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Ameixadas e tomates – parte II

–   Ainda bem que te assomaste, Felismina.

–  Calculei que aqui estivesses por conta do mesmo motivo.

–  O jantar da Lurdes, não é verdade?

– Verdade que fiquei pensando nisso. Velas… capaz de incendiar o prédio, tu já viste Augusta!

– Será que se acendeu a chama naquele apartamento? E tudo por conta do livro que lhe emprestaste, Mina! Conta-me cá, que dizeres picantes tem esse livro?

– Oh!

– Conta lá, mulher!

­­– Aquilo passa-se numa festa com uma data de moços e de moças. Todos aprumados para as artes do bem fazer. Para lá se esfregam e se enrolam.

–  Ai, senhores. Todos com todos?

–  Sabes lá, começam no jantar. Vão dando umas cousas à boca uns dos outros, esfregam os pés nas pernas debaixo da mesa, as mãos marotas debaixo das saias, afagam as braguilhas. A dureza das braguilhas.

Benzeu-se Augusta. Pobre Cristo, chamado aqui à conversa. É o sinal da Santa Cruz uma espécie de batidas de vassoura no teto do João Miguel. É para chamá-lo a acudir o assunto. Não terá Cristo outros apoquentos mais relevantes, certamente. Continuou Felismina:

–  Se não me falha a memória, não há ordem nos assentos. Bem podem estar três moços sentados de seguida como três moças… ou alternados.

–  E todos tocam em todos?

–  Verdade Augusta, festa rija. A dada altura, já o molho do magret de pato anda pelos peitos roliços de uma e o molho de framboesas, que era coisa da sobremesa, nos dedos de todos. Molho em cinco dedos dá cinco chupa-chupas.

–  Ai, mulher… rebaldaria essa! Mais se sabe que a comida é na mesa e a diversão é na cama. Santo Cristo! Tu queres ver que a Lurdes se deu a esses preparos? Pior! Será que levou a vizinhança a essas coisas, numa altura destas em que deve cada um estar no seu canto? A nós não nos convidou que nos sabe pela decência e bons costumes, evidentemente.

–  Não, mulher, só lá estava o homem. Eu cá, deu-me a espertina ontem à noite e estive atenta.

–  Dá lá aí com a vassoura na parede da Lurdes.

Assomou-se Lurdes.

–  Vizinha Lurdes, atão… tal vai?

–  Olhe, melhor que noutros dias.

– Pois, bem lhe vejo o sorriso. Ontem estava toda montada nos aprumos para jantar. Estávamos aqui pensando o que teria a vizinha cozinhado para tal ocasião.

–  Sabe, vizinha, o importante é que frango saiba a pato e peras a framboesas. Lá que foi uma delícia, isso foi.

Augusta benzeu-se. Pobre Cristo que não tem descanso.
Felismina orgulhou-se, afinal o livro de receitas era seu pertence e quando são nossos os pertences do sucesso, é a conversa outra.

Gabriela Pacheco

Licenciada em Ciências da Educação e Formação. É Gestora de Desenvolvimento e Formação. Tem Certificado de Competências Pedagógicas, Certificação Internacional em Practitioner PNL – Programação Neurolinguística e curso de Graduação em Direcção Hoteleira. Escreve por inevitabilidade. Cultiva a paixão desmedida pela Arte, a Educação e a Formação naquilo que acredita ser a poção mágica para o desenvolvimento humano.

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