Cancelado!

Um regime de democracia apresenta um conjunto de critérios que o distinguem de uma ditadura. Regra geral, um país vive em democracia se os líderes são eleitos por sufrágio universal, em condições de liberdade individual e sem constrangimentos, como também pela rotatividade dos governantes. Não é suposto que alguém se perpetue no poder.

Outra caraterística é a liberdade de pensamento e expressão do mesmo. Por outras palavras, ausência de censura e liberdade de expressão. Ao longo da História assistimos a eventos e instituições que tinham por objetivo silenciar o pensamento divergente. Assim, para combater a Reforma e estimular a pureza católica, criou-se a Inquisição. Através da tortura e execuções públicas em autos da fé, como os realizados no Rossio, em Lisboa, expressões diferentes de religiosidade eram punidas, onde o supliciado era queimado vivo.

A censura às liberdades passava, também, pelo crivo do que era aceitável ou não. Para isso, a censura prévia assegurava que as pessoas não se “contaminassem” com escritos “subversivos” ou ideias “perigosas”.

Hoje assistimos a um fenómeno semelhante, mas de orientação diferente. No passado a censura impunha-se desde cima. Eram os governantes ou líderes religiosos que impunham as restrições às liberdades. Atualmente é de direção horizontal ou vertical ascendente e é mais conhecida como cultura do cancelamento. É horizontal porque é exercida entre pares e vertical porque é um movimento que pode iniciar nas bases da sociedade e só parar nas elites.

Podemos considerar que é um movimento recente, especialmente através do movimento #metoo, e existe uma certa analogia com o ato de bloquear alguém nas redes sociais. Funciona cancelando uma pessoa pelas suas atitudes, comportamentos ou falas (presentes ou passadas) e o objetivo é fazer justiça popular.

Há quem argumente que é uma forma de responsabilizar alguém por algo que cometeu. Mas, se assim é, para que servem os tribunais? Recordo-me de uma série (House of Cards) ter sido cancelada porque o seu ator principal, Kevin Spacey, foi acusado de abusos sexuais; a sua carreira nos palcos desvaneceu-se. A justiça popular foi rápida a exercer o seu julgamento sumário e este ator deixou de representar. No fim das contas, o tribunal decidiu absolvê-lo porque não existiam provas das alegações dos seus acusadores. Entretanto, a sua imagem estava denegrida o suficiente para não ser reabilitado. Quem pode ser responsabilizado por estes danos?

Em nome de uma certa cultura onde tudo é perfeito e o politicamente correto impera, não é admissível o contraditório. Aliás, vou mais longe: não é admissível a existência do que e quem não se alinha com a minha cosmovisão. Tudo o que vá contra em que acredito tem de ser colocado num auto da fé virtual e “queimado” o suficiente para ter a sua merecida punição.

As consequências desta sociedade-em-que-tudo-é-perfeito são muito interessantes. Em primeiro lugar, tende a não existir diversidade de opiniões, com receio de que se possa ir contra o politicamente correto. Para alguns adolescentes o medo do cancelamento é grande o suficiente para, nalguns casos, desenvolverem depressão, ansiedade ou pensamentos suicidas. É o medo de se expressar e ser condenado pela maioria que tende a suprimir as suas opiniões e visões do mundo. Este é o mesmo medo que os nossos antepassados tiveram de polícias políticas ou da Inquisição…

Outra consequência da sociedade-em-que-tudo-é-perfeito é a polarização social. Em parte, este fenómeno deve-se ao próprio funcionamento das redes sociais, através dos algoritmos que escolhem o que vemos tendo como base os nossos interesses. Ou seja, as redes sociais digitais promovem que vivamos em bolhas temáticas onde somos constantemente “alimentados”. Deste modo, cria-se uma cultura assente no tribalismo onde quem não faz parte do meu grupo é um inimigo e, por isso, tem de ser cancelado.

Crescemos moldados por valores e princípios que nos ajudam a viver em sociedade, mas quando obrigo outros a viverem conforme a minha cosmovisão, o que me distingue de um qualquer ditador? Vivemos numa Era onde o acesso à informação nunca foi tão grande, a liberdade de expressão e afirmação constituem-se direitos fundamentais de uma democracia madura, mas através do politicamente correto restringimo-nos a nós próprios. Desta vez, não são instituições que nos obrigam a ter a mesma forma de olhar o mundo, mas nós mesmos.

A cultura do cancelamento promove julgamentos precipitados e algumas vezes sem fundamento, acabando com carreiras de pessoas ou obrigando ao exílio social. As suas consequências ultrapassam quem é cancelado, chegando mesmo a provocar depressão e ansiedade só do medo que se tem de ir contra a opinião geral.

Share this article
Shareable URL
Prev Post

Ovos e coelhos, será a Páscoa?

Next Post

Bermudas

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Read next

Nova pornografia

Em meados dos anos 90, ainda não existiam telemóveis inteligentes nem redes sociais, a televisão por cabo era…