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Crónicas

Queridos avós

Estes são os nossos avós, os grandes heróis da geração mais dura e difícil, que soube enfrentar as dificuldades com as armas de que dispunha. Eles e elas, avôs e avós, eram pessoas de poucos recursos, sem educação, analfabetos, mas souberam transmitir o básico, o que verdadeiramente era importante para sobreviver. Os seus ensinamentos eram reais e não livrescos e os exemplos deram os melhores frutos.

Não foram à escola ou frequentaram-na por pouco tempo, pois os seus braços eram urgentes para a manutenção da vida de muitos. Os filhos, irmãos ou familiares directos eram em quantidade elevada e urgia que se soubesse repartir para a todos chegar. O dever estava primeiro e o saber passava para depois. Tempos duros, mas que os ensinaram a lutar.

Sem saberem o que era o Teorema de Pitágoras, encontravam o caminho mais curto para a solução, desconhecendo o valor do Pi, elaboravam os mais perfeitos canteiros e sem nunca ter ouvido a palavra incógnita, decifravam os mistérios de tudo. As equações eram a vida do dia a dia e a maneira de fazer crescer o dinheiro.

Para muitos a terra era a escola. Era dela que tudo saía e era com ela que se entendiam. Os relógios e as horas eram inúteis pois o sol é que comandava e as tarefas tinham que ser cumpridas. Não há adiamentos na vida real. Outros tinham a possibilidade de aprender ofícios que eram menos penosos. O certo é que todos faziam pela vida e não se dependia de subsídios, o que era nulo.

Estes homens e mulheres nunca leram um livro, mas sabiam imenso sobre a vida, sobre a realidade que os circundava. Sabiam tudo sobre a verdade e a capacidade de se reinventarem. Não precisaram de teorias para saber viver e tudo o que pudessem aproveitar era ganho. Até a diversão era curta, mas salutar. Do nada se fazia tudo e a alegria nunca faltava.

Tinham poucas roupas, que passavam de irmão para irmão e nem sapatos usavam, mas possuíam o essencial que era o amor. Quando adultos, escolhiam os seus pares e resolviam as contendas para que se mantivessem juntos. Sem sonhos de príncipes nem de princesas, alinhavavam as suas vidas com pontos sólidos e duradouros. Eram felizes na rudeza das suas vidas e continuavam de mãos dadas na saúde e na doença.

Os seus filhos já tiveram uma vida mais fácil, onde a escola era essencial. Souberam juntar as letras e os números e entender o que estava nos livros que os pais, com esforço e com muito gosto, lhes compravam. Tiveram alguns brinquedos e mais fartura para comer. Férias passou a ser uma tão simpática palavra que gostavam de repetir.

Estes foram trabalhar para profissões mais visíveis, onde podiam subir na vida e ser reconhecidos. Era uma profissão para a vida, mas com a vantagem de saberem que, um dia podiam, se assim o entendessem, mudar de emprego. Aprendiam e mostravam o seu valor.

Um dia constituíram as suas famílias com pessoas que escolheram. Tiveram casas confortáveis e um dia chegaram os filhos. Meninos e meninas que tinham mimos, com brinquedos mil e escolas não só para estudar. As melhores férias, palavra mágica, eram com os avós, na terreola da província onde a felicidade reinava. Os avós eram os melhores, davam tudo, mesmo não tendo nada.

Eram eles que enchiam as cabeças dos mais novos de histórias fantásticas, que lhes ensinavam as coisas práticas da vida e lhes mostravam como a terra é sempre o mais importante, que é dela que tudo brota e é com ela que nos entendemos. A natureza é bela e livre e os dias com os avós pareciam eternos.

Contudo, a idade avança e deixa, os que viveram muitos anos, idosos, com doenças e artroses, com artrites e reumático, com falta de ar, com dores em todo o corpo e a cabeça a falhar. A vida moderna não permite que vivam todos juntos e os lares acolhem os que, um dia, foram jovens e cheios de sangue a pulsar. Ali há quem lhes possa dar atenção e lhe diga que ainda são estimados.

São estes que nos morrem agora. Os últimos da geração que se soube sempre desenrascar, que fez das tripas coração e que deu tudo o que havia para dar. Sozinhos, tristes, esquecidos em casas que não são suas, onde as paredes não têm histórias para contar, definham e antecipam a morte. Que crime não serem visitados e que horror não lhes dar abraços.

Quantos não se despediram dos seus entes queridos na Páscoa, quantos ficam longe dos que amam por motivos que não podem, de modo algum, justificar este tão absurdo afastamento? Com eles vai-se a vontade, a força de viver, o espírito combativo, a mais pura resistência que alguma vez existiu. Quem separa é somente por não saber unir?

E assim, aos poucos, perdemos a nossa identidade, as nossas raízes, a essência, a seiva elaborada das famílias, o espírito de clã, a tribo que unida tudo consegue vencer. Os mais novos perderam estes instintos de tantas facilidades fornecidas. Os mais velhos andam cegos de tanto labutar. Os velhos definham sem risos de crianças e vozes que ainda sabem encantar.

A vida tem fases e períodos. Há que parar e ouvir o que de mais importante tem para dizer. Os velhos, os nossos avós, são ainda poderosas armas de conhecimento e sapiência. Abracem-nos, digam-lhes como são importantes e façam o favor de os ouvir com atenção e carinho.

Eles nada tiveram, mas conseguiram que hoje exista tudo. A eles é devido o respeito e a honra. Com eles se caminhou e sem eles fica a saudade de um tempo que durou, mas que não volta mais. Os avós deviam ser eternos, mas a morte, cheia de inveja do que é muito bom, leva-os para os abraçar. Aproveitem a sua companhia!

Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

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