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Quando a doença é um caso sério de amor

É sobre o amor, esse sentimento que vai para além de qualquer vínculo e que nos segura em cada passo. É sobre sentir que as almas boas estão do nosso lado para o que der e vier. É sobre a conjugação da doença com o verbo amar. É sobre o medo, a vulnerabilidade e a negação. É sobre a esperança, o pensamento positivo, a coragem, a alegria, o humor e a aceitação. É sobre a presença, o altruísmo e a compaixão. É sobre abraçar, segurar bem firme e dizer: não estás sozinha, estamos juntos nisto!

Normalmente, é quando nos acontece algo que nos faz tremer o chão e foge do nosso controlo que nos confrontamos com a verdade nua e crua. Com a nossa verdade. Com a verdade acerca de quem está verdadeiramente connosco. Com a verdade do sofrimento. Com a verdade do lado maior da vida: o amor, o lado melhor da dor.

Imaginemos que de repente se parte uma peça decorativa, única, aquela pela qual se tem uma estima incalculável. Perante este incidente, juntam-se os pedaços quebrados e cola-se tudo muito bem. Embora esteja impecavelmente restaurado, esse artefacto nunca mais volta a ser como era dantes. Apesar de recuperar a sua forma, fica com as marcas dos cacos colados, tornando-se, a partir de então, mais frágil e obrigando a cuidados redobrados na sua conservação. Torna-se, pois, necessário aplicar químicos para que não se degrade. Mais ainda: a partir desse instante tem-se uma maior consciência do seu valor, da sua beleza, da sua fragilidade e finitude.

Assim sou eu. Assim foi comigo, quando há 7 anos recebi a notícia de que tinha uma doença grave, desconhecida da maioria dos mortais, chamada Hipertensão Pulmonar Tromboembólica Crónica. Nome estranho, não é? A verdade é que este foi um acontecimento no que de mais fundo a palavra tem: algo que vem e muda a ordem das coisas para sempre. Parti-me por completo. Fiquei desfeita em bocados. Parecia o fim…

Sem entrar nos pormenores da minha condição, dou especial destaque ao amor. O amor do meu companheiro de viagem, a minha cara-metade, que me tem dado uma grande lição sobre o manifesto de grandeza, a dar-me sempre o melhor de si e que, em fases mais complicadas, vai muito para além de uma relação conjugal: um ser humano a ajudar outro ser humano. O amor dos meus filhos. O amor dos meus pais, dos meus irmãos, da minha família. O amor dos meus amigos e de outras pessoas bonitas que nem eu sabia que tinha ao meu lado. O amor dos profissionais da saúde. O amor de mim para mim. Foi o amor que me ajudou a perceber que se eu quisesse seguir em frente teria que me desarmar e aceitar a minha condição. Afinal não era o fim. E assim fui juntando os meus bocadinhos e restaurando as minhas peças partidas. Isto é um caso sério de amor!

A 7 de Fevereiro de 2013 (faz hoje precisamente 7 anos) fui submetida a uma intervenção cirúrgica complexa,  de alto risco, que se esperava que resolvesse o meu problema, mas que apenas o atenuou, o que já é óptimo. Endarterectomia pulmonar. No estrangeiro. Temperatura do corpo a 18 graus. Circulação extracorporal. Coração parado durante 27 minutos. 8 horas de intervenção. Tudo dentro do plano cirúrgico, para que o cirurgiões pudessem remover os trombos obstrutivos nas artérias pulmonares, que potencialmente estão na origem desta doença. Um procedimento calculado e controlado, que para mim até foi fácil, porque estava anestesiada. Difícil foi para quem esteve lá fora e não me largou por um segundo. O que é isto, senão um amor maior! Aquela mão firme que me segurou e se segurou com todas as forças.

Tenho qualidade de vida. Faço por ter uma vida normal. Mas nem sempre é um processo fácil isto de ter a real noção da finitude, principalmente quando acontecem percalços, quando sei que alguém morreu de hipertensão pulmonar, quando faço exames de rotina ou quando vou às consultas.

A verdade é que a consciência da morte que a doença me trouxe, me presenteou com uma renovada consciência da vida. Tento ver o lado positivo da doença, que me tem permitido abrir novos horizontes, novas perspectivas, novas formas de estar e ser, apreciando as coisas simples e belas de todos os dias. Até, porque acredito que “cada vez que entramos no desconfortável, temos o prazer de descobrir que as flores que nunca vimos antes florescem cada vez que olhamos para elas”. Em tudo há sempre uma oportunidade, é o que eu digo.

Através deste testemunho, gostaria de deixar alguns alertas. O alerta para a importância de escutarmos o nosso corpo e não fugirmos dos médicos, porque se a doença existe, não vai desaparecer só porque não vamos ao médico, muito pelo contrário… O alerta para confiarmos nos médicos e de lhes fazermos todas as perguntas sem medo. O alerta para a existência desta doença grave, sobre a qual pouco ou nada se fala, cujos sintomas, no meu caso, foram fraqueza, dificuldade em respirar, acompanhada de uma sensação de mal-estar geral, cansaço fácil e progressivo em actividades tão simples como caminhar ou fazer a cama, muito semelhantes aos da asma (que era o que eu achava na altura), batimentos cardíacos acelerados… Sintomas estes que podem ser esclarecidos através de uma consulta médica especializada e de um simples ecocardiograma. O alerta sobre a importância de procurar e aceitar ajuda, porque sozinhos é impossível lidar com as adversidades da doença e dos tratamentos, até porque considero que o propósito de cada um de nós passa por ajudar o próximo, senão o que é que andamos aqui a fazer?! O alerta sobre nunca adiar o amor, porque o amor é vida. O alerta sobre não nos identificarmos com a doença, porque somos infinitamente mais… O alerta sobre viver, mesmo com medo, como se não houvesse amanhã. Afinal, ninguém sabe quando chegará o seu dia…

Não existe uma receita para se ser feliz com a doença. Mas alimentá-la através da autocomiseração, não! Só agrava as coisas. Por outro lado, fingir que ela não existe, não falar, isolar-se, também não é o caminho. Já Frida kahlo dizia que “amuralhar o próprio sofrimento é arriscar que ele te devore a partir do teu interior”. E é aqui que reside a arte de a encarar como um conjunto de desafios que se vão superando dia após dia. Um dia de cada vez, mas sempre com gratidão no coração, de sorriso franco e de cabeça erguida, mesmo com uns recuos. Porque uns passos para trás não significam necessariamente regredir, mas sim nos readaptarmos. A minha fórmula tem sido esta.

Muito provavelmente irei morrer desta doença, que veio comprometer bastante a minha longevidade. Mas não dramatizo, até porque de alguma coisa terei que morrer, e não passa um dia em que não me lembre de que a tenho, ou que ela faz questão de me lembrar… No entanto, ter hipertensão pulmonar tem-me ajudado a fazer escolhas mais conscientes. Não há tempo a perder com coisas que não nos acrescentam valor. Escolho viver em liberdade e na verdade, desfrutando… Às vezes até penso que a doença me tornou mais feliz. Parece ridículo.

Planos, controlo, estabilidade, expectativas… Tudo não passa de uma ilusão. O melhor mesmo é desembrulhar o presente que a toda a hora acontece, vivendo com a consciência de que a perfeição pode ser encontrada na imperfeição.

Na saúde e na doença, o amor é sempre o hino a louvar.

* Um artigo médico sobre a hipertensão pulmonar: clicar aqui

* Uma música bonita: ‘People Help the People’: clicar aqui

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Manuela Gonçalves Pereira

Madeirense, casada e mãe de dois filhos, os seus amores-para-sempre. Residente em Coimbra e licenciada em Comunicação Social, inspira-se nas pessoas e em tudo o que a vida oferece. Enveredou pela comunicação das organizações, área em que actualmente exerce a sua actividade profissional. Ler {livros e o mundo} e escrever aqui e ali são alguns dos seus passatempos favoritos. Encara o sentido de humor como uma forma de desconstruir preconceitos. Lema de vida: em tudo há sempre uma oportunidade...

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