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Éire

Era o mês de Junho, aterrámos em Dublin e fomos em direcção ao hostel reservado, para largar bagagem, bem no centro da cidade, na zona de Temple Bar, cujas fachadas estão mais para cenário que para realidade. O quarto era minúsculo, com espaço para um beliche vermelho e uma janela que não esqueço: por ela entrou o sol já bem lançado ainda não eram seis da manhã do dia seguinte. Naquela altura do ano, os dias são bem grandes na Irlanda, como eu gostaria  que fossem cá… Do hostel, nada mais. Da rua, para onde calcorreámos com o intuito de escolher um bar adequado ao momento (jogava Portugal no Mundial de 2014 e o Nuno fora munido do seu cachecol, havia que lhe dar uso), os Irlandeses. Nada de novo, íamos sentar-nos com umas pints a transitar rapidamente à nossa volta, ver um jogo de futebol que passa em milhares de écrans gigantes distribuídos pelos bares da zona, mas estávamos na Irlanda, e os Irlandeses fazem festa, de tudo, enquanto os deixarem. Os cachecóis são variados, as pints também, há novos, médios, velhos, crianças, todos a dedicarem-se em efusão ao momento – menos eu, pouco efusiva neste rito tão universal de ver uns tipos a correr para lá e para cá, atrás de uma bola que durante uns bons noventa minutos parece ser o centro do Mundo. Para nós não durou muito, Portugal perdeu.

Jardins Trinity College
Jardins Trinity College

De Dublin, Temple Bar, aquele espírito que ali vive e só descansa nas primeiras horas do dia; os músicos que tocam aqui e ali, sem critério de instrumento, e colhem sempre atenção. A política é clara: “se queremos que continuem a tocar nas nossas ruas, temos de os incentivar, por isso paramos e deixamos umas moedas”, palavra de irlandês. Nas noites dos bares há festas e música boa, mas despretensiosa, para todos. E os irlandeses. Da capital, para quem, como eu, considera que só aquele ar que se respira já ensina tanto, fica também o Trinity College, que alberga na sua biblioteca com nome de filósofo o Livro de Kells, com uns jardins que convidam mesmo a estar na universidade, não necessariamente a estudar.

Alugámos um carro, com cheiro a novo, diria eu de uma média gama, que nos custou por uma semana aquilo que julgámos ser o preço por dia, e lá fomos com mais dinheiro no bolso enfrentar o trânsito de Dublin, pela esquerda. A pechincha do aluguer pagou-se  em nervoso miudinho. Fui de pendura (ai não), sem largar a sensação de estar a fazer rotundas do avesso, mas o carro tornou-se um bom companheiro, levando-nos a sítios incríveis e os condutores daquele país verde revelaram-se amigáveis e os que considero ser, até hoje, o melhor exemplo de condutores civilizados. A maior parte do trajecto foi feita por aquilo que podemos chamar de estradas secundárias, onde existem acostamentos sucessivos, para que o condutor mais lento, seja de que veículo for, possa encostar para deixar passar quem vai apressado. E assim fazem. Não há cá o “se tem pressa, passe por cima”. Vão tranquilos no ritmo e na vida. Como gostei dos irlandeses.

Depois de Dublin, escolhemos descer, passámos por Wicklow, com um parque lindo, depois fomos em direcção a Kilkenny, cidade hospitaleira, com lojas de fachadas convidativas e um castelo bonito, e os Irlandeses. Lembro-me que estava sol e as ruas cheiravam a protector solar, recordando a baixa tolerância dos irlandeses ao astro maior.

Wicklow National Park
Wicklow National Park

Depois Killarney, mais a Sul, linda, sem excessos, onde ficámos num hostel que parecia uma casa de hobbits, assim como o dono, meio encurvado, que desaparecia inadvertidamente no meio do labirinto que albergava os hóspedes que também éramos. Depois Ennis, porque havíamos lido algures que era um local importante na cena musical do país, mas chegámos a meio da semana, havia pouco movimento nas ruas, os irlandeses estavam recolhidos. O que dizer das cidades sem pessoas? Bom, alguns estavam recolhidos, enquanto os mais novos estavam reunidos no lobby do nosso hotel para uma festa de finalistas. Então ali ficámos, numa mesa de pé alto, a observar aquele desfile de jovens de cara imberbe, ténis e camisas gastas, em contraponto com elas, que se haviam aprumado para a mais importante noite das suas vidas, dedução que nos foi óbvia atendendo à indumentária. Saltos impossíveis que lhes comprometiam o andar, mas não a determinação, penteados de cabeleireiro, acessórios emprestados das mães, vinham chegando em grupos, soltando aqueles gritinhos de excitação. Depois entravam por uma porta subterrânea, após o desfile que lhes permitia mostrarem-se adequadamente, e desapareciam para dentro da boîte. Não poderiam imaginar um tal covid, e ainda bem.  Durante aqueles momentos fomos os únicos não adolescentes presentes, ali especados a observar aquele episódio tão marcante da vida deles e tão desmedido para nós, agora.

Daí fomos para as majestosas Cliffs of Moher para nos deixarmos maravilhar com aquilo que a Natureza faz; depois o horizonte por vezes lunar de Glendalough, outra maravilha, em paisagens que se são às pessoas na

Cliffs of Moher
Cliffs of Moher

mesma medida que aos animais, que por ali andam num pasto livre e sem pressa.  Entretanto era tempo de voltar, pelo que marcámos a penúltima noite já para perto de Dublin, de véspera. E como estas coisas podem correr bem! Ficámos num edifício universitário, St Patrick’s College, Maynooth, que mais parecia a escola de Hogwards, que, por ser Verão, tinha os dormitórios dos estudantes disponíveis, encontrando neste tipo de aluguer uma forma de fazer face à manutenção daquele complexo, plantado sobre jardins que davam chão a inúmeros pavilhões. Fomos recebidos pelo porteiro com alguma solenidade, pedindo-nos pouco barulho naquela hora tardia. Impossível o silêncio, com as portas de madeira que rangiam a cada movimento, dentro de paredes largas que se faziam revestir por retratos dos ilustres daquela universidade. Estiveste aqui, não estiveste Harry Potter? Depois de reconhecido o quarto onde íamos ficar, resolvemos dar um passeio pelo complexo, que emanava aquela calma meio assustadora da noite, e qual não é o nosso espanto quando, num dos pavilhões mais afastados, nos deparamos com um encontro mundial de Salsa! Desde as indumentárias à música, passando pelo serviço de bar, tudo estava oleado e aprumado, nos recantos de um dos mais importantes colégios religiosos da Irlanda… ali ficámos meio perplexos sem perceber logo o que estava a acontecer, recuperando daquela transição abrupta da noite. Assim vi a Irlanda, meio morna, sem grandes excessos, sem chamar demasiado a nossa atenção, mas com surpresas inesquecíveis e sucessivas estejamos nós dispostos a ver. Não há que ter pressa nem é preciso dizer que é o melhor ou maior ou mais belo ou o mais… do Mundo.

Este país que parece secundário, com uma história recente que teima em ficar nas segundas páginas dos livros, cujos gritos precisaram de ecos de bandas de rock, foi-me oferecido como um segredo acessível, com paisagens que parecem ter sido desenhadas por essa tal mão providencial, e com uma dimensão que permite ao humano ser humano. E, de humanos, os irlandeses.

Sàinte

Joana Martins

Sou a Joana, fácil de convencer com Sol, mar (tão cliché e tão verdade), viagens, leituras, aprender, animais, conhecer, pessoas, yoga, crossfit (a aprender a lidar com os meus paradoxos), caminhadas, Arte, boas conversas, amigos, Música (nem toda), amores, chocolate, Filosofia, palavras, Ericeira, Literatura, alimentação saudável, Natureza, bons encontros e uma insatisfação latente em fase de mitigação. Não compreendo quem continua a deitar lixo no chão e no mar. Aviso aos incautos: posso pensar demais...

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