Depressão e ansiedade

[Nota: Este artigo pode conter frases que podem ferir a susceptibilidade de jovens ou pessoas que estejam a sofrer de depressão, auto-mutilação e até ansiedade, para contar o meu testemunho e sensibilizar outros com este tema.]

Ainda bem que Setembro já terminou, porque eu venho falar de algo que devia ter relevância em todos os dias da nossa vida e não só no mês de Setembro. Acredito que conhecem ou já ouviram falar do Setembro amarelo, a causa solidária de prevenção ao suicídio. Chega o mês de Setembro e parece que as pessoas ficam solidárias, amigas e preocupadas com a causa, tudo mentira! Só histórias para boi dormir e eu não consigo fechar os olhos a isso.

Depressão e ansiedade não são brincadeiras. Os sinais nunca são bem claros de início, são sempre ignorados. É algo tão sorrateiro, que passa ao lado até aos mais atentos. Nunca percebemos como chega, só sabemos depois de se instalar.

A depressão ataca de diferentes formas, afinal nós humanos não somos todos iguais. No meu caso, começou como se nada fosse (como sempre…), com a auto-estima baixa, bastante insegurança, afastei-me das pessoas que amava e deixei de fazer o que amava também, de alguma forma, as coisas deixaram de fazer sentido para mim. Foi o tal isolamento social (o meu começou há quase 10 anos, irónico).

Os pensamentos negativos passaram a dominar a maior parte dos meus dias, aquelas vozes chatas que ecoavam dentro de mim parecendo serem as únicas coisas que me faziam companhia, e a pior parte é que não tinha com quem falar mesmo que quisesse. Quem passou e passa por isso sabe do que falo, as pessoas dizem que te entendem e que percebem o que estás a passar, mas a verdade é que não entendem nada.

Desde pequena sempre fui ensinada a demonstrar como me sentia, mas nunca demasiado. De alguma forma, acredito que isso tenha contribuído para o meu isolamento.

Deixei de comer, e foi nessa altura em que as coisas começaram a piorar para mim, tornei-me anorética e dois anos depois descobri que era anémica. Comecei a frequentar psicólogos e afins, o que não adiantou muito porque tudo o que eles conseguiram fazer foi instalar o pânico em mim.

Auto-mutilação não é para chamar a atenção de ninguém. Sinceramente, este é um dos pensamentos mais pobres que um ser humano pode ter. A dor física não se compara em nada com a dor emocional.

“Mas o quê que isso tem haver com a depressão?”. Tem tudo!

O ser humano é sistemático, tudo em nós está ligado de alguma forma, e quer acredites ou não, a mente tem mais força sobre o corpo do que o corpo sobre a mente. Mens sana in corpore sano.

É difícil explicar como a auto-mutilação começa, porque começa. No meu caso, eu estava a me afogar na angustia e dor que vivia, que era a depressão e precisava de urgentemente de encontrar algo que me aliviasse.

Foi então quando fiz o meu primeiro corte. Eu pensava que ao trocar a minha dor emocional pela minha dor física, que eu estaria bem e eu estive, mas por um momento. Depois daí tornou-se um vício, eu tinha a constante necessidade de fazer essa troca. Depois do primeiro corte tu não consegues parar.

Suicídio é algo muito sério. Eu pensava em suicídio mais vezes do que as que gosto admitir, eu cheguei de realmente tentar o suicídio três vezes. Uma pessoa no mundo se suicida a cada 40 segundos e as pessoas não entendem a gravidade disso.

“Não devia bater bem”, “Que burro”, “Que estúpida”, “Pessoas com verdadeiras razões para morrerem continuam vivinhas da Silva ”, “Era frescura”.

São estes tipos de comentários que começam a matar uma pessoa por dentro, as pessoas realmente não vão entender o que passas até que passem pelo mesmo.

Não digo que já não tenho, mas as coisas são diferentes agora. Eu agradeço  muito à minha mãe, sem ela e o seu apoio eu não sei o que seria de mim hoje.

Sejamos mais gentis, pessoal. O mundo já é ruim o suficiente. Hoje é com alguém que não conheces, mas e se fosse contigo? Com alguém que amas?

Share this article
Shareable URL
Prev Post

Anjos na Terra e no Céu

Next Post

O que faz uma Marca uma Marca? O que a faz durar?

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Read next

Açúcar, doce açúcar

Não consigo viver sem açúcar. Bombons luxuriantes com um toque fresco de menta, cheesecake impregnado de creme…