Perseguição

Um forte estrondo ouviu-se vindo dos fundos do bar. Foi o som de um homem a ser arremessado pela porta da casa de banho como se esta não existisse. Existia e servia agora de maca a um homem inanimado. Da luz fusca da casa de banho saiu ela ainda a apertar o botão das calças de cabedal. Voltou à penumbra do bar apenas com a luz do fundo a formar a sua silhueta e as botas de cano alto a ritmarem o som dos seus passos. Ela era assim. A sua forma, o seu corpo em raros momentos o revelava. E cada um desses momentos era escolhido por si como se de alguma forma controlasse essa ínfima parte do universo. Era um fantasma vestido de pessoa. Todos viam a pessoa, a pele, a carne, os gestos, mas apenas uma pessoa via o fantasma. E como o via, entendia-a. E perseguia-a.

A indiferença grassou pelos poucos bonecos de trapos que se deixavam perder naquele bar. Ninguém mais se atreveu a seduzi-la e muito menos quiseram saber do homem derrotado. O barman serviu-lhe um whiskey deixando a garrafa junto do copo em resposta a um simples gesto dela. Ela levantou o copo e estudou o líquido procurando imagens que não existiam. “Precisa de ajuda para limpar o lixo?”, perguntou ela antes de levar o copo à boca. “Não é preciso, ele já acorda.” Foi a resposta do barman dada sem a olhar nos olhos. Ela não o permitia. Mantinha o olhar para baixo como se procurasse permanentemente saber onde estava. Quando o levantava era para mirar o horizonte e olhar o futuro, jamais o passado. Olhar os olhos de um homem era subjugar-se à simples condição de mulher. Ela queria ser mais do que simples condição. Queria conquistar, chegar aos quatro cantos do mundo, descobrir o que não sabia que iria descobrir. Estar com, ser de alguém e alguém ser dela era uma âncora que a impedia de viver.

Pousou o copo, pagou atirando uma nota para cima do balcão e disse apenas: deixe ficar o copo e a garrafa, por favor”, e saiu. Atravessou a porta ao mesmo tempo que ele o fez no sentido inverso. Num instante os olhares cruzaram-se, fixaram-se, mediram-se. Iluminaram-se em chama que ardia sem queimar. Se o tempo parasse naquele instante, duas almas fariam amor. Ela saiu ele entrou. Sentou-se ao balcão, pegou na garrafa de whiskey e serviu-se no copo que ela deixara. A bebida soube-lhe a beijo.

Ouviu o roncar de um motor, forte, agressivo. Quis impedi-la de partir de novo mas sabia que não tinha essa faculdade. E no fundo não lhe interessava segurá-la. Até podia ir lá fora e antes de ela partir agarrá-la por um braço e puxá-la para o seu mundo, podia encostá-la à parede, olhá-la nos olhos e obrigar o tempo a parar para ver o amor triunfar, podia ser uma âncora e ensiná-la que ancorada também é viver. Este pensamento, esta possibilidade, sempre o assomou. E assombrou. Mas mais uma vez cerrou os olhos em si para vê-la afastar-se de novo. Ouviu a música metálica do motor, uma breve aceleração e um silêncio súbito.

O silêncio repetiu-se.

O silêncio triunfou.

Ele saiu calmamente do bar. Junto à sua moto, encostada à parede ainda com o capacete colocado como se a protegesse do que nunca antes conseguira fazer, ela aguardava-o pela primeira vez.

Eu sou estranha, não vale a pena tentares aplicar a lógica em mim.

– Nada do que te envolve tem lógica. Por isso é que eu estou aqui.

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