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Viagens

Por fim, em casa

Chegámos a Portugal, dia 19 de março. Voltámos à terra que nos viu nascer nas primeiras horas da madrugada de quinta-feira. Pisando o aeroporto que evoca a coragem do general sem medo, ziguezagueámos amedrontados pelo deserto que pairava na zona das chegadas. A polícia controlava quem entrava e saía do aeroporto. Passaram vários dias até que conseguisse ler ou escrever. A ansiedade e a preocupação preenchem uma área demasiado vasta no cérebro, para que nos consigamos libertar e voltar à rotina. Viajar é sempre uma loucura, como diria Afonso Cruz, mas nunca nos sentimos tão distantes de casa como nestes sete mil e tal quilómetros que nos separavam da família, dos amigos e da nossa alegre casinha. Continuamos sem poder estar com eles fisicamente, continuamos a senti-los mesmo assim, mas sabemos que se algo acontecer estamos aqui perto.

Alguns autores lamentavam-se por vivermos tempos difíceis para a escrita, pois a própria realidade alimentada por Trump, Bolsonaro, Johnson, Ventura ou fake news, ultrapassa qualquer distopia. Pois bem, não sei de que forma esses escritores descobrirão por agora imaginação, talvez a apocalíptica. Estamos todos anestesiados com a imagem cheia de avenidas com ninguém lá dentro.

Mesmo antes de viajar, a OMS desaconselhava as viagens que não fossem essenciais. Monitorizámos os mapa-mundi, que indicavam ao segundo o número de vítimas do SARS-CoV-2, e nessa altura apenas existiam dois casos confirmados em território brasileiro, para mais na cidade de São Paulo pela qual nem passaríamos. 7 de março, em Portugal encontrávamo-nos ainda na fase de negação, fértil em anedotas e descredibilização do problema. Decidimos partir.

Fazíamos escala em Madrid por umas horas e por aí já existiam dezenas de casos. Então, optámos por fazer quarentena voluntária no quarto do hotel. O voo da Iberia durou 11 horas, foi sublime até começarmos a sobrevoar o estado do Rio de Janeiro, onde recordo o maior susto num transporte aéreo. De repente, ambientei-me à fé religiosa que vive em cada brasileiro. A pancada estonteante foi metáfora premonitória do que seriam estas férias.

Os primeiros dias foram romance puro, como avisa Drummond de Andrade acerca da cidade que estava escrita no mar. Puro flirt. Por ali, movimenta-se a bossa que ecoa em cada esquina do Leme junto à caipira que sua gelada pela mureta da Urca. O altinho que convida a esticar-nos pela praia de Copa, “Reage, Ipanema, reage!” o pedido do vendedor que nos diverte e lá atrás o projecto artístico financiado pelo ex-banqueiro que oferece esperança à Rocinha. A Europa esquecida, entretanto misturada, entre o quilombo africano e os primeiros indígenas do centro do império. O rio que encontra as águas do mar de um março demasiado quente, demasiado límpido, penso que até Elis permitiria este excesso de adjectivos na leitura da realidade carioca. O céu com as estrelas desenhadas por Búzios, a comida aconchegante e a empatia lusófona, insistiam para que ficássemos. Do outro lado da linha e do mar: o pânico justificado pelo que não queríamos crer.

Sempre que nos ligávamos recebíamos pedidos de regresso, notícias chocantes e nós de calção ainda a pingar água salgada, enquanto observávamos a vida normal ao nosso redor. A preocupação crescente surgia à distância do clique e encontrava entropia no contexto em que estávamos inseridos. Nem o gel, nem o papel higiénico estavam esgotados, o telejornal da Globo ainda falava do Flamengo e do mister, enquanto o chefe de estado mais irresponsável do mundo abraçava toda a gente nas suas manifestações paneladas. Tínhamos de decidir entre continuar a desvalorizar a informação que recebíamos ou tentar usufruir das férias que já não eram normais, por mais que quiséssemos. Não era mais possível ignorar. A decisão final surgiu, quando as fronteiras se começaram a fechar, a linha de emergência para portugueses no estrangeiro se encontrava inatingível, tal como o Ministério dos Negócios Estrangeiros, e apenas um email do consulado no Rio de Janeiro nos aconselhava que devíamos partir o quanto antes. Por isso, até já, Brasil.

Francisco Mouta Rúbio

Licenciado em Publicidade, trabalha em audiovisual e social media e está sempre rodeado por cultura, futebol e filosofia. Autor do podcast Dedo no Ar.

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