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Monólogos geração “V”

Uma mulher é mais do que um corpo sexual, é ser que, pela sua força e delicadeza simultâneas, consegue sobreviver às adversidades da vida, consegue superar obstáculos e, sobretudo ser detentora do privilégio de dar à luz seres vivos que vão edificar a humanidade do futuro.

Monólogos da Vagina é a peça de teatro que vos trago hoje e que tive a oportunidade de ver por duas vezes, em tempos diferentes, mas duas experiências que me trouxeram uma abordagem distinta sobre a experiência feminina, no campo da sua sexualidade e forma espontânea como encaram ser mulher nos tempos modernos.

Esta peça foi escrita originalmente por Eve Ensler, dramaturga e ativista norte-americana com estreia inicial em 1996, traduziu-se inicialmente num conjunto de entrevistas que viriam a ser mais tarde monólogos de mulheres de diferentes idades, etnias, orientação sexual e que expõem, sem qualquer tabu, as suas vivências pessoais, sexualidade feminina, a violência que lhes é exercida, a emancipação da mulher na sociedade, para além de outras questões socioculturais.

Cada monólogo é uma perspectiva única e francamente distinta sobre a vida de cada mulher retratada, abordando questões que, para a sociedade, foram durante muito tempo omitidas e desconsideradas por serem uma vulnerabilidade da condição de mulher, mas cujos temas são pertinentes como falar sobre: violência sexual, relações entre homens e mulheres, menopausa, orgasmo, menstruação, sexualidade feminina, temas que viriam a inspirar um movimento feminino designado de “V-Day” nos EUA.

Esta peça para além de explorar todo o universo feminino de forma tocante, como consegue chegar ao público, deixando-o frágil perante as emoções e experiências psicológicas, algumas traumatizantes retratadas, consegue igualmente ser hilariante na forma quase cómica como aborda os temas que são pesados, mas na peça acabam por ser leves e simultaneamente irónicos.

Pessoalmente gostei das duas versões que vi, uma primeira versão em 2002, peça encenada por Celso Cleto e  interpretada pela saudosa atriz Guida Maria e as atrizes São José Correia e Ana Brito e Cunha, que considero de interpretações fantásticas, empáticas e tocantes nos diálogos produzidos e isto só mesmo possível com um elenco muito completo, porque consegue deslizar entre o dualismo de narrar de forma crua e contundente as experiências vividas pelas personagens e ainda conseguem transmitir humor nas situações, não tendo vergonha de assumir as fragilidades e talvez alguma ingenuidade nos sentimentos.

Monólogos da Vagina apresenta uma diversidade de experiências vividas na primeira pessoa das personagens, pretendendo desmantelar estigmas, desafiar tabus do campo feminino e criar uma relação de conexão entre mulheres e o público.

Esta peça veio dar voz a tantas histórias omitidas por pudor, a desejos oprimidos e a desafios que muitas mulheres enfrentam, muitas vezes, em silêncio e sozinhas.

A versão mais recente de Monólogos da Vagina que pude ver foi em 2021, peça encenada por Paulo Sousa Costa, produção da Yellow Star Company, contou com as atrizes: Marta Andrino, Melânia Gomes e Teresa Guilherme que têm um desempenho marcante e divertido a todos os níveis, num período pós pandemia, em que todos procurávamos voltar às nossas rotinas e, no meu caso particular, voltar a ver teatro com peças de conteúdo e que fossem impactantes.

Entretanto, a peça voltou a ter uma renovação dos textos com os “Novos Monólogos da Vagina” em 2022, peça levada novamente a cena por Paulo Sousa Costa e produção da Yellow Star Company, com um novo trio de protagonistas como: Maria Sampaio, Sofia Baessa e Joana Amaral Dias e cuja crítica tem sido igualmente positiva.

Comparando a primeira versão de 2002 com a segunda vez que vi a peça em 2021, temos uma diferença temporal de 19 anos, mas os temas continuam a ser pertinentes e atuais, quando assistimos a histórias isoladas que são compartilhadas por diferentes mulheres, mas que promovem um entendimento profundo e coletivo. Os temas em si afetam as mulheres em qualquer parte do mundo e são uma consciencialização para a violência contra as mulheres e para a defesa dos seus direitos.

Em suma, considero uma peça provocadora, que incita à reflexão,  é inspiradora para mudanças sociais de comportamentos e, que pode e deve ser vista por mulheres e homens, tantas vezes, visados nos diálogos, mas também têm o seu papel de coprotagonistas secundários.

Cada versão dos Monólogos da Vagina tende a ser sempre um exemplo corajoso e influente de abordar a condição feminina e a intemporalidade de temas que afetam diretamente a sua vida.

Nota: este artigo foi escrito seguindo as regras do Antigo Acordo Ortográfico
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