferior da fita acusar o desgaste do amor ao cinema, e sobretudo de um amor partilhado, que no meu caso terá (quiçá) mergulhado muito mais fundo na tela e nesta arte tão especial do que para a restante família.

Nunca revi A Mulher Falcão, mas apaixonei-me por Michelle Pfeiffer e (noutro sentido, ou talvez no mesmo sentido, sendo a “paixão” no sentido de “fascínio” ou “embasbacamento”) por Rutger Hauer. Poderia ser agradavelmente surpreendido, mas este é daqueles filmes em que aposto que me desiludirei quando o revir, em que o espelho onde hoje vejo reflectida a infância pelas memórias cinéfilas desse tempo se estilhaçaria ao toque desta história, com o entendimento do adulto em que me tornei.

Lembro-me do resumo feito pelo meu pai em duas ou três frases, preâmbulo de que necessitava para entender o que via, ainda que tantas vezes cravejasse os meus pais de perguntas durante a visualização para não perder pitada (ainda hoje me irrita, num livro ou num filme, começarem a escapar-me detalhes que, no momento, nunca sei se são dispensáveis ou essenciais, e eu é que sou burro por não entender). Lembro-me daquele desconforto imiscuído no feitiço da história, ao testemunhar um amor impossibilitado pelo desacerto (quantos não existem fora da tela?) cósmico.

Richard Donner tem aqui um rasgo na cinematografia habitual. E que boa foi! O Génio do Mal, Super Homem, Os Goonies, Arma Mortífera (e um que, ao pesquisar para este artigo, captou a minha atenção – Rendez-Vous no Max’s, cujo título original é Inside Moves). Com A Mulher Falcão, Donner demonstra, se necessário fosse (nunca nada é suficiente, pedindo nós tantas vezes provas de versatilidade ou genialidade a quem já tanto fez ou nos deu) aquilo de que é capaz, a sensibilidade para além da acção, do suspense ou da aventura. A aproximação ao belo. 

Passado algures numa era medieval, ela é falcão durante o dia e ele um lobo durante a noite. Condenados a nunca se cruzarem em sintonia, apaixonados sabendo-se distantes, e próximos, com esperança, sem certezas, recordo vagas sensações desse tempo. Com tantas décadas de permeio, mais de três, talvez seja hoje tentado a reinterpretar o que então não aconteceu: a minha angústia perante aquele desencontro, o desejo em ver o Bem triunfar, o sonho de observar os castelos e vestimentas que dava nas aulas de História, e a beleza dos dois intérpretes a agudizar tudo isto em simulacros de paixão platónica.

A Mulher Falcão pode nunca ter sido nada disto e eu hoje o ver desta forma, sem nunca tendo voltado a ele durante todo este tempo, nem sequer através da memória. Somente me surgiu há menos de uma semana quando, ao escrever um conto, percebi ter ele mais semelhanças com este filme (ou com a ideia que lhe subjaz) do que uma primeira impressão poderia trazer. Raras vezes me recordei dele em décadas e agora, dias depois de terminar o conto, ele, o filme, apareceu-me mais vezes do que em toda a vida.

Renasceu, quase com a força de então. E apetece-me revê-lo, não para testar uma eventual desilusão ou comprovar que poucas coisas escapam ao nosso crescimento, mas para viajar. Viajar ao passado e a uma infância que talvez esteja a pedir para ser rescrita, e sobretudo, viajar para longe, para esse lugar onde o sonho e a esperança não estão presos em masmorras, onde amores impossíveis são vencidos e no meio de um mundo hostil, prenhe de maldade, é possível abrir uma janela, cavar uma brecha, construir um lugar diferente, nosso, como na infância, como no respeito, como no amor, o que temos de mais puro.

[Este texto não está escrito segundo o novo acordo ortográfico]

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