"nenhum local é tão importante do que um campo de concentração. Visitá-lo é recordar do que somos capazes."

Tempos sombrios são…

A história conheceu muitos períodos de tempos sombrios nos quais o domínio público se obscureceu e o mundo se tornou tão incerto que as pessoas deixaram de pedir à política mais do que a devida consideração pelos seus interesses vitais e pela sua liberdade pessoal.

– Hannah Arendt, Homens em Tempos Sombrios

Há quem viva no passado. E, faça dele o seu presente.

Há quem se desapegue do passado. E, faça com que não exista no seu presente.

Sempre achei que as memórias nos servem para algo mais. Do que só terem sido. Se são aprendizado, passado, fado ou ciclo, cabe a cada um decidir.

O passado fez-nos mas não nos deverá definir. Serve para lembrar que podemos ser melhores! Enquanto pessoa, cidadão, sociedade, povo, nação, mundo (?). Para alertar o tanto que podemos ser maus e o demasiado que é ser o pior.

Será que aprendemos algo com Auschwitz? Ou, antes, que a memória tem perna curta e, no momento seguinte, esqueceu todos os males passados no mundo, camuflando verdadeiras barbáries criadas pelo Homem?

Auschwitz não devia ter acontecido e todo o Holocausto muito menos. Porque devemos preservar a memória de Auschwitz? O que aprendemos com essa memória?

Esta é questão com a qual se escreve este texto. Nada tem de política (?).

Quiséramos acreditar o contrário, mas tem tudo a ver com política. E, poder! E, maldade (inacta ao ser humano). E, muita, mas muita loucura!

sem palavras para descrever tamanha arrogância do Homem

Obviamente que não é um tema fácil, pois fácil é (continuar) a fechar os olhos e fingir que ficou no passado.

O modelo de pensamento ocidental limita-nos e, nunca iremos conseguir gerar novas políticas, adequadas para a sociedade actual, se ficarmos detidos neste condicionalismo global de que “temos o direito de prevaricar porque somos os melhores” (Mussolini, discurso de 1935).

É de modo importante ter-se percepção disso, pegando nos diversos segmentos que existem na nossa sociedade, analisar o modo como foram afectados, que tipo de medidas poderiam ter sido feitas. Para evitar o nível de constrangimento gerado em função disso. Quer tenham sido os genocídios de Auschwitz, da Guerra do Golfo, da Síria, Afeganistão, Ruanda, Namíbia, África (tribo Héreros e Namaquas), Turquia, Arménia, Ucrânia, Bósnia, Camboja. Genocídios ocorridos durante o séc. XX. Para não falar dos genocídios indígenas coloniais e nas Filipinas. (…) Pensar sobre isto estrangula a garganta. Escrever sobre, deixa-me sem esperança.

É certo que o Holocausto é o maior e mais absurdo genocídio contra a espécie humana, mas não foi o único ou o primeiro. Outros lhes antecederam, seguiram e, certamente, outros se repetirão.

Aprendemos algo com Auschwitz?

No momento em que entendermos que é necessário uma perspectiva de justiça mais maleável e menos essencialista, onde se gerem políticas públicas compatíveis com essa perspectiva, só assim se irão apresentar respostas mais satisfatórias para a sociedade. Por isso, a memória de Auschwitz deverá ser preservada. Porque a maldade é inerente ao Ser Humano.

Rhythm O – Marina Abramovic

Existem 72 objectos na mesa nos quais vocês poderão utilizar em mim.

Eu sou um objeto.

Responsabilizo-me por todos os actos cometidos envolvendo a minha pessoa durante a performance.

Duração: 6 horas (das 20:00 às 2:00)

Qual é a conclusão que se pode tirar daqui? Tem algum fundamento ou, comparação esta perfomance para a pergunta inicial? Será que cada um de nós se imagina a ter este comportamento? A permitir-se “usar da maldade” só porque isso lhe foi permitido? E, os que assistem, sem interferir “na maldade” que outros provocam?

Um paralelismo incoerente para com os genocídios da história da Humanidade, este que aqui se faz.

Por isso, trago palavras, arte e “propaganda” de outros, como forma de escrever as minhas. E, assim, demonstrar que a memória das grandes coisas, mesmo que não sejam boas, devem ser mantidas. Lembradas. Continuamente. Porque o passado passou. Não nos define. Mas moldou. Existiu e tanto de mal criou. (assim continua)

A paz quando escrevi as minhas reflexões acerca da Neoguerra do Golfo, a conclusão de que a guerra se tivesse tornado impossível, levou-me quase à convicção de que estava na altura de declararmos o tabu universal da guerra. Agora, dou-me conta de que não era mais do que uma pia ilusão. A minha impressão actual é de que, uma vez que a Neoguerra não tem vencidos nem vencedores, e que as Paleoguerras não resolvem nada (excepto no plano de satisfação psicológica do vencedor provisório), caminhamos em direcção a uma Neoguerra permanente, com constantes Paleoguerras periféricas sempre em aberto e sempre provisoriamente terminadas. Imagino que não fiquem muito entusiasmados com a ideia, porque o ideal da paz nos seduz a todos.

– Humberto Eco, A Passo de Caranguejo

Albert Einstein disse: um mundo não será destruído por aqueles que fazem o mal, mas por aqueles que os assistem e nada fazem.

Os tempos modernos e a antiguidade concordam num ponto: ambos consideram a compaixão como um sentimento absolutamente natural, (…) Nesta humanidade que se desenvolve, por assim dizer, organicamente, é como se, sob a pressão das perseguições, os perseguidos se aproximassem tanto uns dos outros que o espaço-entre a que chamámos mundo (e que naturalmente existia entre eles antes da perseguição, mantendo-os a uma certa distância uns dos outros) pura e simplesmente desaparecesse).

Auschwitz não devia ter acontecido e todo o Holocausto muito menos.

Todos nos sentimos perseguidos, de uma forma ou de outra, por isso, nos aproximamos tanto, empaticamente, com o sofrimento global provocado pelo Holocausto – poderia ter sido qualquer um de nós. Mas, tenhamos certo que, da mesma forma, poderia ter sido qualquer um de nós, o perseguidor… se a isso nos fosse permitido. Isso é assustador.

“Os tempos são sombrios

Os costumes foram-se corrompendo

e até o próprio direito à crítica

esbarra na fúria popular”

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Comments 2
  1. “A massa nunca se eleva ao padrão do seu melhor membro; pelo contrário, degrada-se ao nível do pior”
    – Henry David Thoreau

    Quero muito acreditar que a maldade não é uma característica inerente ao ser humano; mas a ignorância que nos foi incutida ao longo dos tempos pela sede de poder, indicou-nos o caminho até ela.

    Somos seres com um instinto gregário; uma necessidade intrínseca de seguir um exemplo; que muitas vezes nos esquecemos das nossas características individuais.

    Pior que o esquecimento do passado; é o desconhecimento do passado.

    Obrigado Carmen, por mais uma excelente reflexão.

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