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Crónicas

Infidelidade e cintos de castidade modernos

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Num sábado de chuva descobri uma série japonesa – Fishbowl Wives.

Retrata a vida de 6 mulheres, residentes num prédio de luxo sito em Tóquio, que enveredam pela infidelidade,  todas elas por motivos bem distintos. Acaba por ser motivo para analisar e reflectir sobre aquilo que consideramos, ou não, aceitável, justificável,  correcto ou humanamente (in)esperado. Não querendo ser demasiado revelador, posso contar que a protagonista, mulher que sofreu um acidente e se encontra impossibilitada de trabalhar como cabeleireira, vai sendo retirada progressivamente da vida profissional pelo marido, empresário de sucesso do ramo e detentor de salões de luxo. A isso seguem-se os maus-tratos físicos e psicológicos, o controlo, o isolamento e a solidão a que a veta, para além duma infidelidade gritante e óbvia.

A infidelidade surge quase sempre como condenável, embora possa haver outras abordagens… Esta semana alguém me falava dum casal que, após alguma terapia, encontrou solução para a incapacidade sexual do homem, motivada por doença grave, na aceitação de um outro homem que solucionasse a carência feminina. Isto é infidelidade? Não me parece, dado que foi um assunto discutido pelo casal, procurou-se um entendimento, porque se amam e pretendem continuar juntos, mas a questão sexual surgia com desconforto. Se seria solução universal para casos idênticos? Não sei, mas aqui houve claramente uma busca às claras, jogo limpo, sinceridade e honestidade. Para eles resultou. E foi tratado com transparência.

Contudo, a infidelidade, sendo facto efectivo e sofrido no passado, surge muitas vezes como amenizador ou justificante de comportamentos muito pouco equilibrados. É socialmente aceite, ou facilmente compreensível, que alguém que foi traído possa necessitar de maior segurança no que se refere ao amor do outro. Em outras circunstâncias, havendo ou não historial de infidelidades, é a insegurança ou a fraca auto-estima que poderá promover essa exigência da explícita garantia de amor pelo outro. A questão, no entanto, é: em que termos?

No início é tudo lindo e maravilhoso. O ciúme é visto como prova de afecto, o questionamento intenso como interesse, e claro, a romantização do protecionismo (se faço isto é porque te amo…). Se o parceiro anterior era mais independente e menos controlador, e agora se veem fruto da atenção mais intensificada, os incautos poderão pensar que agora é que encontraram alguém que os ama mais do que à própria vida.

Até que o aparente amor se transforma numa exacerbada vigilância sobre a vida do outro. Telefonemas numerosos e inquisitórios, conversas abarcantes com terceiros para confirmar informações, inspecção a telefones e outros pertences, inquirições sobre dinheiro gasto, onde e com quem, são armas de acção. Em complemento, procurar o isolamento do outro, afastando-o de familiares e amigos ( todos cheios de defeitos), especialmente daqueles que poderão, na sua cabeça delirante, constituir ameaça ao seu relacionamento, na forma tentada ou desejada, senão concretizada, da horrível traição.  Eventualmente também a agressão física. Depois, o gaslighting, procurando anular no outro qualquer tentativa de racionalização e percepção do que lhe está a acontecer, desconsiderando as suas queixas, convencendo-o de que não fez nada disso e é tudo fruto do amor intenso e desmedido.

E assim podem passar semanas, meses, anos, consoante a sensibilidade e tolerância de cada um, sem que se aperceba isto. Os alarmes tocam mas são prontamente silenciados por desculpas convincentes, até ao dia em que o sofrimento surge, sinal inequívoco de que algo não está bem. Abro aqui um parêntesis para diferenciar aquilo que pode ser uma desconfiança pontual, com fundamentos reais (que deve ser claramente falada entre o casal),  muito diferente do delírio e obsessão sem causa, alargado ao universo, e que envolve o outro num ambiente contínuo de controlo. Aquilo de que falo, numa atitude permanente e sem freio, com objectivos muito específicos, é de manipulação.

E há aqui uma clara diferenciação na forma como são vistas estas situações, dependendo se o opressor é um homem ou uma mulher:

  • O homem que oprime e tiraniza, é um bruto e gosta de humilhar. A mulher que o faz é insegura e procura garantir-se.
  • O homem que sofre este tratamento é um fraco que não se impõe. Já a mulher é uma vítima frágil sem capacidade de resposta.

Surreal esta classificação!

Parece-me que estas questões são transversais ao género, dependendo mais da personalidade e das vivências de cada um. Não consigo entender como é que se sujeita o outro a este visível martírio, por insegurança ou medo, assim como também não entendo que os que traíram, porque sabem como funciona, vejam o outro à sua imagem e temam ser agora os enganados.

Que fique bem claro: ninguém consegue impedir que outro o traia, por muito bom, bonito, equilibrado ou extraordinário que seja. Há sempre quem seja melhor, e nem é questão disso. Facilmente encontraremos casos em que a traição foi concretizada com pessoas muito mais desinteressantes ou, usando uma expressão popular, se passou de cavalo para burro. O facto de haver um controlo obsessivo é um excelente indicador do desequilíbrio.  E o que é notório, ineficaz no seu propósito. E nada, nada, justifica este propósito. E se é preciso controlar…

O que me parece perigoso é que as vítimas nem sempre se percebem do que se passa à volta delas, ou voluntariamente vão desconsiderando, arranjando justificações que não ponham em causa o amor que julgam ter. Outras vezes alheiam-se de pensar sobre o tema, e não veem, ou melhor dito, não anteveem onde tal progressivo comportamento conduz. Quando se apercebem já estão isolados, sem familiares, sem amigos, muitas vezes sem emprego ou gostos próprios, totalmente despersonificados de si.

Em tempos de guerra, pergunto-me se este óbvio avançar sobre o outro, toldando-lhe os movimentos e os pensamentos, controlando-o sob os seus caprichos e desaires, não se trata também de perda de soberania… a resposta parece-me inequívoca.

Waitin’, watchin’ the clock, it’s four o’clock, it’s got to stop
Tell him take no more, she practices her speech
As he opens the door, she rolls over
Pretends to sleep as he looks her over

She lies and says she’s in love with him
Can’t find a better man
She dreams in color, she dreams in red
Can’t find a better man
Can’t find a better man
Can’t find a better man”

Better Man, Pearl jam

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Sandra Ramos
Sou formada em Gestão, com Pós-Graduação em Transportes Marítimos e Gestão Portuária, área onde desenvolvo a minha actividade profissional. Sou adepta da causa animal e voluntária ocasional. Comecei as minhas aventuras na escrita em 2017, com uma Menção Honrosa num Concurso de Autores, tendo a partir daí participado em algumas Antologias e num Concurso de Speed Writing. Fui cronista na revista Bird Magazine e edito uma página e blogue do mesmo nome: Escrevinhar / Sandra Ramos. Descobri que não vivo sem escrever. Apercebi-me, também, que são as nossas características temperamentais mais difíceis que nos aproximam das pessoas com ousadia suficiente para nos amarem.

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