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A minha casa de infância, não foi nunca o meu aconchego

Hoje o tema por aqui é um pouco o meu testemunho de vida, mas também uma perspetiva do que senti, vivi e penso sobre a violência doméstica em Portugal.

É verdade, a minha casa de infância e de adolescência nunca foi o meu aconchego. Foi uma cena de terror sem fim.

Porquê? Porque além de inseguro, instável, frio para uma criança que com 3 anos de idade, já era vítima de maus tratos físicos por parte do meu pai e que também teve, desde sempre, falta de amor e de calor humano. Era presença constante de medo, sangue, facas, pontapés, machismo, sexismo, alcoolismo, comprimidos, violações e também negligência ou o narcisismo. Muita mesmo. E de ausências… de falhas, de faltas nas festas da escola, ou de colo e de palavras encorajadoras.

Para mim, chegar a casa todos os dias era um medo constante, porque não sabia como iria ser, da parte dos adultos, todos eles, os grandes que supostamente sabiam o que faziam e como cuidar de um ser menor e indefeso. Contudo, a dor física, os conflitos familiares, a mediação ou arma de arremesso a que fui exposta desde nova, fizeram de mim uma guerreira (será?). Pouco auxílio houve na altura e, quando havia visitas da polícia, só diziam “entre marido e mulher não se mete a colher!” E eu, a filha mais nova, qual era a razão para me baterem ou, neste caso, a polícia nada fazer? Mesmo vendo o chão cheio de sangue pelo corredor principal da casa… NADA fizeram! NUNCA, NINGUÉM! Auxílio: ZERO!

Há também pais e famílias que – no lugar do amor, do mimo ou do colo, ou do zelo, da ternura e do apego de pais para com os filhos – têm, apenas e somente, quem as rebaixe e as ofenda sem dó nem piedade. As intimide e as violente. E as agrida e lhes faça ver que aquilo é que é o normal como quando ia brincar para a rua com o olho negro e me questionavam o que tinha. Porque era com pontapés e murros o que se tratava. Porque no fim, quando sai de casa, fui ameaçada de morte e tive um ano com apoio psicológico na APAV.

Também eu, nessa altura, morri todos os dias, mais um pouco. E que, mesmo assim, nunca me perdi na vida, nem em drogas, nem a beber (nunca me embebedei e já lá vão 35 anos de vida), nem me auto-mutilei fisicamente. Que, apesar de tudo, criei uma fortaleza dentro de mim e vivia no mundo dos livros. Porque tive que aprender sozinha muitas coisas de mulher e de menina (nunca tive uns pais muitos disponíveis para uma filha, quanto mais irem ver festas da escola  ou irem sequer às reuniões escolares). Tanto abandono, negligência tive, tanta violência de tantas formas tida, tanta alienação parental que fui subjugada e de manipulação e de chantagem.

Apenas quando fui viver sozinha com os meus 25 anos de vida (após ter vivido dos 11 aos 18 anos com o meu pai e dos 18 aos 25 anos com a minha mãe), consegui renascer e perceber quem era a Liliana Alexandra Mota Henriques, ainda na altura solteira.

Fui eu que me salvei a mim mesma, e não nenhum pai ou mãe, irmão, familiar, segurança social, polícia ou estado. Porque na verdade, andei aos caídos toda a minha vida. Até me encontrar. E não, eu não guardo rancor apesar de já o ter tido, apesar de ter sido bastante revoltada durante grande parte da minha vida, violenta e desconfiada também.

Não tenho vergonha das minhas raízes, nem de onde vim e do que vi e vivi até hoje, mas o que sou é graças a mim mesma: os meus estudos, os meus bens materiais, as viagens que fiz, os meus valores e no que acredito. Até o meu casamento foi a minha mãe adotiva que preparou, fez e deu. Mesmo que haja ausência total agora, do papel que os meus pais não fazem e não têm (e do meu irmão mais velho que me criou), não guardo rancor. Porque, na verdade, têm dentro deles falta de amor. E é tão importante termos Amor dentro de nós. Caramba, dá-nos ganas de vida e para acordar todos os dias. E para continuarmos no nosso caminho.

Espero que este meu testemunho permita a quem me lê se lembrar que depende de todos nós na sociedade terminarmos com a violência doméstica em Portugal. É um problema e uma realidade de todos nós! Não sejamos também cúmplices deste acto de violência brutal que é feito dentro e fora do ser-humano e que terá consequências que não apenas as mortes já anunciadas e que podem a qualquer instante suceder.

Não se calem perante o crime de violência doméstica! Porque afinal e, felizmente, hoje em dia, mete-se a colher, sim, entre marido e mulher. Sempre que alguém morrer por violência doméstica, todos somos vítimas. E cúmplices, também. Não o esqueçamos.

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Liliana Brazuna

Coach, Terapeuta e Blogger, com enorme sede de escrita. Adoro a paixão com que coloco todos os meus desafios diários. O meu principal objectivo é viajar para conhecer diferentes culturas.

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