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A Existência Etérea da Mulher Volátil

A primeira vez que se sentou no consultório daquela psiquiatra foi uma espécie de teste para ambas. Para ela, porque se apresentou ali contrariada, referenciada pelo médico de família e pelo marido, tão chato um como o outro; para a médica, porque há muito que não apanhava uma dessas que se acham superiores à ciência e à doença mental. Passaram uma hora em silêncio, a médica a olhar para ela, ela a olhar para dentro. Saiu conforme entrou: calada e doente. 

À noite, deitada na cama, voltaram os fantasmas. O medo de morrer, a solidão a morder-lhe os calcanhares, o desamor a rasgar-lhe o céu da boca. Era como se estivesse algemada a si mesma, presa dentro de uma cela que era a sua própria cabeça. Ainda que quisesse fugir, não tinha para onde ir. Sentia-se o cão que corre atrás da própria cauda, incapaz de perceber que se persegue a si mesmo. Sempre que julgava entender o sentido de tudo aquilo, percebia que estava tão ignorante como no início. Não era um retrocesso; era a inércia absoluta, a paralisia que a incapacitava.

Sempre fora dada ao existencialismo. Questionava tudo, principalmente a sua própria permanência na Terra. Segundo ela, era a prova de que a teoria de Darwin era falaciosa. Nem sempre são os mais fortes que sobrevivem. Ela, mera consumidora de oxigénio e demais recursos, devia ter sucumbido há muito. Porém, persistia. E continuava à procura de uma teoria que, contrariando a de Darwin, explicasse a sua existência. Nunca a encontrou.

O que encontrou, da forma mais inesperada, foi um homem disposto a suportar-lhe as crises. No dia em que deu por si parada junto à porta da sua casa, sem ter a mínima ideia do que fazia ali, sem saber onde estava ou para onde ia, aquele homem segurou-a pelo cotovelo e convidou-a a sentar-se no degrau da entrada do prédio. Olhava-a como se olham os pinguins no jardim zoológico, com a curiosidade de quem vê pela primeira vez uma coisa que sabe existir, mas nunca viu ao vivo. Ela própria tinha o comportamento de um animal de cativeiro: viva, contudo deslocada, como se fosse expectável que existisse num habitat muito distante.

A curiosidade dele fez com que a aproximação se desse. Ela desculpou-se, explicou que de vez em quando tinha umas crises, era como se deixasse de estar cá para passar a estar num sítio que nem ela mesma conhecia, como se planasse, quase como se num estado de meta-existência. Ele não entendeu, mas o exotismo de tudo aquilo atraiu-o e ele não foi capaz de deixá-la para trás. Exibia-a em silêncio perante os amigos. Subiu ao lugar de mártir, coitado, tinha uma mulher esquisita, era o santo que lhe aturava todos os devaneios. Ele recusava o epíteto, mas apreciava a atenção. Quando questionado, dizia que a mulher tinha tido um trauma de infância, qualquer coisa grave que nunca fora capaz de lhe contar, e que a deixara assim, catatónica e ausente, perturbada e quase nula, como se se transformasse num ser gasoso que se dissipa pelo ar nos sítios por onde passa.

A verdade é que não houve nada na vida dela que se tivesse parecido com violência traumatizante. E talvez fosse precisamente esse o problema. Sempre fora o elemento neutro, a filha do meio, dois filhos mais para cima e dois mais para baixo. Para ela, a única saudável, sobravam os silêncios. Habituou-se a existir como se não existisse. Desligava amiúde, ficava a olhar o vazio, perdida algures num espaço lácteo absolutamente oco. Se lhe perguntassem, diria que tinha estado a dormir. 

Este estado de semi-dormência foi a forma que encontrou para que ninguém a incomodasse. As doenças dos irmãos e as preocupações dos pais eram uma carga pesada que aliviavam passando-a para ela. Mas ela não tinha nenhuma maleita de que dar conta. Talvez tenha entrado num processo de doença por osmose. O que é facto é que, o que começou como um escape para o peso que a rodeava, cedo se tornou numa preocupação. Se não estava doente, alguma coisa estaria para vir. Não fazia sentido que fosse a única isenta. Teria de estar prestes a acontecer alguma catástrofe que a levaria a uma morte lenta e agonizante. Começou o medo. Primeiro um sussurro, um murmúrio suave que surgia de vez em quando. Depois o grito constante aos seus ouvidos, Vais morrer, não tarda estás morta, é hoje, está quase, não há nada que te salve. Deixou de dormir. Passou a atravessar as noites num estado de semi-consciência, sempre sem se deixar adormecer com medo de não acordar. Deu por si efectivamente doente. E o alheamento começou a servir de esquecimento para a doença que agora tinha.

Percebeu que os seus medos existiam apenas na sua cabeça quando, mortos todos os irmãos, ela continuava viva. A hipocondria não a deixava alongar-se numa constipação que fosse. De tão habituada a médicos e exames, já só sabia existir assim, em avaliação constante, sempre a antecipar a doença fatal que haveria de a debilitar até que se apagasse. Nunca aconteceu. Mas os estados de alheamento davam-lhe um espaço mental onde gostava de se prolongar. Era como se trancasse o mundo fora de si e pudesse existir em sossego naquele recanto. Percebeu também que, por ser considerada frágil, tudo lhe era permitido. Começou por experimentar fazer um comentário despropositado no café, seguido de um olhar vazio pousado numa racha junto ao tecto. A reacção foi de silêncio: ninguém lhe chamou a atenção. Voltou a experimentar a sua teoria uns dias mais tarde, com uma conhecida com quem não se cruzava havia muito. De novo, reacção idêntica. À terceira, arriscou. Chamou velha à porteira velha que já era velha quando ela nasceu. A mulher olhou-a sem verter uma palavra e fechou-lhe a porta na cara sem a bater.

Já estava neste ponto quando conheceu o que haveria de se tornar seu ex-marido. Não lhe apeteceu contar a história. Ele não lhe pareceu demasiado preocupado com a questão, pelo que o silêncio servia a ambos. Evitou expor-se demasiado, de início. Tratava-o como se trata a porcelana herdada da avó, com um cuidado quase serviçal. A ele, o que intrigava era a forma como ela passava de um estado a outro sem que nada o fizesse prever. Os mais desatentos não dariam conta, sequer. Tentava decifrá-la, mas não havia um padrão que o ajudasse a entender o que a pusera assim, ou quando ela voltaria àquele limbo estranho. Portanto, ela passou a ser uma espécie de desafio que eliminava qualquer resquício de monotonia. Ao lado dela, a vida era uma surpresa. Fazia-lhe perguntas que, pensava ele, lhe trariam a explicação necessária sem serem demasiado invasivas. Ela raramente respondia. E acontecia responder coisas diferentes à mesma pergunta, se ele a fizesse em dias distintos. Aos poucos, começou a duvidar. De vez em quando parecia-lhe que ela sorria por detrás do ar perdido, como se tudo aquilo a divertisse e entretivesse. Talvez fosse impressão – tinha de ser, ninguém seria retorcido a ponto de se comportar assim.

Ela não entendia a permanência dele. Talvez precisasse de uma penitência e ela fosse o modo de a obter. Só isso explicaria que este homem, em tudo um homem absolutamente normal, se contentasse com isto, uma mulher volátil, dada a estados de alheamento constante. Pior: não entendia como é que ele, que primava pela inteligência e pela perspicácia, não tivesse ainda estranhado a forma como ela alternava entre estados de consciência. Nunca a apanhara em falso, apesar de ela ter, a espaços, provocado situações que poderiam ter levado a que a sua máscara caísse.

Ele acabou por se cansar. Nunca conseguia prever quando a mulher estaria cá ou lá, era uma vida de roleta russa diária. E, apesar de apreciar a atenção que a situação dela lhe trazia, a verdade é que aquilo lhe dificultava a vida mais do que ajudava. Já perdera a conta às vezes em que o estado catatónico e alheado dela o deixara ficar mal em convívios sociais. Aquela vez em que, na festa de Natal da empresa dele, ela se dirigiu ao director-geral e lhe disse que o marido se referia sempre a ele como “o coninhas”, soltou uma gargalhadinha ridícula e, desatando a falar da iluminação esquisita do espaço, virou costas e se plantou no meio da sala, de olhos fixos no tecto. Ou a reunião familiar em que, perante irmãos dele e respectivos cônjuges, começou a falar da futura distribuição de terrenos e propriedades, que seria feita de forma absolutamente desequilibrada, beneficiando claramente o marido em detrimento dos restantes herdeiros. E nem foi isto que chocou toda a gente; foi a forma como ela disse que em menos de um ano os pais deles estariam mortos e que os sabia a eles, herdeiros de uma pequena fortuna, activamente empenhados em fazer com que este prazo se cumprisse. A insinuação de que estaria a acontecer um conluio que levasse à morte dos sogros granjeou-lhe o lugar de persona non grata e baniu-a de reuniões futuras, deixando o marido numa posição complicada, entre a lealdade ao sangue ou ao amor. 

Para ela, tudo isto era apenas um jogo. A certeza de que tinha um poder interessante em mãos, que lhe permitia provocar reacções e desafiar convenções, dava-lhe ainda mais espaço para se movimentar. E o facto de o marido a ter sempre defendido com base no suposto trauma de infância fazia com que ninguém ousasse enfrentá-la. Estava, portanto, na melhor das posições. Apenas ela se sabia sã. Aos olhos de todos, era a descompensada que não se podia contrariar. Porém, também isto lhe parecia demasiado fácil. Haveria certamente um preço a pagar, e ela não estava certa de estar disposta a fazê-lo. As noites eram cada vez mais confusas, como se fosse aí o seu momento de juízo final. Não dormia. O seu cérebro era cada vez mais um emaranhado de coisas aleatórias. Por isso, quando o marido lhe fez o ultimato, tratar-se ou ficar sozinha, ela aceitou que o medo da solidão era maior do que o medo do tratamento. Debateu-se, argumentou com ele, resistindo apenas o suficiente para parecer contrariada, mas não intransigente. 

Quando a médica lhe falou nos comprimidos, aquiesceu. Claro que sim, tomaria tudo conforme indicado, só queria voltar a dormir. Estes meses todos depois, a sua cabeça já era uma amálgama de passado, ilusões e ansiedades várias, que se digladiavam sem rei nem roque, árbitro nenhum capaz de pôr ordem naquilo. Para ela, o momento em que deitava a cabeça na almofada era como ajoelhar-se em frente ao pelotão de fuzilamento: tinha a certeza de que ia morrer, só não sabia quando, nem quão doloroso seria. Talvez tenha entendido mal a prescrição médica, mas pareceu-lhe que tomar tudo de uma vez lhe traria um alívio mais permanente. Não se enganou.

Lénia Rufino

Escreve porque não sabe fazer mais nada. Mentira. Sabe, mas não gosta tanto. Criadora compulsiva de personagens com distúrbios psicológicos graves e dona de um fascínio absurdo por mentes conturbadas.

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