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Deixar vir, deixar ir e deixar ficar

Várias pessoas passam pela nossa vida, mas poucas permanecem. Pessoas que dão sentido à nossa existência, fazem a nossa vida ganhar sentido, tornam os nossos dias mais alegres, coloridos e especiais são raras. Como descobrir que estamos rodeados deste género de pessoas e não de pessoas que não nos fazem avançar? Como podemos ficar protegidos de pessoas que em vez de nos reforçarem, nos consomem?

Poucas vezes escolhemos aqueles que cruzam o caminho das nossas vidas, diria até que nunca o fazemos. Temos apenas o poder de decidir se permanecem e durante quanto tempo.

Foi tarde que aprendi a colocar estes limites. Tratei sempre todos como se fossem para sempre – amigos, namorados, colegas de escola e de trabalho. Nós queremos sempre que seja para sempre e, por vezes, continuamos a querer isso mesmo sabendo que nos faz mal. Conformamo-nos dizendo “é o que é” e que “a vida é mesmo assim”; ignoramos as ‘red flags’ e até nos convencemos que com o tempo, a vida pode mudar aquela pessoa, aquele comportamento menos bom, aquela falta de respeito. Apaixonamo-nos pelo potencial, pela ideia de futuro, pelas infinitas possibilidades e deixamo-nos toldar pelos sonhos que construímos no idealizar dessas pessoas.

A terapia trouxe-me a aprendizagem e, mais do que isso, a capacidade de pôr em prática, de forma educada e sem me pesar na consciência, o estabelecer limites e o “se não me acrescenta, não me faz falta”. Aprendi a parar para pensar, a permitir-me sentir, e a fazer também essa análise ao que sinto quando estou e não estou com determinadas pessoas, quem sou e quem me forço a ser. Despedir-me de pessoas nunca foi fácil. Era quase um processo de luto: de luto da perda deles e de luto da versão de mim que partia com eles. Os clichês de “se não é bênção, é lição” eram só clichês para mim e não faziam sentido; pareciam vazios e até cruéis demais face às histórias vividas com aquelas pessoas. Podemos sempre guardar espaço para eles no nosso coração, “num cantinho de conversas avessas ao rancor” como diz a Carolina Deslandes, que diz também “não sei se te esqueço ou se quando te esqueço morrem também partes de mim”.

«Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós.» – Antoine de Saint-Exupéry Antoine de saint-exupéry

Nunca sabemos as intenções das pessoas quando elas entram na nossa vida. A experiência, a maturidade e o passar dos anos vão-nos calejando e dando essa perspicácia, esse “saber ler” e o “ficar com a pulga atrás da orelha” quando algo não bate certo, mas não controlamos isso. Mesmo com essa “escola da vida” continuamos a não controlar. Não podemos pôr um letreiro à nossa porta a dizer “que entre só quem venha por bem”.

Não nos podendo proteger, podemos sempre escolher quanto tempo nos demoramos com as pessoas, as que vêm por bem e as outras, qual é o peso que eles têm em nós, quanto é que nos consomem. Criar esse distanciamento emocional é duro, mas necessário, pela nossa saúde mental. Mais ainda quando as coisas começam bonitas, com flores e rosas e palmadinhas nas costas e descambam em palavras feias, injúrias e de costas voltadas.

Então é deixar ir: deixar vir, deixar ir e deixar ficar. Conhecermo-nos a nós próprios, saber escutar-nos e ouvir o nosso sentir. Se perdermos mais tempo a tentar perceber as intenções das pessoas e o seu papel nas nossas vidas, acabamos por não desfrutar da sua passagem, do seu tempo connosco, seja ele breve ou demorado, seja ele bem ou mal passado.

A distância emocional e cronológica traz-nos essa paz e, no meu caso, a gratidão, por essas histórias que tiveram um desfecho diferente do que eu previa (ou esperava) inicialmente: amigos que já não são mais, colegas de trabalho que não eram assim tão colegas, paixões ardentes que se resumiram a cinzas. Não esqueço os “sentires”, nem mesmo os mais dolorosos; contudo, deixei-os vir, deixei-os ir e deixei-os ficar.

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