Comecemos por imaginar o aroma dos coentros envolvidos no alho, azeite e sal grosso, ao serem pisados juntos num almofariz. Em seguida, adicionamos esta mistura à água a ferver, onde também depositamos fatias de pão duro. Ou pedaços, a que no profundo Alentejo chamamos “motrecos”. E já no prato, como topping, um ovo escalfado e os acompanhamentos típicos. Em minha casa, são sardinhas assadas e figos.
Imaginemos agora esta iguaria na nossa frente, e o deleite a cada colherada. Uma fatia de pão demolhado em água quente bem temperada, com um pedaço de ovo a escorrer a gema pela clara, uma lasca de sardinha bem assada e um doce figo descascado a contrastar deliciosamente com os outros ingredientes aromaticamente opostos, que culmina numa união esplendorosa de sabor.
Façamos agora uma pausa enquanto degustamos um bom vinho.
Reflictamos sobre este prato, recentemente candidato finalista às 7 Maravilhas da Gastronomia Portuguesa. Tão simples, mas de uma enorme riqueza, também ela Cultural, pois marca a história de um povo. Com ingredientes facilmente acessíveis e alguma criatividade, mostra que com pouco se pode fazer muito.
Segundo consta, surgiu de um acaso ou necessidade, pela mão dos árabes e do seu uso de pão nas sopas, numa altura de escassez de alimentos. Saramago escreveu que existiam referências a uma sopa com essas características desde os tempos romanos. Seja qual for a sua origem, foi uma criação brilhante.
Noutros tempos, foi o pequeno-almoço dos meus avós e de muitas outras pessoas antes de enfrentarem um dia de trabalho no campo, ainda antes do nascer do sol. Substancial, ainda que não pareça à primeira vista, dava a “rijeza” necessária para enfrentar um dia de trabalho duro de sol a sol depois de longas caminhadas até às terras onde laboravam. E naquela altura não se usavam os acompanhamentos de hoje em dia (que também podem ser bacalhau, pescada, amêijoas, uvas…).
É conhecida por Açorda Alentejana, no entanto existem outras pelo Alentejo e por isso sempre a conheci por Açorda d´alho. A minha mãe também faz Açorda de Tomate, Açorda de Alface, Açorda de Poejo, todas elas diferentes, mas igualmente deliciosas. Noutras zonas do Alentejo, esses pratos não são Açordas, mas, sim, Sopas. A essência é a mesma. E a sua importância para a região também. Os ingredientes são locais, a tradição mantém-se.
A Açorda é hoje uma referência gastronómica. Já não serve só para alimentar famílias sem recursos para mais. Encontra-se facilmente em qualquer restaurante Alentejano que se preze. E prevalece como uma das preferências de muitas famílias nas suas casas.
Existe até uma canção, ou “moda alentejana” que ensina a fazer a Açorda d´alho:
Alhos, coentros e sal
Também se faz com poejo
Esse prato que afinal
É bem do no nosso Alentejo
Depois dos alhos pisados
E com a água a ferver
Corta-se o pão aos bocados
Está pronta, vamos comer
É fácil fazer
Dá pouco trabalho
É água a ferver
Coentros e alho
Coentros e alho
E água a ferver
Dá pouco trabalho
E é fácil fazer
Com o panito bem duro
E rábano a acompanhar
O azeite bom e puro
Não há melhor para dar
Açorda de bacalhau
Com azeitonas pisadas
Também não é nada mau
Com umas sardinhas assadas
É fácil fazer
Lembro-me quando era moço
Antes de ir pro trabalho
Comer ao pequeno-almoço
Uma boa açorda de alho
Já minha avó me dizia
A força que a açorda dá
Comia todos os dias
E dez filhos estão cá
É fácil fazer
– Tradicional Alentejana
A Letra é de Filipe Romão e encontra-se facilmente na Internet.
Fica a sugestão desta Alentejana, para ouvir e experimentar.
Excelente! Quem lê fica sedento da próxima publicação!