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O paradoxo da hospitalidade e da xenofobia

O primeiro artigo que publiquei no Repórter Sombra, em outubro de 2021, argumenta que o fundamento da liberdade de expressão é a alteridade. A ideia passa por reconhecer o Outro com quem dialogo como igual, permitindo que ele se expresse, e que eu possa compreender o seu ponto de vista como se visse o mundo pelos seus olhos. É evidente que se eu não me apercebo das lentes com as quais vejo o mundo, dificilmente terei abertura suficiente para conseguir escutar o Outro nos seus próprios termos.

Hoje, passado algum tempo desde que escrevi o artigo, assistimos a uma polarização na sociedade que nunca pensei presenciar, especialmente quando algo de que nos orgulhamos é a hospitalidade que prestamos. Esta hospitalidade vai tão longe que até na sabedoria popular encontramos expressões como “onde come um português, comem dois ou três”. De um modo ou de outro, todos temos recordações dos convidados que trazíamos a casa para almoçar ou jantar sem avisar, e a quem se dizia que sempre se arranja alguma coisa, ou descobrindo que a comida na panela dava para mais do que se pensava.

Na verdade, a nossa dedicação ao que vem de fora, vai ao ponto de termos sido eleitos, pelos turistas, como o segundo país europeu mais hospitaleiro. E isto não é de agora, já em 2013 o Público noticiava um estudo do Fórum Económico Mundial, onde Portugal surgia em sétimo lugar (de 140) entre os países que melhor acolhiam turistas. Há, até, quem diga que, apesar de se mostrar aberto para discutir o tema, que “[q]uestionar a hospitalidade lusitana é uma heresia”.

O mesmo país que desde 2013 está no topo de países que bem acolhe turistas também é, porém, o país onde se atacam casas onde vivem imigrantes. Ataques que já aconteceram no Porto, mas também, em Praias do Sado. Muitos outros se podem enumerar, se incluirmos também os ataques a estabelecimentos comerciais que algumas destas pessoas imigrantes têm.

Parece que o país vive em duas realidades distintas. Somos simpáticos para quem nos visita, mas não gostamos dos que aqui vivem?

O paradoxo, na minha opinião, consegue ser ainda mais profundo. Enquanto algumas vozes defendem que temos estrangeiros a mais, na verdade, ninguém se queixa das contribuições para a Segurança Social que estes trabalhadores fazem. Não é comum ouvir quem defenda que há que implementar o princípio de igualdade salarial, não apenas entre homens e mulheres, mas também, entre nacionais e imigrantes[1].

Não podemos ser ingénuos e pensar que a solução para acabar com a emigração dos portugueses, jovens ou não, passa por impedir que imigrantes entrem no país. A imigração ocorre porque existem vagas de empregos que precisam de pessoas com determinadas competências e caraterísticas e que estão disponíveis para essas vagas. As pessoas não se endividam para se deslocarem de um país para outro sem qualquer perspetiva de conseguirem um trabalho[2].

A psicologia social poderá argumentar que as diferentes atitudes em relação aos imigrantes e aos turistas se relacionam com a competição por recursos. Por princípio um turista visita-nos, às vezes até formamos uma representação de alguém exótico, mas logo depois vai-se embora, enquanto um imigrante será uma presença (quase) diária e, por vezes, até meu companheiro de trabalho. Por outras palavras, existe uma relação entre a competição por recursos, como emprego, acesso aos serviços do welfare state, entre outros, e o aumento de atitudes anti-imigração.

A teoria do conflito pode ajudar a explicar parte do problema, mas não tem em conta a capacidade de solidariedade e união, que também nos carateriza. A Alemanha nazi não foi derrotada porque cada potência aliada decidiu combater sozinha Hitler, mas porque vários países combinaram esforços para esse objetivo. O mesmo se pode dizer acerca de muitos dos direitos que podemos usufruir agora, que foram conquistados através da união e formas de lutas combinadas dos trabalhadores.

Se já conseguimos fazer das tripas, coração, o que nos falta para conseguirmos reconhecer quem é igual a nós e que só tenta melhorar a sua vida, como muitos dos nossos que estão por esse mundo fora?


[1] Regra geral, os imigrantes recebem um salário inferior do que um nacional, nas mesmas condições.

[2] Para quem quer aprofundar mais este assunto, a leitura de How Migration Really Works: A Factful Guide to the Most Divisive Issue in Politics, de Hein de Haas, é uma boa forma de o fazer. Além de ser muito acessível a quem não tem conhecimentos na área das migrações, está organizado por um conjunto de mitos associados à migração que o autor vai desconstruindo.

Nota: este artigo foi escrito segundo o Antigo Acordo Ortográfico.

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