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Tanta Positividade também Cansa

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Se calhar sou eu que não tenho andado a dar a devida atenção às mensagens de apelo à aceitação e à tolerância, que todos os dias me chegam em formato de post nas redes sociais. Talvez não esteja receptiva à ideia de conseguirmos alcançar a eterna juventude, quem sabe porque, para mim, a velhice é apenas uma inevitabilidade feliz e não um drama insuportável.

Cansa-me esta ideia de que temos de ser todos felizes, sempre e a toda a hora. E assusta-me a convenção que se decidiu adoptar de que, sermos infelizes é culpa nossa, que não sabemos ver o lado positivo das coisas.

“O teu chefe é uma besta e trata-te abaixo de cão? Ah, que sorte. O universo está a dar-te uma lição. Agradece e sorri”.   Não. Não agradeças e sorrias. Dá dois murros na mesa (para não dizer que lhe dês dois murros a ele) e tenta encontrar um emprego para saíres daí o mais depressa possível.

“A tua melhor amiga roubou-te os códigos do multibanco e limpou-te a conta bancária? Ah, que sorte. É o universo a ensinar-te a viver com pouco. Agradece e sorri.” Não. Não agradeças e sorrias. Denuncia-a à polícia, mas encontra-a primeiro. Corta-lhe o cabelo à tesourada e chama-lhe gorda. Mesmo que ela seja magra. Chama-lhe gorda, que não há nada que faça uma mulher sentir-se pior.

“Queres viver para sempre com a aparência dos vinte anos? Bebe meio litro de kombucha todos os dias de manhã. Se tiveres a sorte de não vomitar, talvez consigas o objetivo”. Não. Bebe se gostares. Prepara sumos detox se te apetecer. Faz jejum intermitente se isso não te fizer ficar esganado de fome. A única certeza que tens é esta: se tudo correr bem, vais envelhecer. E vais parecer velho. E então?

Escrevo isto no dia em que um grande amigo deveria fazer quarenta e oito anos. Só que não faz. Tinha quarenta e três, quando deixou de contar os anos. E eu, tenho a certeza que ele preferia estar a ficar velho, as saudades continuam a magoar-me o peito e sei bem que não havia kombucha que o pudesse ter salvo. Não há frase inspiradora que me consiga fazer aceitar a injustiça de já não o ter aqui.

Esse meu amigo era a pessoa mais chill que eu conheci. Para ele não havia stress, nem intolerância. Aceitava tudo e todos de uma forma quase desconcertante. Mas sabem o que eu mais admirava nele? É que não tentava impor essa sua forma de ser a ninguém. Ele era quem era e os outros eram como eram e estava tudo bem.

É que nesta coisa da aceitação e das dicas para se ser feliz e jovem para sempre, há uma espécie de ditadura. Temos todos de seguir as instruções ou somos vistos como seres menos iluminados.

Não me interpretem mal. Disse no artigo anterior que sou uma optimista e mantenho a afirmação. Mas há dias em que não me apetece, porque isto de tentar encontrar sempre o lado bom das coisas às vezes dá uma trabalheira. Nesses dias, choro. Choro muito. E praguejo perante as frases inspiradoras que nos assaltam os feeds. É que tanta positividade também cansa.

(O Rodrigo, se lesse este texto, haveria de sorrir com o canto da boca e abanaria a cabeça de forma quase imperceptível. Dir-me-ia “tens de ter mais calma, miúda”. Eu sei, Rodrigo, eu sei. Tenho de ter mais calma).

Nota: este artigo foi escrito seguindo as regras do Antigo Acordo Ortográfico

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Joana Kabuki
Há em mim um certo desassossego. uma espécie de formigueiro que me impele à criação. talvez pudesse ter sido um Professor Pardal, ou um Mr. Q., não se tivesse dado o caso de eu e a Física nos termos cruzado sem nunca nos termos visto. Quis o destino que encontrasse nas palavras o sossego para o que me desassossega e desse encontro se revelasse uma alma de escritora. Sim, eu disse que se revelara "uma alma de escritora", não disse que se revelara "uma escritora". Ainda não disse.

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