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De médico e louco….

Há uns dias, se bem se lembram, o meu artigo incidiu sobre o Burnout numa perspectiva muito pessoal.

Na altura, houve quem me interpelasse, perguntando se não tinha receio das consequências que daí poderiam advir. Tive, claro. Hesitei algumas vezes, indecisa entre a partilha com pessoas que se poderiam identificar, na desmistificação dum dogma, e o prejuízo que isso me poderia trazer individualmente.

Apesar de ser cada vez mais aceite que a doença mental, qualquer que ela seja, é uma doença como outra de foro físico, sobretudo, se não puser em risco o bem social, mas apenas o próprio, é ainda referida com caldos e muita cautela. A reserva acompanha habitualmente o diagnóstico, quando não seja muito óbvia a alteração de comportamento, por um certo pudor e vergonha. A contrario, chega mesmo a ser usada como facto depreciativo, para minimizar a valência de alguém, ainda que não necessariamente de forma intencionalmente malévola.

Embora, pessoal e individualmente, se diga à pessoa em causa, desconfortável com a situação, que deverá procurar ajuda, que não é vergonha nenhuma fazê-lo, que não pode limitar-se a sobreviver sob o jugo da doença sem qualquer reacção, as consequências podem facilmente rasar a desconsideração, a desvalorização pelas suas capacidades, ainda que em períodos transitórios.

Pensemos por exemplo no mercado de trabalho. Se alguém revela ter alguma doença mental, ainda que não influencie em nada o desenvolvimento das suas funções, poderá passar a ser visto como alguém que não está (temporariamente ou não) apto a receber desafios, ou promoções, ou cargos fulcrais. Não é tanto uma questão do cabal desempenho, mas também da eventualidade de surgimento de crises que ponham em causa o desenvolvimento de projectos ou a ineficácia de departamentos essenciais, sobretudo se se for líder de equipa.  Por outro lado, e tendo em conta o ambiente de trabalho, poderá haver quem maldosamente se aproveita dessa situação para se valorizar em detrimento do colega, coitadinho, que até precisa de apoio médico, tal a sua fragilidade. Ou em oferecer-se, legitimamente, para substituir o colega em tarefas mais complexas, o que revela algum tratamento diferencial. Ou ter sido em consideração no recrutamento e renovação de contratos.  Em certas profissões, é mesmo um risco provocando a descida efectiva da função ou o lançamento do descrédito face às suas capacidades para o lugar. No caso dos policiais, o porte de arma pode ser posto em causa, por exemplo, ou nos advogados poderá ser sugerida a incapacidade racional de apreciação de factos.

Contudo, também a nível pessoal ocorrem desméritos, ainda que não intencionais. Se sabemos que alguém, na família ou por entre os amigos mais próximos, ultrapassa uma fase difícil, tentamos não os sobrecarregar com problemas, alterando a forma como lidamos com eles. Isso pode ser sentido pelo doente como carinho e compreensão pela fase, mas também pode ser visto como confirmação da debilidade ou incapacidade, sentida até a nível pessoal. Depois há os parentes que ficam de tal modo preocupados que em vez de servir de ajuda, acabam por causar ainda mais agitação, pela permanente presença ou telefonemas, ou pelo advertimento para problemas que possam derivar da situação, como desemprego ou despromoção, ou incapacidade de cuidar dos filhos ou de si próprio, assustando mais do que promovendo a calma.

Depois há o nível dos conhecidos, que não recebem habitualmente grandes explicações e se põem a indagar perguntas pessoais. Há os que, jocosamente, porque não gostam da pessoa em questão, facilmente justificam as suas atitudes com a doença mental, de forma irónica e desdenhosa. E há os que passam a olhar o doente de outra forma, como se a doença mental, temporária ou efectiva, refizesse o quadro de avaliação que temos uns dos outros, socialmente falando.

 Por tudo isto, há quase sempre alguma discrição com as doenças mentais.

Na sociedade competitiva, a doença, qualquer que ela seja, é vista como uma fragilidade ou incapacidade, muitas vezes mais teórica do que efectiva, pelo que a não assumição é a regra geral.

Assim, por norma, a menos que o comportamento social seja de facto visivelmente afectado, os segredos, as revelações e as franquezas ficam entre médico e paciente.

Isto quando se assume a necessidade do mesmo. O que já é um princípio, mas ainda insuficiente.

Sandra Ramos

Sou formada em Gestão, com especialização em Transportes Marítimos e Gestão Portuária, área onde desenvolvo a minha actividade profissional. Sou adepta da causa animal e voluntária ocasional. Comecei as minhas aventuras na escrita em 2017, com uma Menção Honrosa num Concurso de Autores, tendo a partir daí participado em 4 Antologias e num Concurso de Speed Writing. Edito uma página e blogue do mesmo nome: Escrevinhar / Sandra Ramos, e fui cronista na revista on line Bird Magazine. Descobri que não vivo sem escrever. Apercebi-me, também, que são as nossas características temperamentais mais difíceis que nos aproximam das pessoas com ousadia suficiente para nos amarem.

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