Cinco Décadas de Cinema

Anos 60

Talvez seja a pior das cinco décadas desta série pensei eu, quando comecei a visualizar o texto deste período mas assim que os filmes foram saltando na mente e a lista engrossando, decidi manter o preconceito inicial para mostrar não só a importância de documentar o que quer que escrevamos, como ilustrar o dinamismo que atravessa a construção de um artigo.

Norman Bates, o psicopata de Psycho de Hitchcock e Elmer Gantry, o charlatão do midwest d’O Falso Profeta de Richard Brooks abrem a década de sessenta, tão rica e revolucionária. Se o director inglês era já um nome feito, Brooks revelar-se-ia em pleno nos anos que se seguiriam. Anthony Perkins e Burt Lancaster têm os papéis das suas vidas e cada obra, a seu jeito, revela-nos variantes de um cérebro doente.

Psycho

Os primeiros anos foram aliás férteis na coabitação entre os clássicos, herdados do período anterior, e um certo experimentalismo que começava a germinar. Arthur Penn foi um dos seus grandes intérpretes no Cinema Americano, utilizando a violência para quebrar barreiras: O Milagre de Anne Sullivan transpõe para o grande ecrã a dura mas inspiradora história de Helen Keller, através de dois magníficos retratos, Anne Bancroft e Patty Duke; um ano antes, em 61, Elia Kazan realizava a última obra do seu panteão, Esplendor na Relva, revelando Warren Beatty e confirmando Natalie Wood, num filme icónico da revolução anunciada para a década de sessenta. Tão ou mais revolucionário foi Kubrick: Lolita é, against all odds (sobretudo nos dias de hoje), uma obra magistral pelo cuidado que foi necessário para, com pinças, conseguir contar a história imaginada por Nabokov acerca de um professor que se enamora por uma rapariga de catorze anos (no livro tem doze). Do lado dos clássicos, David Lean oferecia ao mundo outro poderoso esplendor, Lawrence da Arábia, e Robert Mulligan dava finalmente a Gregory Peck a possibilidade de levar o óscar ao encarnar a figura de Atticus Finch em Na Sombra e No Silêncio, a adaptação da obra de Harper Lee, Não Matem a Cotovia. Os dados estavam lançados.

Kubrick terá sido o realizador desta década, ainda que o único óscar angariado tenha sido para os efeitos especiais. Não obstante, Dr. Estranhoamor, ou Como Deixei de me Preocupar e Passei a Amar a Bomba, de 1964, é só a melhor comédia de sempre (e como é difícil fazer uma comédia em condições!) e 2001, Odisseia no Espaço, no final da década, é qualquer coisa que testa os limites da nossa compreensão. Talvez devamos a essa orgulhosa preguiça a enorme resistência com que esta obra-prima se confrontou.

Em 1965 assistimos a um duelo de gigantes com dois filmes que entraram no meu coração para não mais saírem: Dr. Jivago – perdoamos a David Lean ter escolhido um egípcio para fazer de russo quando o que resultou é uma das melhores histórias de amor algumas vez mostradas na tela – e Música no Coração, o filme cuja popularidade e a mensagem quebraram recordes e corações.

Se Kubrick revolucionou a técnica cinematográfica, ao nível da interpretação, o homem do momento fez uso do seu porte para, através da arte, convocar o mundo para a causa que incendiava os Estados Unidos: Sidney Poitier não foi apenas o primeiro intérprete negro a vencer um óscar numa categoria principal: foi o homem que me ofereceu O Ódio que Gerou o Amor na adolescência, filme que procurei durante anos sem saber o nome; foi o homem que nos convocou a questionarmo-nos em Uma Réstia de Azul e Adivinha Quem Vem Jantar?; e foi o homem que marcou a década com – e estes não são tão grandes para mim quanto foram importantes para a História – Lírios do Campo e No Calor da Noite.

O ano de 1967 terá sido mesmo um dos melhor da década americana: além de No Calor da Noite e Adivinha Quem Vem Jantar, Arthur Penn regressa com as suas sementes de violência em Bonnie and Clyde, sedimentando Warren Beatty e revelando Faye Dunaway e Gene Hackman; Richard Brooks tem um trabalho de câmara sublime, explorando primorosamente o preto-e-branco na adaptação do relato que Truman Capote fez do assassinato da família Clutter em A Sangue-Frio e Dustin Hoffman dorme A Primeira Noite com Anne Bancroft, a mãe da sua namorada num retrato icónico dos anos sessenta.

A década trouxe transformações também ao nível do cinema de acção, com o James Bond de Sean Connery a marca mais icónica. O primeiro que vi, Ordem Para Matar (From Russia With Love) e o meu favorito durante a adolescência Operação Relâmpago (Thunderball) ainda hoje perduram.

No final da década, duas obras maravilhosas demonstram que o cinema havia atingido a maioridade: Mergulho No Passado, a adaptação do conto de John Cheever tornou-se no filme favorito da carreira de Burt Lancaster com a história de um homem que se apercebe que consegue chegar a casa mergulhando nas piscinas de todas as vivendas da vizinhança. John Schlesinger traz-nos Dustin Hoffman e Jon Voight no primeiro filme para adultos a levar a estatueta mais desejada.

E no resto do mundo?

Korusawa, director de que não sou fã, fez Yojimbo no início da década, filme que seria copiado três anos mais tarde, em 1964, por Sergio Leone em Por Um Punhado de Dólares. Jean-Luc Godard carimbou o nome na História com O Acossado mas França não ficou por aqui: Z – A Orgia do Poder, A Batalha de Argel, Um Homem e Uma Mulher, O Exército das Sombras e Os Chapéus de Chuva de Cherburgo reservaram lugar na primeira fila do coração respectivamente pela coragem, realismo, honestidade, perfeição e pelo final. Jean Louis Trintignant talvez se tenha feito no meu actor francês favorito.

Yojimbo

Além dos dois anteriores, marcou também presença em A Ultrapassagem, um road movie de Roma à Toscânia com argumento de Ettore Scola. E de Itália veio também A Aventura, de Antonioni, com um dos desaparecimentos mais intrigantes do cinema, e O Leopardo, o primeiro filme que vi na Cinemateca, há mais de vinte anos, no qual Visconti cometeu a proeza de dobrar Burt Lancaster em italiano ao adaptar o épico de Giuseppe Tomaso di Lampedusa, sem parecer mal! “Para que tudo fique na mesma, é preciso que tudo mude”, escreveu Lampedusa sobre a Itália de Garibaldi. Parece não ser só em Itália. A Estrada é até hoje (e só vi três) o único filme de Fellini que me trouxe algo. O Surrealismo não é a minha praia mas a dureza desta obra e o retrato vivido por Anthony Quinn tem algo de magistral.

De Espanha, novamente Berlanga com Plácido, talvez a melhor obra deste crítico social e mestre da comédia numa aventura em que um grupo de velhotas da alta burguesia decidem que cada uma deveria acolher um pobre na ceia de Natal. A “caridadezinha” é o mote para esta obra-prima.

Por fim, Polanski nasceu nos anos sessenta: Faca Na Água é um dos filmes que todos os cinéfilos deveriam ver, secundado pela perfeição de Repulsa e da magistral expressividade de Catherine Deneuve.

No fim, a década de sessenta mostrou não ser mais a pior das cinco: ainda que na minha cabeça mantenha uma hierarquia, mais por necessidade de conversação do que por uma correspondência à realidade que já não me fala, os anos sessenta foram de uma riqueza e diversidade, técnica, social, humana e de um arrojo que lhe granjearam um lugar único nesta galeria. Pela minha parte, continuo a agradecer e prosseguir nesta viagem, rumo ao último capítulo: a louca década de setenta!

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