Um comboio de infelicidade

Estava cansada daquele comboio que lhe passava dentro dela. Levava-lhe um fio de voz fininho e doloroso da garganta até a um qualquer lugar que parecia tocar em tudo o que ela era. Como se atravessasse alvéolos, rastejasse pelas artérias, lhe saísse pelo peito escancarado e voltasse a entrar pela ferida.

Não havia paragens.

Bom, talvez houvesse uma.

Imaginava-a num local escuro, uma luz ténue a piscar de electricidade receosa, em dúvida, a pedir ajuda em código Morse. Em que parte dela estaria essa paragem? Sabia que não queria sentar-se no banco – se existisse, estaria provavelmente partido – à espera que o comboio passasse, a ver a velocidade, como quem vê a vida rápido, como quem vê tudo a fugir. Ou pior. Que parasse, abrisse as portas e ela ficasse para sempre presa na solidão.

Mas tinha encontrado uma solução. Uma magia. Iria experimentar. Enquanto o comboio cheio de infelicidade circulava por dentro dela, ela enterrou os dedos no barro e começou a moldá-lo. Concentrou-se na cor castanha, na textura infantil, primordial, escorregadia, nas unhas sujas, nos dedos transformados em monstros, em deformidades, em nuvens.

Apanhou-lhe o jeito depois de repetir umas quantas vezes. Acariciava o barro como se fosse a pele, dava-lhe a forma que os seus dedos ainda recordavam, que incrível é a memória háptica, éramos seres feitos para tocar. Elevava as palmas devagar, as mãos dançavam com o barro, era uma reza a si própria, um encantamento.

Repetiu durante meses. Destruiu. Reconstruiu. O comboio corria-lhe a alta velocidade, era mais do que o som, era mais do que a luz. Mas ela era mais. Ela era deusa em trabalhos de universos. Meses e meses, só parava quando os sonhos lhe pesavam nas pálpebras.

Meses até chegar àquela imperfeição. Justamente àquela. Tão pequeno, demasiado pequeno. Mas pareceu-lhe a única possível. Ela estava tão cansada do comboio, não aguentava mais o seu ritmo, as faíscas que lhe fazia nos nervos, talvez por isso aquela imperfeição tenha parecido suficiente para sair dali. Para ela tocar na calma.

Não desviou os olhos do barro, daquele boneco de lama e de desespero. Ela tinha um meio sorriso feito de esperança, feito de prisão. Não os desviaria até ouvir.

“Teresa, tem de descansar agora.”

Não, não os desviaria.

“Volte para a sala comum, a enfermeira leva-lhe os comprimidos. A terapia de olaria acabou por hoje.”

Não. Não. Ela não sairia dali até o ouvir voltar a chamar-lhe mãe.

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