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Podemos morrer de Solidão?

Podemos morrer de amor? De saudade? De dor?

Todos os dias se morre um bocadinho, todos os dias perdemos algo, minutos, horas, uma ideia. Células morrem e renascem. Os órgãos reciclam-se, regeneram-se, bem como a pele, os ossos e os cabelos. Todos os dias somos um pouco sozinhos. Temos os nossos momentos de introspecção, de vazio, de tristeza, de luto por algo ou alguém que sonhámos ou idealizámos e não há forma de fazer acontecer. Todos os dias sonhamos, todos os dias vivemos ou vamos vivendo.

Há dores muito fortes, insuportáveis quase. Há vazios difíceis de preencher. Há lutos difíceis e processos árduos. Todos somos sozinhos de certa forma, todos sofremos de solidão. Solidão como uma dúvida ou desajuste existencial. Todos morremos sozinhos com os nossos pensamentos e ideias, sonhos e projectos por concretizar. Todos somos sozinhos dentro da nossa cabeça, naquilo que pensamos e criamos.

O que é a solidão senão a percepção de um vazio? De uma falta? A sensação ou o sentimento de estarmos sós, sozinhos ou abandonados pela sociedade, pelos outros, por alguém que escolhe outro caminho.

O sentimento de solidão é um dos mais profundos. De estarmos isolados, distantes, não pertencermos, de estarmos desajustados, incompreendidos e não vistos ou reconhecidos. A solidão é um sentimento, uma percepção, não necessariamente uma realidade. O que é estar só? Estar sozinho, é verdade, mas podemos estar sozinhos e não nos sentirmos sós…

A solidão é em si, na realidade, o isolamento dos outros, da sociedade, e o sentimento de estar só. Solidão é igual a isolamento. Se falamos na solidão dos idosos, é verdade. É cruel e crua, uma dura realidade. A solidão de estarem sós nas suas casas e nas suas vidas, sem atenção ou carinho de outro ser humano. Essa é a pior forma de solidão. Outro tipo de solidão é a dos refugiados. Estado de desalento, isolamento cultural e existencial. Ninguém ajudar, importar-se ou parecer importar-se. O mundo continuar a girar, a vida a continuar a acontecer e a dor de não poder mudar as circunstâncias é outra das piores dores.

Estamos sozinhos, quando nos afastamos de tudo e de todos, estamos sozinhos nas nossas mentes e vidas, pois todos somos seres individuais e um organismo completo em si. Todos somos indissociáveis. Todos sofremos em silêncio, mesmo partilhando. O sofrimento em si é solitário, só nós sabemos, na verdade, o que sentimos, mesmo expressando a nossa dor. Só nós estamos a sentir aquilo.

Morrer de dor? De saudade ou de solidão? Tudo isso não nos mata, mas pode diminuir-nos. Tal lâmpada que enfraquece, que diminui a sua luz, a sua capacidade de brilhar. Não se morre de repente dessas coisas, vai-se morrendo. Vamos perdendo a nossa vitalidade. A solidão pode matar por falta de recursos, força ou capacidade de superar uma dificuldade, tal como alguém morrer sozinho em casa, porque caiu e ali ficou, sem qualquer tipo de socorro.

A tristeza ou sofrimento profundos, tal como a angústia, é uma dor que oprime e enfraquece o coração, e, atacando um órgão central, pode morrer-se sim. Uma notícia difícil e inesperada, um choque, pode produzir uma paragem cardíaca, um AVC. A solidão não tem força aguda para isso, a solidão é um sentimento crónico. No entanto, a solidão pode transformar-se em solitude: apreço por se estar só. Quando não em isolamento, a solitude é a liberdade de estar só, consigo mesmo, nessa presença atemporal, como um preenchimento ou plenitude de si. Um estado de presença e apreço por se estar consigo mesmo. Quando em solitude, somos um todo preenchido e pleno. Não há vazio ou solidão que possa ocupar esse espaço, porque esse espaço é tudo, é um todo.

Não se morre de solidão quando nos conectamos com os outros e quando criamos pontes para o que está lá fora, em actividades, conexão, amizade, partilha, contacto humano. Que não nos permitamos, ou permitamos um outro alguém, chegar a esse ponto de afastamento de tudo e de todos. Resgatemo-nos a nós e ao próximo desse isolamento para que todos possamos existir plenos e acompanhados. Sós ou não.

Paula Chocalhinho

Psicóloga Clínica & Hipnoterapeuta. Especialista em Psicologia Clínica e da Saúde e em Psicologia Comunitária. Experiência profissional em perturbações da ansiedade (fobias, stress, pânico, ansiedade generalizada), perturbações psicossomáticas, depressão, luto, trauma, insegurança, baixa-autoestima, etc. Trabalho desenvolvido no sentido do autoconhecimento e autodesenvolvimento. Trabalha na Associação para o Planeamento da Família e em Paula Chocalhinho Consultas de Hipnoterapia.

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