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Números e mais números

Certa vez, li uma frase enquanto fazia refresh no feed do Facebook que traduzida para português dizia algo como:

Salário mínimo em Portugal 600€

1 quarto para arrendar em Portugal 400€ ou mais

Pergunta ao teu rececionista como é que ele(a) vive?

Esta pequena mensagem suscitou-me um interesse tal que até a guardei no telemóvel. Levantava uma questão pertinente e inevitavelmente mostrava uma realidade que muitos de nós não vemos ou fingimos não ver.

Como é que, de facto, pode alguém viver com um salário de 600€ quando para ter um teto precisa de entregar praticamente todos os seus rendimentos? Rendimentos esses que, na maioria das vezes, são conquistados com muito trabalho, suor, dor e alguma tristeza à mistura.

Quando uma pessoa pagar a renda de T1, pagar as despesas inerentes ao mesmo: condomínio, água, lixo, luz e afins, quanto dinheiro sobra para colocar comida na mesa? Para se vestir? Para transportes? Para a escola dos filhos? Isto, presumindo do princípio de que tem apenas um filho e se ajeita num T1 e já aceitando que o saldo será negativo ao final do mês e que contas ficarão por pagar.

Inúmeras vezes, ao andar pela rua, deparamo-nos com moradias inacabadas, prédios que se ergueram e que jazem vazios nas sombras, grafitados e imundos. Não sei se sou só eu (espero que não), mas o sentimento de impotência é constante, faz-me recordar sempre uma frase que deve ser conhecida dos leitores: tanta casa sem gente, tanta gente sem casa.

Vivemos numa sociedade onde tudo se rege por números: o salário, a comida, a casa, a roupa, o transporte, a educação, até o divertimento. Não há nada que façamos que não tenha um preço. Até o nosso tempo tem preço. Até a vida humana tem preço. Uma pessoa morre e outra é indemnizada pela sua morte, como se fôssemos mercadorias, como se dinheiro algum fosse capaz de suprimir a dor da perda, a ausência da vida. É incrível como os valores da nossa sociedade estão tão trocados e nós vamos fechando os olhos, tentando ficar alheios à pobreza que consome as ruas.

A questão do ordenado mínimo nacional dá imenso pano para mangas, mas hoje, deixo-vos apenas com esta reflexão: o dinheiro compra-te teto, mas não te compra as estrelas. Ainda que só te ajude a sobreviver, ainda continuarás a ter dentro de ti, a força para acreditar num amanhã melhor.5

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Letícia Brito

22 anos. Escritora e fotógrafa. Autora dos romances, Nos Braços do Vagabundo e O Dia em Que Chegaste. Bloguer no Minha Querida Isabel onde reúne mais de 122 mil leituras. Apaixonada por gatos e cinema mudo. Leitora compulsiva.

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