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Sociedade

Pobreza: Vergonha vs Snobismo

Há uma crónica do Lobo Antunes de que gosto especialmente e a memória trouxe-ma, como se de um contraponto à realidade se tratasse. E a crónica, brilhante, sarcástica e provocadora, começa assim:

Os Pobrezinhos

Na minha família os animais domésticos não eram cães nem gatos nem pássaros; na minha família os animais domésticos eram pobres. Cada uma das minhas tias tinha o seu pobre, pessoal e intransmissível, que vinha a casa dos meus avós uma vez por semana buscar, com um sorriso agradecido, a ração de roupa e comida.

Ultimamente tem sido noticiado que, consequência do COVID, desemprego e lay-off, tem havido maior procura de ajuda por parte de famílias, algumas das quais crescentemente endividadas. Centros paroquiais, associações, juntas de freguesia, têm-se desdobrado em esforços para apoiar estas pessoas que, anteriormente, até poderiam ter tido uma vida estável, mas  neste momento não são capazes de satisfazer as necessidades mais básicas. Há, de facto, muito mais gente a precisar de ajuda, e talvez a vergonha tenha sido mitigada pela fome, e os pedidos manifestam-se.

E este assunto  faz-me  balançar entre a verdadeira carência e o aproveitamento tacanho da boa vontade alheia. Arriscando-me a ser mal interpretada – facto a que somos sujeitos sempre que manifestamos uma opinião – confesso que, muitas vezes, já não sei distinguir o trigo do joio. O que, obviamente, me pode levar a juízos de valores injustos, o tal do “paga o justo pelo pecador”.

Uma moça que conheço costuma apoiar, de quando em vez, uma família de 6 elementos, 2 adultos e 4 crianças / jovens. Leva-lhes roupas, e com os donativos angariados entre algumas pessoas, junta uma pequena mercearia que minimize a sua carência. Conhece-os a todos, a sua história, consegue comprovar a sua situação, e é seguro que a ajuda angariada tem bom fim. E este parece-me, como já defendi noutro artigo, a forma mais segura de garantir a boa utilização das ajudas e a recepção justa por quem delas efectivamente precise.

Ainda assim, tive conhecimento de situações em que pessoas que apregoam as suas necessidade, de forma mais ou menos ostensiva, acabam por agir de forma absolutamente contrária ao que publicitam. E são estes que me preocupam, na medida em que poderão, pela sua atitude, gerar uma desconfiança generalizada relativa a todos aqueles que manifestam necessidades ou pedidos de apoio, fazendo com que pessoas de boa vontade, que poderiam, na medida das suas capacidades, ajudar alguém, não o façam, temendo o engodo.

A dúvida instala-se e nem sempre temos dados ou detalhes que nos possam esclarecer de forma inequívoca, mas há casos que me parece que falam por si, e me deixaram estupefacta, pela sua crueza. Um desses casos foi um  senhor que, pedindo à porta do supermercado, e tendo-lhe sido oferecido uns pães de leite, que a pessoa em questão achou adequado à sua falta de dentes, recusou, por ter açúcar na sua composição. Outro caso, tendo recebido duma paróquia um saco com mantimentos, o cedeu a terceiros, porque não comiam enlatados. Outro ainda, pedindo comer para os filhos, recusou uma oferta de pão e bananas, porque não gostavam da fruta! Não consigo encontrar, por muito que me esforce, apelando para alergias ou afins, motivos para compreender estas atitudes.

Recordo-me, em miúda, de ter entrado num café com a minha avó, para ela pagar uma sopa a uma senhora que a ela se dirigiu na rua, pedindo ajuda. Lembro-me ainda que a minha avó terá dito que  não dava dinheiro, mas se quisesse que lhe pagava o almoço. E assim foi. Foi aí que percebi que a verdadeira fome manifesta-se claramente.

Contudo, os gestos estranhos não se findam com a comida. Em certa altura, a uma moça desempregada e em busca de emprego, foi sugerido um part-time num café ao fim-de-semana. Não aceitou, dado que para isso teria que trabalhar enquanto o marido está em casa, e ainda por cima teria que deixar o filho com o pai. Ou casos de rejeição porque o local de trabalho é a mais de 5km, ou tem horário nocturno ou variável. Quando se precisa, quando há contas a pagar, aceita-se…. ainda que se continue em busca de melhor. Isto claro, para quem pretende pagar as suas contas. Em tempos conheci uma família que vivia num condomínio privado, de luxo, mas devia meses e meses. Alguém comentou que o valor de condomínio só era caro se se pretendesse pagar…de facto, assim é.

E deixando espaço ao humor, não pude deixar de apreciar um grupo de hippies que costumavam parar pelo Chiado, com alguns cães, e que dispunham na calçada de alguns recipientes para moedas, consoante o destino das mesmas: comida / ração / droga. Se não verdadeiro, pelo menos criativo.

Talvez o facto de, felizmente, nunca ter tido nenhum problema desta grandeza para resolver, nos confunda e nos torne incapaz de perceber detalhes. Estamos a ser injustos ao olhar de lado estas recusas em receber ajuda, quando a mesma foi pedida?  Ou talvez consideremos que em situação de carência inequívoca, se aceita a ajuda de pessoas bem intencionadas. O que me leva a pensar, que por vezes não exercemos a justiça nem temos o discernimento de avaliar as situações.

António Lobo Antunes retratou muito bem a atitude snob, neste caso daquele que “ajuda”:

O pobre da minha Carlota, por exemplo, foi proibido de entrar na casa dos meus avós porque, quando ela lhe meteu dez tostões na palma recomendando, maternal, preocupada com a saúde do seu animal doméstico

– Agora veja lá, não gaste tudo em vinho

o atrevido lhe respondeu, malcriadíssimo:

– Não, minha senhora, vou comprar um Alfa-Romeu

Serão essas atitudes incompreensíveis senão snobismo de quem supostamente precisa?

Ou apenas gestos sem noção?

Sandra Ramos

Sou formada em Gestão, com Pós-Graduação em Transportes Marítimos e Gestão Portuária, área onde desenvolvo a minha actividade profissional. Sou adepta da causa animal e voluntária ocasional. Comecei as minhas aventuras na escrita em 2017, com uma Menção Honrosa num Concurso de Autores, tendo a partir daí participado em algumas Antologias e num Concurso de Speed Writing. Fui cronista na revista Bird Magazine e edito uma página e blogue do mesmo nome: Escrevinhar / Sandra Ramos. Descobri que não vivo sem escrever. Apercebi-me, também, que são as nossas características temperamentais mais difíceis que nos aproximam das pessoas com ousadia suficiente para nos amarem.

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