A arte de ser Português

Vivemos num país tão banhado pelo mar e pelo sol que até nos esquecemos de quem somos. E como nos esquecemos é preciso explicar, dizer quem é o português, aquela criatura que consegue dar sempre a volta por cima. Parece complicado, mas não apresenta dificuldade de maior. Querem saber como? É um mero exercício visual e auditivo que não necessita de requisitos prévios. Vejamos:

Alguém tem um acidente grave e fica praticamente danificado, tetraplégico, condenado a uma cadeira de rodas. O que é que se diz? Teve sorte, não morreu. A vida perde toda a qualidade, mas está vivo. Pois, teve sorte. É à português.

Um estrangeiro dirige-se a um português e pede-lhe uma indicação. Este não percebe nada, mas isso não tem importância nenhuma. Puxa do seu linguajar, portuguelês e pronto, já está. Manda-o para um sítio qualquer, mas ele percebeu. Desenrascou-se. É à português.

Joga a selecção nacional (de futebol, claro está) e todos são patriotas. Sabem qual é a bandeira nacional, qual é o hino e ficam todos orgulhosos. Defendem a pátria, o seu âmago, a alma lusitana. Se alguém deita o português “abaixo” ficam ofendidos, respondem à letra e incham o peito. É à português.

No Algarve, os naturais, olham para as inglesas, holandesas, estrangeiras em geral. Dão-lhes duas tretas, engatam-nas e ficam convencidos que foram grandes conquistas (pensam eles). São depois relatos de safaris sexuais, quais autênticas feras selvagens e indescritíveis, daquilo que nunca aconteceu, mas não faz mal. Inventa. É à português.

Quando uma mulher vai ao volante, apesar de ser mais cautelosa e responsável, não se escapa das piadas típicas do macho latino. Mesmo que tenha conseguido contornar um buraco gigante, evitado um acidente grave e conseguido chegar à hora combinada, tem sempre de ser rebaixada porque as mulheres são um perigo ao volante. É à português.

Os meninos andam na escola. Não estudam, não se aplicam, não querem saber e os pais só se interessam com os resultados. Saber não é importante, é irrelevante. Mesmo não sabendo nada, não tendo tão pouco aberto os livros nem dado atenção nas aulas nem, muito menos respeitado os professores, acaba por passar. O menino é esperto. É à português.

Ainda não chega? É preciso dar mais exemplos? Não faltam casos curiosos para relatar onde o homem, macho, sempre macho, dá a volta por cima, porque um latino é sempre superior a qualquer outro ser humano. Masculino ainda pode ter comparação, mas feminino nunca. O homem é sempre superior à mulher. É à português.

O trabalho tem de ser feito, é necessário apressar, o tempo está a ficar apertado, mas o responsável nem está para aí virado. Aperta com a equipa, tudo fica concluído a tempo, mas sem qualidade nem nível. Não tem importância. Ficou feito, não foi? Está bom. É à português.

Se as coisas começam a ficar feias e complicadas no governo, a crise instala-se e o futuro é negro, o primeiro ministro pisga-se. Vai para um lugar seguro, confortável e com as costas quentes. Não assume nem o falhanço nem a incompetência. É de homem. É à português.

Curiosamente é este epíteto, esta palavra que acaba por justificar tantas e tantas incongruências da vida. Como é à português está tudo bem, está esclarecido. É toda uma apologia do tanto faz ou está bem assim. Ser e fazer é totalmente diferente, mas, neste caso, acaba por ser exactamente o mesmo. Ser português é o mesmo que fazer ou deixar de fazer. É à português.

E para finalizar, uma breve análise ao Hino Nacional, aquilo que poucos sabem o que significa. Heróis do mar, ou seja, aqueles destemidos e corajosos homens que se lançaram à aventura, ao incerto, num mar, oceano manhoso, cheio de incertezas, numas casquinhas de noz, naquelas embarcações de brincar, nobre povo, quer dizer a gente que se destacou, os primeiros numa Europa que ainda estava em eterno conflito, nação valente, superar piratas, corsários, medos, superstições, tempestades, mitos, e imortal, conforme dizia o poeta, “se vai da lei da morte libertando”, fica para sempre.

E agora com mais força ainda, levantai hoje de novo, sim, levantar, mas não é o seu lado mais caricato, mais mesquinho e mais facilista. Pensar dá trabalho, custa muito e até pode fazer mal aos neurónios.

Pois é! Se os nossos avós, os do hino, fossem vivos, ficavam muito desapontados e desiludidos com os seus descendentes. Não era esta a raça que eles queriam, que eles tinham em mente. Na verdade, ainda estamos nas brumas, mas falta chegar ao esplendor de Portugal. E quando lá chegarmos, quando estiver atingido esse patamar, então sim, é à português!

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