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O Nome da Solidão

Era apenas mais um nascer do sol. Rotineiro e solitário como sempre o foi ali, em pleno Deserto do Mojave. Nesse mesmo momento, a idosa Sra. Janice acorda e levanta-se da sua cama. Meia hora depois está a fazer o seu caminho diário. É curta a distância, são cerca de duzentos metros percorridos com os seus passos lentos, atravessando a linha férrea antes de se encaminhar para a sua loja. Em todo o percurso, vai arrastando a sua fiel cadeira, sulcando a areia seca do deserto, como que marcando o caminho de regresso.

A sua loja foi outrora uma antiga bomba de gasolina junto à berma da Route 66. Está há muito desactivada mas nunca Janice deixou de ali passar os dias, assistindo ao deambular do tempo enquanto espera que ele termine. Chega junto ao velho edifício e senta-se na sua cadeira. O intenso calor não o sente, faz já parte de si. Ela é já uma parte do deserto. E com ela, naquele local, a solidão adquire um novo nome, o seu próprio nome, Janice.

Permanece impávida, sentada durante horas. Na sua mente, vê o desfilar das suas memórias, tão distantes e vivas por tão bem as sentir. Recorda os bons anos daquela cicatriz no deserto que é a Route 66. Recorda os carros e as pessoas que ali paravam. Relembra como, paulatinamente, foram deixando de aparecer com a abertura de uma nova e moderna rede de auto-estradas. E relembra o seu marido, o dia em que ela acordou e ele, ao seu lado, não mais o fez. Hoje, Janice fica a ver passar um ou outro carro naquela estrada, talvez sete ou oito durante todo o dia. Mas já ninguém ali faz uma pausa, nem o seu amado, vindo de outra realidade.

Um carro branco estranhamente sai da estrada. Um jovem abre a porta e sai munido de uma máquina fotográfica. Primeiro capta um plano global da ruína do antigo edifício que já foi a loja da Sra. Janice, mas que hoje não são mais do que um conjunto de paredes de madeiras apodrecidas pelo sol. Paredes que protegem espaços do vazio, onde vivem o nada e o eterno. Depois o jovem foi-se aproximando. Fotografou demoradamente a velha bomba da gasolina, cercada de vegetação alta e seca. Tentava resistir ao tempo, mas ia aos poucos cedendo ao desuso após ter já cedido ao esquecimento.

Janice observa o jovem no seu silêncio, renovando a sua noção de movimento. Algo que era para si pouco mais do que o andar das sombras ao longo do dia. Só então o jovem sentiu a presença de Janice e aproximou-se. “Bom dia!”. Ela olhou-o sem lhe devolver o cumprimento. A sua audição começara a fraquejar há anos. Não por um qualquer problema de saúde, mas tão só porque esquecera ao que soam os sons das pessoas. O jovem parou e fixou o olhar em Janice. E afastou-se ao reconhecer a solidão nos olhos dela. Sorriu para ela por sentir que naquela solidão não vivia a tristeza, talvez a saudade de mãos dadas com a memória, mas não a tristeza. Era apenas a solidão na sua mais pura essência, quando retira a significância aos sentimentos comuns de quem vive lado a lado com outro ser igual.

No seu íntimo, Janice tremeu. Desabituada ao contacto humano, apenas sentido por um homem distante que semanalmente lhe entregava comida e outros bens, aquele cumprimento de um jovem desconhecido, libertou algo em si, talvez pouco, mas algo. Só que esse pouco foi uma pequena faísca de comunhão com sentidos que há muito estavam adormecidos. Pela primeira vez em muitos anos, Janice sentiu uma centelha de vida, um brilho de um olhar, o calor das vibrações de uma voz. Só que após tão longa desaprendizagem, já não sabia como responder. Ficou apenas vê-lo a fotografar uma paisagem que era a sua. Depois viu-o regressar ao seu carro e desaparecer na estrada, tão depressa como aparecera.

Durante a tarde, não voltou a sentir a passagem de ninguém. O tempo avançou e as sombras dançaram. Apenas viu os longos comboios de carga que, ali ao seu lado passaram sem nunca a incomodar. Janice acostumara-se a vê-los como um elemento da paisagem, não um rasgo de vida. Um rasgo de vida foi o que ela redescobriu nessa tarde. Foi-lhe trazido por aquele jovem que ali parou, a ela se dirigiu e para ela falou. Ele trouxe-lhe vida. Vida que ela carregou a par da sua cadeira, no regresso a casa, quando naquele dia, o sol voltou a beijar a linha do horizonte.

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André Araújo

Licenciado em história da arte, é a arte das histórias que me move neste mundo. Os mundos de Homero e de Virgílio, de Kafka e de Marquéz, de Bukowski e de Fante, são onde encontro as palavras que me definem e me atormentam, na contínua aprendizagem pessoal para construir o MEU próprio mundo.

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8 thoughts on “O Nome da Solidão”

  1. É preciso muita arte para se falar da solidão de uma forma tão carinhosa!
    Obrigada por mais uma viagem

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