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No Teu Lugar

Sara senta-se junto da mãe, que a fita com um olhar inquiridor. Agora esperamos, mãe; depois a polícia vai levar-me, não te preocupes, eu fico bem. Não podes contar a ninguém o que aconteceu aqui. Fica em silêncio. Hão-de pensar que estás em choque e não vão forçar-te a falar. Eu vou dizer-lhes que fui eu que matei o pai porque me cansei de ver-te seres maltratada por ele. Vão acreditar em mim, podes descansar. E tu vais viver o resto da tua vida em paz, sem violência. Eu hei-de sair da prisão a tempo de ainda viver muitos anos em liberdade.

A mãe não consegue processar nada daquilo, de repente, a faca no peito do marido, o sangue, aquele sangue todo, a roupa de Sara quase imaculada, e a filha a dizer que foi ela que matou o pai. Não quer que a filha seja presa, mas não consegue pensar. Sara lê o pensamento da mãe e, sem hesitar, despe a blusa e as calças e estende-lhas, pede-lhe a roupa que tinha vestida quando matou o marido. A mãe vai buscar o vestido, entrega-o à filha com as mãos a tremer. Sara troca de roupa, a mãe abraça-a e já têm ambas nas mãos o sangue daquele homem que destruiu tudo na vida delas.

Sara senta-se no sofá. Sabe que a quantidade de álcool presente no seu sangue poderá, eventualmente, atenuar as coisas, não estava em si, estava bêbeda, teve um momento de loucura e matou o pai. Estava, de facto, bêbeda quando chegou a casa e encontrou o pai morto. O choque e a adrenalina fizeram-na voltar a si rapidamente, a agilidade da mente de vinte e poucos anos a ajudar a encenar tudo aquilo. 

Quantas horas passaram desde que matou o marido? Três? Cinco? Não sabe. Sara pergunta-lhe onde foi depois de ter matado o homem, ela responde que foi à igreja, precisava de rezar, de pensar, de confessar o que tinha feito. Sara, incrédula, mas tu contaste a alguém o que se passou aqui?, a mãe confirma, contou ao padre, que não dirá nada a ninguém, não quis submetê-la ao julgamento das autoridades, a penitência dela foi paga antecipadamente durante os anos em que viveu aquele martírio, além disso a confissão é sigilosa, o padre não poderá contar a ninguém o que ouviu naquele confessionário. 

No rosto de Sara, todas as perguntas. Matei-o porque ele me matou a mim. Tu nunca te apercebeste, ele sabia como evitar ser visto, nunca fez nada à frente de outras pessoas. Quando estávamos só os dois, eram os insultos, fui tantas vezes puta, tantas vezes cabra, depois vinham os empurrões, os puxões de cabelo, as violações, todas as vezes que eu recusei sexo e ele me obrigou, todas as vezes em que, depois, me olhos com nojo e me disse que eu era a pessoa mais imunda em que ele alguma vez tocara, depois os socos nas costelas, nas coxas, ao fundo das costas, sempre onde as marcas haviam de ficar escondidas, era o não me deixar falar com ninguém, nós não vivemos longe da minha família por acaso, foi para me manter distante de quem pudesse ajudar-me. Matou-me devagarinho durante estes anos todos e agora matei-o eu.

Sara pensa que o padre dedicou a vida ao justo que pagou pelo pecador e que este é exactamente o caso, portanto, dificilmente denunciará a mãe. Sara não quer salvar a humanidade, quer apenas dar à mãe a possibilidade de saber o que é viver em paz, viver sem medo, viver livre e poder ser quem ela quiser. Sara olha o pai e já não vê o homem que a levava às cavalitas, que lhe chamava Sarita; agora, vê o homem que a impediu de seguir Belas-Artes e que a obrigou a ir para Línguas, que lhe recusou saídas à noite e dormidas em casa de amigas, que a esperava à porta às nove, hora mais tardia a que podia chegar a casa, que lhe dizia que ela era demasiado bonita para andar na rua, que nunca lhe autorizou um namoro, que lhe revistava o telemóvel quase diariamente, para teu bem, meu amor, porque nunca se sabe quem anda lá fora, dizia, enquanto a prendia cada vez mais um bocadinho. Sara já não vê o protector, mas sim o controlador misógino, o carrasco, a prisão. E compreende. 

Vê nos olhos da mãe milhares de dúvidas. Incapaz de lutar contra o ímpeto da filha, pousa no seu colo a cabeça e deixa que Sara lhe afague o cabelo. Talvez seja este o último momento de liberdade para ambas, talvez seja a última vez que se tocam como mãe e filha, o amor em estado líquido nas lágrimas que ambas choram quando começam a ouvir-se ao longe as sirenes.

Lénia Rufino

Escreve porque não sabe fazer mais nada. Mentira. Sabe, mas não gosta tanto. Criadora compulsiva de personagens com distúrbios psicológicos graves e dona de um fascínio absurdo por mentes conturbadas.

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