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PolíticaPortugal

Votar: direito fora de moda?

Dois anos volvidos sobre as eleições legislativas, onde me estreei como escrutinadora, voltei a ser desafiada para integrar uma mesa de voto, desta vez como secretária. De imediato me ocorreu a frase do Richard Branson, fundador do Grupo Virgin: Se alguém lhe oferecer uma oportunidade incrível, mas você não tem certeza de que consegue fazer, diga sim – e depois aprenda como fazer.

Não integro nenhum partido, embora tenha as minhas simpatias e também profundas antipatias por alguns partidos. Então por que aceito estes desafios? Pelo valor que recebo não é de certeza, posso mesmo dizer que nunca fui tão mal paga, dadas as 12 horas de abertura ao público (8:00 / 20:00), fora os preparativos e contagens finais. Também não é, claramente, o ter-me levantado às 5:30 ou ter voltado a casa pelas 02:00 do dia seguinte. É, como sempre, a experiência humana e social. Neste caso, o salário emocional, como agora se usa dizer, é imenso.

E portanto, juntando a descontração, a estupidez natural e o gosto pelo desafio, lá fui eu para um dia que se sabia imenso, com a mais -valia de este ano, por não ser escrutinadora, e portanto não estar com o nariz enfiado nos livros –  Manuel Joaquim da Costa Oliveira Mendes  / Confere / página 136 – ter mais oportunidades de observação e estudo. E assim foi.

A equipa, que desconhecia por completo, formada por 2 escrutinadores, 1 secretário, 1 vice-presidente e 1 presidente, apresentou-se pelas 6:30. O tom de cooperação foi imediato, bem como a boa disposição possível àquela hora. Afixaram-se os editais, orientou-se o espaço, abriram-se os calhamaços de papel, contaram-se os impressos de votos. Às 8 da manhã havia fila para votar. Entra o primeiro eleitor, que testemunha a urna vazia, e iniciam-se as votações.

O que nos é dado a ver numa mesa de voto, arrisco a dizer, é quase material sociológico. Assustador, às vezes, divertido, outras, mas sempre, sempre, passível de conclusões interessantes. Enquanto esfregava os olhos de madrugada, vejo os idosos, as pessoas com dificuldades locomotoras, de bengalas ou amparadas em terceiros, a amanhecer por ali. Os jovens? Nenhum.

Volto aos meus papéis. O secretário é o rei dos papeis: envelopes para a Junta, para o Tribunal, para a Câmara. Certidões, Certificados, Recibos, Actas. Vou preenchendo e organizando o possível ao longo do dia, com a consciência que o trabalho maior e mais importante será no fim, quando a contagem se iniciar e a equipa já acusar o cansaço.

Levanto os olhos, cumprimento os vizinhos que vêm votar, trocam-se meia dúzia de palavras.

Às vezes, para descanso rotativo, assumo o caderno do escrutinador. E de facto constato coisas que me deixam sobressaltada: há quem não saiba ao que vem, no que vai votar. A estranheza com que olham para 3 boletins de cores diferentes (câmara, junta e assembleia) é imensa.

Alguns reclamam que a atribuição das mesas pelos nomes é confusa e que sempre votaram toda uma vida distribuídos pelo cartão de eleitor. Outros, que sempre votaram com a sua senhora e que agora estão separados, queixam-se do facto, como se comprometesse o casamento, amor jurado na saúde e na doença e na votação também, já agora.

Outros apresentam-se sem identificação, ou com o amarelíssimo e plastificado cartão de eleitor em completo desuso. Uns vêm com o cão, o que causa sorrisos, pelo animal, mas também pela leve brincadeira se o dono votará PAN e traz a sua mascote como indicativo de voto. Há também aqueles que até votam na mesma mesa, ou vêm amparar alguém, mas fazem questão de entrar conjuntamente no cubículo de voto para conferenciar. E se chamados à atenção, para se afastarem e darem espaço ao votante, reclamam: mas é a minha mulher ou o meu marido. Voltamos, pois, aos votos conjugais.

Há também os criativos: os que sugerem o uso de semáforos, para orientar os caminhos a circular dentro do pavilhão, e se devem ou não avançar, porque por vezes o presidente de mesa os manda aguardar, para receber os votos da pessoa anterior. Outros entregam o seu cartão do cidadão aos escrutinadores, ignorando o presidente de mesa que ali se encontra em pé e de mão estendida, o que causa algum desconforto aos mais sensíveis.

Existem também os descontraídos, que ao verem que não preencheram um dos 3 impressos (não assinei, disse, quando quereria dizer que não assinalou), o fez mesmo ali à frente da mesa, com a mão em concha, embora lhe tenha sido dito que deveria voltar ao cubículo.

Estes factos vão animando a mesa, que se reveza e descansa e partilha experiências. Falando com outros colegas noutros locais, fomos informados que alguém rasgou os impressos de votos que lhe foram atribuídos, atirando-os em direção à mesa. Não encontro nada melhor para dizer sobre isto do que ser um acto descabido. Soubemos também que num outro local faleceu uma pessoa à boca das urnas, o que deixou toda a gente desconcertada.

No entanto, aos nossos olhos, novamente a abstenção como a grande vencedora. O distanciamento da população face à votação  é explicito, mesmo tratando-se de órgãos que lhe são mais próximos, como as freguesias, e quando frequentemente até se conhece os candidatos do dia-a-dia. Alguém comentou que tal nível de abstenção é típico em eleições europeias, pelo distanciamento geográfico e visto como pouco impactante no dia-a-dia. Mas então, como explicar isto?

As pessoas revelam estar cansadas, que não há alternativas válidas, que são todos um grupo de malfeitores. Não encontram sequer um mal menor. Percebo, mas não percebo.

Não consigo conceber que se deixem decisões pessoais nas mãos de terceiros. Não vejo que quem se omita da decisão possa ter direito a queixar-se. Não entendo, de todo, a abstração do mundo, sobretudo a um mundo próximo.

Os jovens encabeçam esse grupo de abstraídos. Ainda pensámos, de forma muito positiva, que viessem pelo fim do dia, retornados dos descansos matinais e dos passeios vespertinos. Poucos vieram, o que quase causava  vontade de os congratular.

Ao ver o contraste, entre os madrugadores debilitados e doentes e  os quase ausentes enérgicos jovens, é inevitável pensar que os primeiros talvez deem mais valor às eleições porque viveram um tempo em que tal não lhes era permitido e, não querem voltar lá. Os jovens parecem alheados do seu futuro, o que os compromete em muito.

A contagem dos votos é o momento mais stressante do dia. Mas foi bom de ver e confirmar que a entreajuda entre a mesa, e mesmo outras mesas contíguas, é uma constante. Os mais experientes ajudam os novatos, quem não sabe pergunta, e por volta das 22 horas já estava a papelada tratada. Restava agora esperar pela policia para a recolha dos votos, o que só aconteceu pela 01:00 da manhã.

Entretanto comentou-se o dia, enganou-se o estômago, riu-se e lamentou-se.

Quando me deitei, pelas 02:00, estourada mas ainda assim consciente da excelente experiência que me foi dada a viver, renovei votos e predispus-me a estar presente nas próximas. Triste, sim, mas ainda assim cheia de conteúdos.

Adormeci com esta frase no pensamento: diz-me como votas  ou não votas, dir-te-ei quem és.

Sandra Ramos

Sou formada em Gestão, com Pós-Graduação em Transportes Marítimos e Gestão Portuária, área onde desenvolvo a minha actividade profissional. Sou adepta da causa animal e voluntária ocasional. Comecei as minhas aventuras na escrita em 2017, com uma Menção Honrosa num Concurso de Autores, tendo a partir daí participado em algumas Antologias e num Concurso de Speed Writing. Fui cronista na revista Bird Magazine e edito uma página e blogue do mesmo nome: Escrevinhar / Sandra Ramos. Descobri que não vivo sem escrever. Apercebi-me, também, que são as nossas características temperamentais mais difíceis que nos aproximam das pessoas com ousadia suficiente para nos amarem.

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