O último dia

No último dia de uma viagem como esta senti um misto de sentimentos. Estive fora 10 dias e naturalmente já pesava estar longe das pessoas mais especiais para mim. Sentia ser altura de regressar e não me importei muito por ter de o fazer. Ao acordar naquela manhã e reflectir enquanto arrumava as malas, dei-me conta de ter encontrado o que procurava. Os locais por onde passei foram escolhidos por há muito me imaginar neles e uma vez lá, sentir que corresponderam às expectativas, quando não as ultrapassaram, deu-me um sentimento interior de missão cumprida. Ou uma primeira missão ultrapassada.

Las Vegas revelou-se ser aquele recreio adulto que tão bem sabe vender. Toda a cidade foi construída e funciona para receber e se possível, deixar as pessoas perderem-se. É um local onde é fácil ultrapassar limites. Já o Grand Canyon é um exemplo de como o limite é algo estranho à mãe natureza. A beleza e a força da sua paisagem são inigualáveis, bem como a forma como parece nos transportar para um local onde as três dimensões tem significados diferentes. O deserto, o Mojave, é a casa da quarta dimensão, do tempo. Percorrer as suas estradas intermináveis, sentir o tempo a passar mais lento sob o efeito de um sol abrasador, foi a experiência e um dos pontos altos da minha vivência. Ali descobri também um novo sentido de solidão. Uma solidão que consegue ser incomparavelmente maior, mas ao mesmo tempo pacífica e leve para a mente.

Já o objectivo de conhecer Venice Beach foi outro. Há muito que sentia o local a chamar-me. Na primeira oportunidade fui lá. Estive em Los Angeles, cidade gigantesca com múltiplos pólos de atracção mas não visitei a riqueza de Beverly Hills. Não fui pisar as estrelas do passeio da fama em Hollywood, nem vi o seu sinal. Não senti um pouco sequer da magia do cinema. Não saí de Venice Beach.

Percorri as suas ruas com uma sede de assimilar e testemunhar como é a sua vida. Fui observador atento das pessoas que parecem viver um outro quotidiano, com alegria e descontracção. As lojas que só ali fazem sentido e os seus clientes que são um diferente sinónimo de consumismo. A comida ecléctica e de uma qualidade difícil de encontrar noutro local. As lojas do Boardwalk que só por si são o sinónimo de multi-culturalismo. Vi murais e uma arquitectura deslumbrante na sua simplicidade e autenticidade. Passei por ruas e mil recantos e percebi todas as inúmeras imperfeições de Venice. Aprender que são essas imperfeições que lhe dão o seu carácter, foi a minha grande conquista desta viagem.

Neste último dia tomei um pequeno-almoço de encher os sentidos, sentado numa esplanada em frente ao Pacífico. Arrumei as malas e despedi-me do staff do pequeno Venice Beach Hotel and Suites. Fizeram da simpatia uma ferramenta de trabalho e o próprio edifício é o espelho do que deve ser naquele local. Sem luxos, conforto a todos os níveis, aberto para a praia e para todos os cheiros e sons do Boardwalk. Depois de mais um passeio, esperei o táxi requisitado pelo hotel e segui para o aeroporto pronto para dizer fim.

Antes dessa palavra, respirei bem fundo aquele ar uma vez mais. Sentiu-o a preencher-me os pulmões e regressei a casa com a certeza de que respirar aquele ar torna-me mais saudável.

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