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Contos

O Teatro

Ao sair da estação de metro, Egon reparou numa folha de plátano que se destacava entre tantas outras que formavam remoinho rente ao passeio. A folha era grande, cor de resina, com nervuras salientes que pareciam vasos sanguíneos e uma margem espinhosa que fazia lembrar a silhueta de um sátiro. Egon pisou o último degrau da escadaria e, sem desacelerar o passo, agachou-se apenas o suficiente para apanhar a folha enquanto esta ainda planava.

Quando chegou ao teatro, Egon foi directo ao camarim e guardou a folha de plátano entre as páginas de um caderno. Despiu-se e passou uma máquina zero pelo couro cabeludo. Saiu do camarim e percorreu descalço o corredor dos camarotes, envergando apenas o par de cuecas a que se resumia o figurino, agasalhado com o xaile que iria despir no último instante antes de entrar em cena. Espreitou por detrás do pano: três filas de cadeiras desdobráveis num auditório secundário, envolto em flanelas. Posicionou-se no cenário. As tábuas do palco rangeram. O pano subiu.

Egon interpretava o monólogo sentado num pedaço de linóleo que simulava o chão de uma casa de banho. Encolhido debaixo de um lavatório, cujo pé fora aparafusado às tábuas do palco, o personagem recordava um episódio de infância no qual estaria sentado no chão de outra casa de banho, debaixo de outro lavatório, abraçado aos joelhos, com pele de galinha, a ouvir a estática de um secador de cabelo. E, no que restava de monólogo – uma confissão freudiana que explicava a incapacidade do personagem em relacionar-se com o sexo oposto –, Egon, já de pé, fingia fazer a barba com uma navalha, os músculos tensos, a cabeça rapada, o gume da lâmina a desenhar os contornos da maçã-de-adão.

Foi acordado pela senhora da limpeza. Dormira encolhido num sofá, no foyer do teatro. Acordou tonto, doía-lhe tudo, tinha as mãos ensanguentadas. A senhora da limpeza seguira esfregando o piso. Egon saíra para a rua e descera a escadaria de acesso ao metro, trajando ainda a nudez com que interpretara a peça, agasalhado com o xaile, a cambalear descalço no cais de embarque. Durante a viagem, vira-se reflectido nas portas da carruagem – a figura desfocada que trepidava contra a parede do túnel tinha sangue coagulado nas narinas, sangue pisado nos lábios, derramado nos olhos roxos.

Quando chegou a casa e tocou à campainha, Egon ouviu o skate do lado de lá da porta a rolar pelo parquet da sala e imaginou o filho com o skate debaixo dos pés, à espera, sentado a ver televisão, pronto a lançar-se à porta assim que o ouvisse chegar. Egon falhara o compromisso de levá-lo ao cinema, o compromisso de passar mais tempo com ele. Quando o filho abriu a porta, Egon foi directo à casa de banho, onde, debruçado no lavatório, limpou as feridas e contou ao filho que rolara atrás de si de skate, acerca da festa que se seguira à estreia.

Egon lembrava-se de estar sentado sozinho num sofá de couro, com um copo de vinho na mão. Lembrava-se dos corpos mundanos indo e vindo pelo piso amarelo-torrado do foyer, lembrava-se do longo balcão de vidro sobre o qual estavam expostas edições do texto dramático e lembrava-se da maciça máquina de projecção de 35mm, cercada por uma corda, aposentada ao fundo do átrio. Estavam lá o encenador e o dramaturgo; o serígrafo que desenhara o cartaz do espectáculo; estavam lá amigos, jornalistas e membros do público.

Contou ao filho como dançara de sorriso emplastrado, serpenteando como uma labareda, a marcar compasso com os dedos apontados ao globo do candeeiro de tecto. Contou como encostara a boca ao ouvido da DJ para elogiar o set, contou como a puxara pelo cabelo para tentar forçar um beijo e acabara por atirá-la ao chão. E contou como alguém viera pelas suas costas e o puxara pelos ombros e lhe desferira um directo ao nariz, um uppercut ao queixo e um gancho ao fígado que o dobrara em dois. Finalmente, contou ao filho como pensara na mãe deste e nas saudades que tinha de vê-la sentada na primeira fila como uma irredutível e bela peça de xadrez.

Nesse fim de tarde, Egon e o filho desceram a rua do coliseu. Era domingo, terminava a visita, estava na hora do filho regressar a casa da mãe. À entrada do metro, Egon abriu as páginas do caderno e deu ao filho a folha de plátano. “Para começares um herbário,” disse e o filho deu-lhe um abraço e entalou o skate debaixo do braço e desceu a escadaria de acesso à estação.

Renato Chagas

Nasci em Lisboa. Estudei cinema, actividade em que iniciei carreira profissional. Em 2004, parti para Moçambique e por lá fiquei, tendo integrado de corpo e alma um período áureo de produção cinematográfica na África Austral. Num volte-face, ditariam a curiosidade, o espírito aventureiro, e as regiões por onde me movia, que agarrasse a oportunidade de trabalhar na indústria naval, para a qual implementei e geri entrepostos de logística em Moçambique, Angola, Tanzânia, África do Sul, Senegal e Quénia. Recentemente regressado a Portugal, assentei em Montemor-o-Novo, Alentejo, onde, entre outras coisas, me dedico à escrita.

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