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Os três irmãos, de Victor Hugo Pontes

Vá lá, vão ao teatro!

Tão bonito, tão cru, tão feio, tão… Uma hora e meia de uma imensidão de “tãos” tão “tãos”… Que horrenda preciosidade. As palavras faltaram-me no momento em que saí naquela sexta-feira, dia 8 de outubro de 2021, do grande auditório da Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão.

Tinha passado uma das melhores “hora e meia” da minha vida e hora e meia esta que fora recheada com as mais perfeitas imperfeições resultantes do texto original de Gonçalo M. Tavares, da direção artística de Victor Hugo Pontes, a Consultoria Artística de Madalena Alfaia, um tão complexo de aparência simples jogo de luzes de Wilma Moutinho, a música penetrante e tão (lá está) pouco previsível de Joana Gama e Luís Fernandes, a bruta cenografia de F. Ribeiro e as interpretações de Dinis Silva, com toda a sua vulnerabilidade de irmão mais novo, Valter Fernandes, com a sua expressão corporal e dança exímios e Paulo Mota, com toda a sua intensidade.

Nunca tinha visto ao vivo uma criação de Victor Hugo Pontes (ouça-se interjeição de espanto na audiência) e esperava algo totalmente diferente, ainda que igual. Confusos? Pois, eu às vezes tenho destas coisas. O que que quero dizer é que esperava algo megalómano, totalmente vestido de técnica e limpo de imperfeições. Totalmente o oposto, totalmente vestido de técnica, mas ao mesmo tempo tão fingidamente improvisado, tão íntimo, tão miserável, tão imprevisível, tão bonito… tal como a vida. Senti-me muitas vezes a invadir o palco, senti-me a invadir precisamente a vida daqueles três… revi-me muitas vezes no que transmitiam e arrependia-me de o fazer logo a seguir.  Lutei com eles, transpirei com eles, dei-lhes as mãos, carreguei-os nas costas, agarrei-lhes a cabeça e obriguei-os a escutar-me, sequei-lhes as lágrimas, carreguei-os nos braços, sorri com eles, sofri com eles… quis ser como eles. Quero ser como eles.

Uma tragédia transversal ao sítio, do tamanho dos textos antigos, com a contemporaneidade, não apenas na dança, mas na essência. Esta mesma contemporaneidade que nos bate com força no rosto e nos diz que: isto pode acontecer…

Não há muito mais a dizer para além de que, foi tudo. Não foi perfeito, mas foi tudo e no final de tudo, nunca a vi, mas a perfeição parece-me tão chata.

Vá lá, vão lá ao teatro! Empobrece-se apenas um pouquinho na carteira mas enriquece-se exponencialmente na alma.

P.S. Nada do que verão foi e será feito com apenas 0,25% de trabalho.

Telma Casta

Telma Domingues, 28 anos, Barcelos. Escreve desde muito pequena e sempre viu na escrita um refúgio. Tirou licenciatura em Teatro e Artes Performativas, e mestrado em Ensino de Teatro com especialização em teatro e pedagogia do oprimido.

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