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O Tédio

Deparei-me, por acaso, com um estudo já antigo, publicado pela revista Science em 2014, que falava de uma experiência feita com pessoas de várias proveniências e faixas etárias, com o intuito de abordar a sua relação com o tédio. Nesse estudo, subdividido por várias provas, constava que alguns participantes preferiram experimentar pequenos choques eléctricos a ficar cerca de quinze minutos em pleno tédio. Fiquei pasmada! A imaginação é pródiga no que respeita a levar a cabo novos estudos, não tão prodigiosa a minha em considerar a hipótese de que seria melhor sujeitar-se a um pequeno choque eléctrico do que ficar alguns minutos sem nenhum outro estímulo. Não creio que o estudo se tenha revelado de grande importância, mas semeou o alerta sobre a incapacidade actual de se lidar com o tédio.

Parece-me este um problema generalizado com maior evidência nos mais novos, sendo que nós, enquanto educadores, temos a nossa quota parte de responsabilidade. Os tempos mudaram, é certo, mas essa não deverá ser justificação para tudo o que acontece ou que deixamos acontecer, numa certa passividade, uma vez que esses novos tempos trazem coisas mais e menos benéficas e o espírito crítico permite-nos escolher ser alavanca ou travão.

Os miúdos, hoje, são bombardeados com estímulos a toda a hora, numa tentativa constante de os ocupar, de lhes dar muitas experiências, de os pôr em contacto com uma série de realidades, fugindo permanentemente do vazio. O cometimento educativo esforça-se muitas vezes por assegurar que a criança vai à escola e que não tem muito tempo livre no período extra-escolar, passando a girar num carrossel que coloca pais e filhos num rodopio entre todas as actividades que se quer proporcionar, como fomento de uma boa educação. Ele é natação, ballet, equitação, judo, patinagem, karaté, aulas de música, entre tantas outras coisas que queremos que os nossos filhos experimentem. E, para além deste enriquecimento extracurricular, que os tornará mais aptos no futuro, acreditamos, surge também o enriquecimento social, traduzido em festas de aniversário que se encavalitam umas nas outras, numa agenda de fins de semana sucessivos. Os nossos ricos filhos crescem cheios de actividades e afazeres e desde pequenos são educados a não lidar com o vazio.

Este dinamismo poderá trazer mais valias – parece-me indiscutível –, sendo do conhecimento comum os proveitos que advêm, por exemplo, da prática desportiva, que se sabe promover a saúde, a disciplina, o espírito de equipa, entre outros, assim como aprender música através da prática de algum instrumento traz conquistas ao espírito e ao intelecto, ou os benefícios terapêuticos da equitação, enfim, será fácil encontrar vantagens no exercício de todas estas modalidades. Estas actividades enriquecem, abrem horizontes e ajudam a formar indivíduos, mas para tudo deve haver medida.

Crianças a usar o telemóvel

Em muitos casos, as crianças estão sobreocupadas. São profusamente estimuladas. Têm o seu dia completamente preenchido, e, quando assim não é, quando surge um vácuo, ele é imediatamente tomado pela tecnologia, seja sob a forma de um tablet, telemóvel, televisão, computador, consolas e outros gadgets que invadem o espaço mental de forma instantânea e de fácil digestão.

Como um recipiente chega a um ponto de saturação, derramando o líquido que excede a sua capacidade, também a medida da criança deve ser preservada, sob pena de o excesso se tornar prejudicial em vez de enriquecer o processo de crescimento.

Os momentos de vazio são preciosos e os mais novos são ensinados desde cedo a não lidar com eles. É nos momentos de tédio que a imaginação se pode manifestar, que a criatividade aparece. O tédio é a folha em branco. Todos nós já presenciámos, ou conhecemos directa ou indirectamente, um menino com parcos brinquedos que consegue fazer de um pedaço de madeira todos os brinquedos que lhe cabem na imaginação.  É no espaço vazio que há lugar para pensar o novo. É importante que a mente vagueie, que esteja pontualmente sem foco, para que possa ser criativa. Como escrever numa folha já escrita? Como desenhar numa folha já pintada? Os tempos mudaram, não se pode negar, mas o facto de antes se viver mais na rua fomentava o exercício da imaginação, havendo um convite implícito nessa circunstância a criar formas de brincar e ocupar o tempo. Na falta de companheiros de brincadeira e de botões e écrans tácteis, encontrávamos na nossa própria companhia o amigo de muitas horas. Naturalmente aprendíamos a estar connosco e a tomar consciência daquilo que, afinal, somos, mesmo que para lá chegar atravessássemos a sala do aborrecimento. Mas há que atravessá-la!

Há uma inaptidão óbvia em lidar com a frustração que este tédio gera, sendo que muitas crianças, hoje em dia, se privadas do seu gadget, não sabem o que fazer. É impressionante ver o automatismo do gesto que saca o aparelho do bolso perante a eventualidade adivinhada de estar mais do que um minuto sem ‘nada para fazer’. Este comportamento repetido vai traduzir-se numa ignorância de si mesmo, numa inabilidade para estar consigo próprio, fruto de nunca ter sido aliciado a fazê-lo.

Claro que esta fuga ao tédio tem repercussões não só nas crianças, como nos adultos, cuja incapacidade de estar numa fila ou numa carruagem de metro sem se socorrer do telemóvel é sobejamente conhecida. Da mesma forma que passámos a evitar o contacto visual com o outro, escondendo o nosso olhar sobre um livro, ou fixando-o naquele lugar de ninguém (que não é fácil de encontrar dentro de um elevador, diga-se!), evitamos demasiadas vezes o contacto connosco próprios. É importante haver um equilíbrio entre o espaço preenchido e o espaço vazio. A actividade básica de pensar requer espaço mental – como podemos reflectir sobre nós, sobre o mundo, sem esse espaço?

Ocorreu-me até que o índice de felicidade (ou bem-estar) pudesse ser medido por essa capacidade de estar consigo próprio: “Se saíres desse corropio desenfreado de ocupações, és feliz? Sentes-te em paz com o ser que habitas?”. Os estímulos exteriores garantem que não estamos connosco, transferindo-nos para outras realidades, pelo que perdemos o pulso sobre a nossa própria existência, correndo até o risco de a avaliar com bitolas que não são as nossas.

Mais tarde, bem se podem ensinar técnicas de meditação, ou outras práticas de conexão, pois que os ensinamos a nunca estar consigo próprios desde pequenos. Não deveríamos estar sempre a distraí-los, ocupá-los. É importante e enriquecedor trazer-lhes estímulos, mas não em permanência, para que possam tomar a sua medida e a levem pela vida.

Algum dia, em qualquer parte, em qualquer lugar, indefectivelmente, encontrar-te-ás a ti mesmo e essa, só essa, pode ser a mais feliz ou a mais amarga das tuas horas.

– Pablo Neruda

Joana Martins

Sou a Joana, fácil de convencer com Sol, mar (tão cliché e tão verdade), viagens, leituras, aprender, animais, conhecer, pessoas, yoga, crossfit (a aprender a lidar com os meus paradoxos), caminhadas, Arte, boas conversas, amigos, Música (nem toda), amores, chocolate, Filosofia, palavras, Ericeira, Literatura, alimentação saudável, Natureza, bons encontros e uma insatisfação latente em fase de mitigação. Não compreendo quem continua a deitar lixo no chão e no mar. Aviso aos incautos: posso pensar demais...

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