Um regresso sem…

Há mais de um ano que não escrevia para o Repórter Sombra. Foram mais de 365 dias a preparar a conclusão da vida de estudante e a descobrir o universo do trabalho que não conta para notas. Neste espaço de tempo, redescobri uma nova forma de escrever. E as pessoas que conheci nesses meses fizeram-me olhar para as reticências como nunca antes as tinha visto: um objeto abominável da pontuação. Por isso, o momento em que escrevi o título deste artigo talvez tenha sido a última vez que usei aqueles três pequenos pontos em sequência.

Nunca fui aficionada pelas tendências tecnológicas, não sou uma cinéfila convicta nem uma enciclopédia de botânica. A minha única mania é querer aplicar bem a gramática. E, para isso, passo muito tempo no Ciberdúvidas da Língua Portuguesa. Pertenço àquela facção que atribui uma importância desmedida à pontuação, fascinando-se com a capacidade emocional de minúsculos símbolos gráficos. E, para mim, as reticências sempre foram uma muleta de transmissão de sentimentos.

Até há bem pouco tempo, acreditava no seu poder de reforçar o carácter sonhador dos autores de uma citação. Achava que usar aquela tríade era uma forma de acentuar o dramatismo de uma cena e, até mesmo, uma maneira fácil de deixar no ar laivos de ironia. No entanto, tudo mudou quando, ao reverem os meus textos e identificarem reticências na mancha de palavras, começaram a perguntar-me se não dissera tudo o que queria dizer. A questão era claramente provocatória e repetiu-se algumas vezes, até ao momento em que também eu passei a evitar aquela muralha de pontos.

Não sei se está na moda odiar as reticências, tal como está em voga discriminar os pontos de exclamação. A verdade é que me deixei levar pela opinião daqueles com quem trabalho diariamente e que dizem que tudo o que há para dizer deve ser dito. De forma concisa e sem preciosismos. O publicitário Edson Athayde defende esta última ideia, reforçando que as reticências enfraquecem os textos, ao associarem o seu autor a incerteza e insegurança.

Se é assim ou não, apenas o leitor o pode afirmar. Afinal de contas, é nele que a comunicação acontece. É na sua mente que as reticências se transformam em emoções fortes ou em barreiras à fluidez do discurso.

Para evitar esta segunda hipótese, despedi-me das reticências. Mas só o tempo dirá se é um eterno adeus. Nestas coisas da língua, nunca se sabe o que está para nascer, morrer ou ser transformado.

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