Cinco Décadas de Cinema

Anos 70

Depois dos 40, a segunda melhor década da 7ª Arte. Talvez a grande revolução tenha acontecido neste decénio onde as fronteiras da violência foram sendo ultrapassadas, quebradas, derrubadas, antes do regresso ao conservadorismo que viria a pautar a década seguinte. Mas antes houve este período dourado.

1970 e os clássicos nasceram: Love Story explode com Ryan O’Neal, Ali MacGraw, a partitura de Francis Lai e um estrondoso sucesso popular; MASH explora o humor (negro) como nunca antes havia sido feito contando a história de dois cirurgiões que, na Guerra da Coreia, decidem não levar a vida a sério para se salvarem do inferno; Patton levaria os óscares e consagraria George C. Scott com o retrato do controverso general americano.

Olhando para os anos que se seguiram, é difícil crer que alguma vez voltemos a ser presenteados com tamanha quantidade e qualidade: N’A Última Sessão, Peter Bogdanovich filme a vida de uma pequena vila no Texas nos anos cinquenta, na adaptação do romance de Larry McMurtry; Bertolucci mostrava como se coloca em filme uma profunda dimensão artística, tal a estética de O Conformista; Spielberg entrou na corrida com um filme para televisão, um dos mais brilhantes exercícios de suspense – Um Assassino pelas Costas – onde a estrela é o tenebroso Peterbilt 351, o camião que persegue Dennis Weaver através da América; Clint Eastwood estica mais um pouco a escala da violência com o primeiro filme da série do detective Dirty Harry, A Fúria da Razão; Gene Hackman ameaçou abandonar as filmagens do filme que lhe granjearia o primeiro óscar – Os Incorruptíveis Contra a Droga – antes de a própria cerimónia dos óscares ter sido alvo de diversas ameaças de boicote por um outro filme que nesse ano alargava os limites do que podia ou não ser mostrado no grande ecrã – A Laranja Mecânica de Stanley Kubrick, e Sam Peckinpah alinhava pelo mesmo diapasão em Cães de Palha com Dustin Hoffman e a provocante cena que sugere que uma vítima abandona a resistência a uma violação. 1971 marcava o tom de uma década memorável.

Bergman volta ao recorrente tema da morte com Lágrimas e Suspiros, uma obra simbólica, bela e profunda, adjectivos que se poderiam aplicar a Solaris, filme sobre um oceano extraterrestre dotado de consciência, de Andrei Tarkovski, provavelmente o realizador mais difícil que tentei interpretar. Fassbinder, outro alienado que fazia gosto em chocar, adapta nesse ano a sua peça As Lágrimas Amargas de Petra von Kant mas foi Francis Ford Coppola quem nesse ano escreveu a História maior com O Padrinho, o ícone sobre a máfia que desde o lançamento se fez bigger than life (tendo perdido o óscar de Melhor Filme!).

Reitero a dificuldade, injustiça e pobreza por só poder referir de passagem a maioria dos filmes nesta lista apressada. Cada um destes títulos merecia pelo menos dez linhas de elogios, mas adiante: Papillon, O Exorcista e, sobretudo, O Espirito da Colmeia, a obra de estreia do selectivo realizador espanhol Victor Erice, ocupam o pódio de 1973. E se havia algo que Coppola ainda tinha para demonstrar, era a possibilidade de fazer uma sequela melhor (discutível…) do que a obra inicial com O Padrinho – Parte II: sublime. Esse ano de 74 viria seria memorável para o realizador italo-americano: O Vigilante venceria a Palma de Outro em Cannes. Fassbinder volta à carga com outro filme polémico – O Medo Consome a Alma – tal como Bergman com Cenas da Vida Conjugal. Um filme concorre para mim com a sequela sobre a máfia para o melhor filme desse ano: a homenagem de Polanski ao Film Noir, trazendo Los Angeles dos anos 30 e o detective Jake Gittes, no assombroso argumento de Robert Towne com Chinatown. O filme, que conta com Jack Nicholson, Faye Dunaway e John Huston, tem uma tirada que ficaria:

Most people never have to face the fact that at the right time and the right place, they are capable of anything.

1975 e outro filme para a História: Voando Sobre um Ninho de Cucos, uma homenagem a tudo aquilo que temos de mais precioso! Tarkovski conseguiu transformar imagens em poesia com O Espelho, um filme que me baralhou: até que ponto temos que entender o que estamos a ver para conseguir apreciar? Tal como a poesia, a beleza da forma pode ser tão arrebatadora que nos permita descurar o conteúdo. Sidney Lumet regressa em grande nesse ano com uma obra surpreendente: Um Dia de Cão, onde Al Pacino assalta um banco para roubar dinheiro para que o namorado possa fazer uma operação de mudança de sexo! Baseado num caso verídico. Não podia fechar o ano sem referir O Tubarão, não por ser um grande filme, mas pelo que representou na época e na construção do conhecimento sobre a magia de Steven Spielberg.

Depois de 1939 e 1950, talvez 1976 tenha sido o ano cinematográfico seguinte que congregou tantos grandes filmes: Escândalo na TV, O Homem da Maratona, Rocky, O Caminho da Glória, Os Homens do Presidente, Taxi Driver e O Génio do Mal. Demasiada frustração impede-me de escrever sobre qualquer um deles.

Os três filmes originais de A Guerra das Estrelas faziam parte do espólio de VHS lá de casa, tendo sido vistos até à exaustão (talvez três ou quatro vezes cada um). Annie Hall, do mesmo ano, entrou na minha vida muito mais tarde e ainda hoje permanece como um dos Woody Allens favoritos, tão divertido quanto certeiro na análise das relações humanas. Um filme que me fascinou e ainda hoje o sinto na sua dimensão misteriosa é Encontros Imediatos do Terceiro Grau: Spielberg arriscou e eu gosto quando alguém tenta mostrar que um extraterrestre não tem que ser algo mostrável, à imagem das sensações terráqueas! É um filme bonito. Por fim, o último filme de 77, mais do que a obra, foram as músicas que ficaram e ouvi até à exaustão: o som d’A Febre de Sábado à Noite transmite tanto de um lugar e de uma era…

Talvez Grease, do ano seguinte, seja mais “gostável”, e é uma grande festa! É a celebração da juventude e dos anos cinquenta. Nesse ano, O Expresso da Meia-Noite, filme que colocou Oliver Stone no mapa, apresentou-me a Turquia (!), Sonata de Outono trouxe-me uma amarga reflexão sobre a velhice e Super-Homem, com Christopher Reeve ficou como uma das mais bonitas recordações do cinema de aventura/BD da minha infância. Mas a grande obra de 78 (e um dos filmes da minha vida) foi O Caçador, filme monumental de Michael Cimino, e talvez o primeiro grande filme sobre a Guerra do Vietname, que conta com um elenco de luxo: Rober De Niro, Meryl Streep, John Savage, Cristopher Walken e John Cazale.

O último ano da década compõem-se da ambivalência da passagem de testemunho: se por um lado Apocalipse Now traz o último grande filme de Coppola e o perfil de violência na sequência dos anos anteriores, Kramer contra Kramer abria o livro do que viria a sedimentar a década seguinte, o cinema da família e uma aproximação mais tradicional aos problemas da sociedade. Ainda assim, juntando Manhattan, obra de Woody Allen capaz de rivalizar com Annie Hall (como Nova York fica bonito a preto e branco), fica um belo resumo do cinema de 1979.

Ainda que estes cinco artigos me tenham obrigado a um considerável esforço de memória, organização e pesquisa, de olhar para o passado e perceber que filmes foram importantes para mim, quais é que ainda o são e quais eu deveria excluir, com maior ou menor resistência, o prazer de reviver muitas destas obras (e com elas o período da vida em que as vi e o que ficou dessa conjugação idade/contexto/filme) foi tanto quanta a dificuldade presente em cada palavra devido ao contínuo esforço de contenção. No fim, valeu a pena o desafio: escrever sobre esta arte de que tanto gosto sai com naturalidade; ainda que pouco tenha desenvolvido acerca de cada filme, fica a referência para aqueles que são desconhecidos.

Kramer contra Kramer

Foi consciente a escolha de preencher cada década com vinte, trinta ou quarenta filmes em vez de cingir os artigos a meia-dúzia de obras e dar largas às impressões: as listas dos “cinco mais” ou “dez mais” são insuficientes para quem ama algo como um todo, desde as curtas do longínquo tempo do mudo até à actualidade.

Seja como for, esta viagem à boleia do Cinema tem colorido a minha vida de um jeito que nenhuma outra arte conseguiu fazer até hoje. Mas são só filmes. A vida real acontece deste lado da tela.

Share this article
Shareable URL
Prev Post

Meios de (des)informação

Next Post

American History X

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Read next

I want to ride my bike

Anos 70 No dia 22 de cada mês de Setembro, comemora-se o Dia Europeu Sem Carros e este ano também encerrou a…

Em Setembro…

Anos 70 Ai Setembro, Setembro, o eterno mês do regresso à escola. Relembro que em Setembro ainda de férias já…

Diz me o que vês…

Anos 70Esta semana deixo-vos com uma reflexão a propósito da prisão preventiva de um destacado político…