“O Monte dos Vendavais”: a eternidade (de um amor) cruel

Lockwood quer afastar-se da confusa vida citadina e, por isso, procura um pouco de paz em Thrushcross Grange (a Granja). O proprietário desta charneca, Heathcliff, é também o dono da casa situada no Monte dos Vendavais e, quando o senhor Lockwood o visita, depara com personagens fora do vulgar, que parecem viver no meio de um caos sentimental. Devido ao mau tempo, o peregrino passa aí à noite, mas o seu sono é abalado por pesadelos.

Movido pelo medo, decide regressar à Granja logo ao nascer do dia. Todavia, o temporal ainda não havia cessado e Lockwood acaba por ficar doente. Refugia-se no quarto, mas aquela solidão começa a aborrecê-lo. É em Nelly Dean, uma governanta da charneca, que encontra a distração perfeita. Lockwood pede-lhe que ela fale acerca das pessoas que viu no Monte, numa tentativa de perceber o que presenciou naquela casa. A partir deste ponto, Nelly, que conhece Heathcliff desde pequeno, conduz a narrativa.

É assim que somos levados pelo meio de uma teia de ódios fraternos, amores renunciados, vinganças premeditadas, erros temperamentais, um casamento forçado e viuvez. Aqui há espaço para comportamentos demoníacos e loucura. Olha-se para a rebeldia e para os caprichos. Reflecte-se sobre um possível binómio felicidade/dignidade e encontram-se imagens poderosíssimas, como aquela em que Heathcliff abre um caixão para olhar os restos mortais da amada.

 “O Monte dos Vendavais” foi o único romance escrito por Emily Brontë, uma das maiores poetisas britânicas do século XIX, e acabou por se tornar num clássico incontornável da literatura.

Retrato de Emily Brontë

Não é fácil falar-se sobre a qualidade do texto. Tudo o que se diga é pouco. A obra é um golpe de génio, que apresenta os aspectos mais profundos da personalidade do Homem, as suas angústias e os seus medos.

O orgulho, a revolta, a perda e a tragédia entram em conflito, nesta história, que não tem heróis, nem vilões absolutos. De facto, as personagens constituem uma representação do ser humano, sendo que cada uma delas possui um sentimento dominante que acaba por, de alguma forma, controlar as suas acções.

A trama chama ainda a atenção para o papel que a educação tem na formação do ser humano e para o facto de, enquanto seres vivos, termos a tendência para imitar os modos de viver daqueles com quem nos relacionamos.

Em suma, entre conflitos e paixões levadas ao último estádio de tudo o que é macabro, “O Monte dos Vendavais” percorre uma evolução emocional que nem sempre compreendemos. Mas que nos une a um enredo cativante.

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