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Cinema

Can you guess what every woman’s worst nightmare is?

Uma mulher sozinha num bar, vulnerável, bêbeda.

Mulheres assim, colocam-se em perigo. Já deveriam saber isso, certo?

Este é o diálogo de abertura de Promising Young Woman, nomeado ao Óscar de melhor filme e vencedor do prémio de melhor roteiro original. A conversa passa-se entre três amigos, num bar, que ao observarem o estado, aparentemente, embriagado de Cassie (Carey Mulligan), iniciam a conhecida retórica de que qualquer um se pode aproveitar do seu estado lastimável, deixando subentendido que um eventual abuso é consequência das más escolhas daquela mulher.

Afinal de contas, quem a mandou sair sozinha e ficar naquele estado?! 

Cassie é uma ex-estudante de medicina, que após um episódio de abuso da sua melhor amiga Nina, desiste da faculdade e do seu futuro. Todas as semanas vai a um bar ou discoteca e finge estar demasiado bêbeda para se manter de pé, e todas as semanas há um bom rapaz que se aproxima para saber se está bem. Bons rapazes mal intencionados, que mais tarde se tentam aproveitar do seu estado, não fosse Cassie estar totalmente sóbria. 

Cassie é uma espécie de vingadora de todas as mulheres que foram abusadas por homens e por mulheres, seja por ação ou inação. Uma personagem complexa, que leva os seus traumas ao extremo, numa sede de vingança com meios que roçam o perverso, na procura de justiça para todas as mulheres sobreviventes de crimes sexuais, especialmente para a sua amiga Nina.

Promising Young Woman marca a brilhante estreia de Emerald Fennell como realizadora. É um filme intenso, tido pela crítica como um dos futuros marcos da sua época, uma vez que é claramente fruto do movimento Me Too e do empoderamento feminino. Os acontecimentos retratados destacam muitas das questões de desigualdade de género que ainda vivemos e faz uma espécie de contabilização de todas as tarefas que ainda estão por realizar, para que a mulher seja vista pela sociedade como algo mais que um objeto ou a vilã no percurso de bons rapazes. 

Emerald Fennell, pegou em vários dos clichés de comédias românticas e aplicou-lhes uma desconcertante moralidade, expondo claramente a sistémica desculpabilização do homem. Não se trata de cenas agressivas ou violentas, protagonizadas por grandes e malcheirosos predadores que encurralam as vítimas em becos escuros. Tratam-se de cenas típicas, protagonizadas por rapazes simpáticos e promissores, bons rapazes, que decidem que o Não é Sim e que a sua vontade é soberana face a qualquer objeção que a mulher que eles desejam, lhes possa colocar. A cultura da violação. A desculpabilização do homem e a atribuição da culpa à mulher, seja porque estava bêbeda num bar ou porque teve demasiados namorados.

Deveriam saber disso, certo?

À medida que a trama avança, a crítica segue certeira à sociedade atual, homens e mulheres. Nada é deixado ao acaso. Seja o papel da autoridade, no caso representado pela Diretora Walker (Connie Britt), que coloca o futuro promissor do homem/atacante à frente da justiça para a mulher/vítima, dando-lhe sempre o benefício da dúvida e questionando a palavra da mulher, seja pela amiga Madison (Alison Brie) que representa a mentalidade social vigente e o papel das mulheres/amigas que muitas vezes se colocam como as principais defensoras do atacante, desculpando e tornando “normal” este tipo de comportamento até que elas próprias vivam algo semelhante. A palavra da mulher é colocada em causa – “depois arrependeu-se? Não é fácil admitir que por vezes fazemos más escolhas.” Tudo serve para minimizar o impacto deste tipo de comportamento.

Promising Young Woman é intenso e avassalador, exige uma pausa para processar tudo o que nos apresenta. É um filme que nos expõe à nossa própria inação, à desculpabilização de comportamentos e ao criticismo face às situações retratadas, que infelizmente são tão comuns e “normais” que certamente muitos de nós já as vivenciámos. Durante 1h48m, não é mencionada uma única vez a palavra “violação” ou “abuso sexual”, não existem gritos ou violência explicita, excepto na cena final em que durante 2:50min, Carey Mulligan se entrega totalmente à história e à personagem, terminando da única maneira possível e, infelizmente, a mais alinhada com a realidade. 

O cinema tem um papel fundamental da percepção da sociedade e na mudança de mentalidades, num momento de sensibilidades tão frágeis quanto aquele que vivemos, poucos filmes têm a capacidade de se impor sem medos e de atacarem efetivamente o seu propósito.

Promising Young Woman não é unânime na premissa que apresenta pelos métodos desenvolvidos por Cassie, tocando numa certa irresponsabilidade pela forma como tudo é apresentado, não nos esqueçamos que se trata de uma sociopata à procura de vingança, mas é provocador, cru e incisivo no seu propósito. Mostra-nos claramente o que o trauma pode provocar e até onde se pode alastrar, quando uma vítima é silenciada e a sua dor minimizada.

Mostra-nos, acima de tudo, o maior pesadelo de uma mulher. Sabe qual é?! 

Nota: este artigo foi escrito seguindo as regras do Novo Acordo Ortográfico

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