A incontestável riqueza da vida: Viajar

Sabendo que as agendas cheias produzem vidas vazias, busco o espaço que me isole para adornar palavras. Na urgência dos dias que correm, parar e até nos aborrecer será sempre um luxo. Quando acumulo tantas notas preparando a viagem complica-se a tarefa da escrita e nem sei por onde começar. Falta uma semana para descolar mas a viagem já começou faz tempo. Desde o tempo que nasci, crescendo me apercebi. Que a nossa cidade, seja ela qual for, é perfeita para passeios peripatéticos. Pisemo-los então, através de vielas ainda não exploradas, com a cabeça e olhos despertos a tudo o que nos rodeia. Viajar é considerado o processo natural de crescimento do ser humano. Porquê? Apenas nos libertando das raízes, das rotinas e certezas que vamos construindo dia-a-dia, repetindo caminhos e tarefas, descobrimos a nossa real ignorância. Qual o nosso verdadeiro tamanho? Somos pequenos perante o mundo, nem sabemos mas somos confrontados com tudo isto quando viajamos. O desconforto estimulante da viagem está em saltarmos do aconchego do sofá e ir por aí descobrir o que é diferente de nós, sob outro ângulo, seja a que distância for.

Se quanto mais o homem estuda, menos se vê o animal que esconde dentro de si, podemos também concluir que o esforço de viajar torna, de certa forma, o homem mais empático com o outro. O contexto constrói-nos, pois somos resultado da consequência de uma repetição de estímulos à nossa volta, e ao colocarmo-nos mais perto da realidade daquele que é diferente de nós torna-se mais árduo criticá-lo e não compreender os seus problemas ou a sua cultura. A proximidade aos problemas torna-nos menos afoitos a soluções fáceis. A democratização da viagem através da globalização, processo que critico nalgumas das suas dimensões, talvez não tenha tornado o mundo mais tolerante. O que faltará a essas viagens para não enriquecer tais pessoas? Será que não entendem que a viagem é tão mais valiosa quanto mais nos conseguirmos ligar aquele que é diferente de nós?

A viagem vai-se tornando concreta desde o momento da escolha da rota. A aproximação ao destino nasce assim, na nossa boca onde se explicam os lugares, a língua e as datas à família, amigos e conhecidos que os reproduzem por outras paragens, fazendo a viagem tocar destinos ainda mais longíquos. Na nossa mente desenhou-se já um imaginário recheado de personagens, narrativas e relatos com que sonhamos antes de chegar. Produzimos listas, desejos e zonas que consideramos imperdíveis. Depois concluimos que vivenciámos a confirmação ou a negação de tudo o que tivera sido planeado. A história costuma acontecer quando algo sucede que não estava idealizado. E esses momentos insólitos, quando ocorrem no estrangeiro ganham o mesmo poder de uma música. Criamos uma ponte na nossa memória que ligará para sempre o local, as sensações ou a pessoa ao tal episódio da ratazana no restaurante, no problema transfronteiriço ou o assalto no parque.

Só compreenderemos a nossa pequenez física quando nos surpreendermos perante as distâncias que perfazem o nosso planeta. Apercebermo-nos que as crenças dogmáticas de nada servem quando temos um prato de grilos à nossa frente, ou outdoors inspirados em frases filosóficas por uma cidade inteira ou quando uma criança aspira as mesas de um restaurante.

As viagens servem para assumirmos comportamentos diferentes e por isso vemos turistas que não frequentam museus no seu país a visitarem as colecções de arte dos países que conhecem, pessoas que se deslocam de carro no seu país a andarem a pé e de transportes públicos quando são turistas, ou a tentar comunicar com desconhecidos quando no seu prédio nem um olá dizem ao vizinho. O contexto transforma-nos e todos levamos algo disso na bagagem para o resto da vida. Quando viajamos deixamos não só os nossos hábitos mas a família, os amigos e bens materiais em casa. Encontramo-nos despidos, frágeis e a realizarmos coisas que não estamos habituados em locais inexplorados e concordamos que voltamos mais enriquecidos. Então, para crescer talvez devamos incorporar o eterno espírito de inquietação a que José Mário Branco fazia loas, ou como o poeta Sufi Rumi assegurava “pela ferida entra a luz”.

Há desconforto que nos demandará um olhar mais profundo o tempo inteiro. Resta-nos abraçá-lo. Até já, Rio de Janeiro.

Share this article
Shareable URL
Prev Post

Escravos ou Senhores

Next Post

Pragas

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Read next

Impressões de Arouca

Santa Eulália, Domingo, 30 de Maio de 2021 Na varanda aberta para a montanha, viajo nos sons da noite, pelas…

O último dia

No último dia de uma viagem como esta senti um misto de sentimentos. Estive fora 10 dias e naturalmente já…